Princípios para o uso responsável de Inteligência Artificial na Ciência Viva

Versão 1.0, de 27 de maio de 2026, aprovada pela direção da Ciência Viva. Para questões e sugestões, contactar

Enquadramento teórico

À medida que a Ciência Viva explora o uso de Inteligência Artificial (IA) no desenvolvimento das suas atividades, estes princípios orientam o modo como utilizamos esta tecnologia e clarificam as formas como a integramos no nosso trabalho. Este documento é um ponto de partida e será ajustado com base na experiência das equipas e na evolução das ferramentas disponíveis no mercado. Estes princípios alinham-se com referenciais internacionais reconhecidos para a comunicação científica e a preservação do património digital, nomeadamente a Recomendação da UNESCO sobre a Ética da Inteligência Artificial (2021) e o relatório Synthetic Content and its Implications for AI Policy (2024).

 


Ao serviço da nossa missão

A IA constitui-se como uma ferramenta que pode apoiar, e em certos contextos ampliar, a capacidade da Ciência Viva de promover a cultura científica, tornando o conhecimento mais acessível, envolvente e relevante para diferentes públicos.

Tal como outras tecnologias que se tornaram prementes ao longo das últimas décadas, a IA permite-nos explorar novas formas de comunicar ciência, apoiar processos educativos e enriquecer a experiência dos visitantes. Não a percecionamos como uma solução automática ou absoluta, mas como uma ferramenta que pode ser colocada ao serviço da nossa missão.

 


Com supervisão e responsabilidade humanas

O conhecimento, a experiência e o pensamento crítico das equipas da Ciência Viva são insubstituíveis, já que alguns conteúdos gerados por IA podem, potencialmente, ser imprecisos e sujeitos a erro.

A IA poderá apoiar em certas partes do processo de ideação e execução, nomeadamente na criação de conteúdos e automatização de processos, mas o trabalho deverá ser sempre orientado, revisto e validado por profissionais competentes. A responsabilidade final pelo conteúdo produzido é inequivocamente e sempre humana, independentemente das ferramentas utilizadas.

Neste contexto, as equipas da Ciência Viva não são substituídas pela IA: passam a desempenhar um papel essencial de autenticadores da realidade, de forma a validar, contextualizar e garantir a integridade dos conteúdos gerados. Quanto mais convincentes se tornam os outputs da IA, mais crítico se torna o papel humano de discernir entre o que é registo empírico, o que é representação fiel e o que é síntese plausível.

O rigor científico continua a ser um princípio inegociável para a Ciência Viva, o que implica a identificação clara das fontes, da origem dos dados e do enquadramento teórico subjacente a qualquer conteúdo produzido com recurso a IA.

 


Com transparência e integridade

A confiança do público e a reputação da marca Ciência Viva fazem parte dos nossos valores, que colocamos em primeiro lugar. Sempre que a IA tiver um papel relevante na criação de conteúdos, devemos ser transparentes quanto ao seu uso, explicando de forma clara e acessível como foi utilizada e qual a sua finalidade.

A utilização de IA deve também ser feita de forma consciente quanto ao seu impacto ambiental, garantindo um uso responsável, racional, equilibrado e alinhado com os valores da instituição. Promovemos o seu uso proporcional, eficiente e consciente.

A utilização de IA deve respeitar os mesmos padrões de qualidade, rigor e integridade que, desde sempre, orientam a nossa atuação.

 


Com clareza no uso de imagens e vídeo

A Ciência Viva também adota uma abordagem clara e responsável no uso de IA para conteúdos visuais:

  • Privilegiamos, sempre que possível, o uso de imagens ou vídeos reais, representando situações reais; 
  • Não manipulamos fotografias ou vídeos com IA para representar situações reais; 
  • Não utilizamos IA para gerar imagens ou vídeos que possam ser interpretados como representações reais de acontecimentos, pessoas ou contextos. 
  • Antes de publicar qualquer conteúdo visual gerado ou modificado por IA, deve aplicar-se uma pergunta-teste fundamental: «Este resultado é um registo, uma representação ou uma hipótese?». A resposta determina o nível de transparência exigido e o modo de comunicar o conteúdo ao público.

Quando são utilizadas imagens geradas por IA:

  • dentificamos claramente que se trata de conteúdo gerado por IA através de um aviso legal, em formato legenda ou marca de água: “Conteúdo criado com recurso a IA generativa”; “Conteúdo manipulado/criado digitalmente com IA”; “Imagem sintética gerada por IA”; ou “Esta imagem foi produzida artificialmente e não representa um registo fotográfico real”. 
  • Justificamos o motivo da sua utilização; 
  • Sempre que for tecnicamente viável, registam-se também os metadados mínimos da sua geração: modelo e versão utilizados, data, parâmetros principais (prompt resumido) e eventuais passos iterativos. 

Este princípio é essencial para evitar desinformação e para preservar a credibilidade e o rigor da informação que está a ser transmitida.

 


Com transparência na produção de conteúdos

A IA deve ser utilizada como ferramenta de apoio, e não como substituto da autoria, do pensamento crítico ou do processo criativo humano. Conteúdos gerados por IA devem ser sempre revistos, reescritos e adaptados por quem os utiliza.

Sempre que a IA tenha um papel relevante na criação de conteúdos, esse uso deve ser assumido com transparência. A utilização de IA deve respeitar os direitos de outros criadores, não devendo ser usada para copiar ou imitar estilos de forma enganosa. A Ciência Viva valoriza e apoia o trabalho de criadores profissionais, promovendo um uso de IA que complemente, e não substitua, a criatividade humana.

Para apoiar as equipas na classificação das ferramentas que utilizam, recomenda-se a aplicação de um quadro simples de quatro categorias:

  • Ferramentas empíricas — produzem registos mensuráveis da realidade (fotogrametria, LiDAR, scanners 3D); 
  • Representação neural de cenas — interpolam visualmente cenas reais a partir de fotografias (NeRF, 3D Gaussian Splatting); 
  • IA generativa — sintetiza conteúdos plausíveis a partir de padrões aprendidos (modelos de difusão, modelos de linguagem, geradores de imagem, vídeo e voz);
  • Abordagens híbridas — combinam duas ou mais das anteriores (por exemplo, sistemas RAG que cruzam modelos generativos com fontes verificáveis).

As três primeiras categorias correspondem, respetivamente, a registos, representações e hipóteses. As exigências de transparência e validação devem ser proporcionais à categoria utilizada.

 


Com segurança no uso de dados e ferramentas

A utilização de IA deve respeitar boas práticas de segurança e proteção de dados. Devem ser utilizadas plataformas aprovadas pela Ciência Viva, evitando a introdução de informação sensível (dados pessoais ou confidenciais de visitantes, colaboradores, parceiros ou projetos internos não públicos) em ferramentas não autorizadas. A forma como utilizamos a IA continuará a evoluir à medida que aprendemos com a prática e acompanhamos o desenvolvimento tecnológico.

Em caso de dúvida, deverá sempre prevalecer o rigor científico, a transparência e a responsabilidade individual e coletiva.

 


O que fazemos e o que não faremos

Permitido:

  • Utilizar a IA como ferramenta de apoio ao trabalho, ao serviço da missão da Ciência Viva;
  • Garantir sempre revisão, validação e responsabilidade humana em todos os conteúdos produzidos com IA;
  • Assegurar o rigor científico, mesmo quando a IA é utilizada para simplificar ou adaptar conteúdos;
  • Ser transparente sempre que a IA tiver um papel relevante na criação de conteúdos; 
  • Explicar, quando necessário, como e para que foi utilizada a IA;
  • Utilizar ferramentas aprovadas pela organização;
  • Usar a IA para melhorar a comunicação de ciência, a criatividade e a eficiência das equipas; 
  • Identificar claramente imagens geradas por IA e explicar o seu propósito; 
  • Partilhar boas práticas e exemplos de uso eficaz entre equipas;
  • Documentar, sempre que possível, o modelo, versão e parâmetros principais utilizados na geração dos conteúdos;
  • Distinguir, nos conteúdos publicados, as componentes ancoradas em evidência empírica das componentes especulativas geradas por IA;
  • Usar o próprio processo de criação com IA como recurso educativo, demonstrando como a ciência raciocina e como se constrói uma reconstrução fundamentada.

Não Permitido:

  • Utilizar IA como substituto do conhecimento, pensamento crítico ou validação humana;
  • Publicar conteúdos gerados por IA sem revisão e verificação prévia;
  • Comprometer o rigor científico ou simplificar de forma incorreta;
  • Omitir o uso de IA quando este for relevante para o resultado; 
  • Introduzir dados sensíveis, pessoais ou confidenciais em ferramentas não autorizadas; 
  • Utilizar IA para manipular fotografias ou vídeos que representem situações reais;
  • Gerar imagens ou vídeos com IA que possam ser interpretados como representações reais de acontecimentos, pessoas ou contextos;
  • Apresentar conteúdos gerados por IA como sendo integralmente produzidos por humanos; 
  • Utilizar IA sem necessidade justificada ou de forma desproporcionada ao objetivo pretendido;
  • Ignorar impactos ambientais, sociais ou éticos associados ao uso de IA.

Referências:

  1. Denard H (2012) A new introduction to the London Charter. In: Bentkowska-Kafel A, Baker D, 
  2. Denard H (eds) Paradata and transparency in virtual heritage. Ashgate, Farnham, pp 57–71 
  3. Tripo AI (2024) Tripo AI [Software]. https://www.tripo3d.ai/ 
  4. UNESCO (2003) Charter on the preservation of digital heritage. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, Paris. 
  5. UNESCO (2021) Recommendation on the ethics of artificial intelligence. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, Paris. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000380455 
  6. UNESCO (2024) Synthetic content and its implications for AI policy: a primer. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, Paris. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000392181