Conversas com Cientistas - Décadas de Ciência para Dias de Vacinas

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A pandemia de COVID-19 mudou por completo o nosso modo de vida em sociedade.

 

Hoje, as vacinas desenvolvidas contra o vírus SARS-CoV-2 são uma arma poderosa no combate à pandemia. Mas como funcionam as vacinas? Para que servem? Como é que nos protegem?

 

A campanha Conversas com Cientistas - D√©cadas de Ci√™ncia para Dias de Vacinas ir√° promover conversas entre cientistas e o p√ļblico sobre as principais diferen√ßas entre as vacinas contra a COVID-19 e as d√©cadas de investiga√ß√£o cient√≠fica que permitiram o desenvolvimento destas vacinas em tempo recorde, com a garantia da sua efic√°cia e seguran√ßa. 

 

 

 

Inscri√ß√Ķes

 

D√©cadas de trabalho cient√≠fico permitiram o desenvolvimento e produ√ß√£o em tempo recorde  das vacinas contra a COVID-19.

Entre os dias 20 e 30 de abril, cerca de 400 conversas, envolvendo mais de uma centena de investigadores, de v√°rias √°reas do conhecimento, e de todo o pa√≠s ir√£o acontecer online . Destinadas a diferentes p√ļblicos, dispon√≠veis em Portugu√™s ou em Ingl√™s, estas conversas s√£o gratuitas mas requerem uma inscri√ß√£o pr√©via obrigat√≥ria.

 

Esta campanha resulta de uma parceria entre:

 

 

PARA QUE SERVEM AS VACINAS ?

O objetivo de uma vacina √© ‚Äúensinar ‚Äú o sistema imunit√°rio a reconhecer um agente infeccioso e estimular o nosso sistema imunit√°rio a produzir anticorpos contra esse microorganismo.  Existem v√°rias maneiras de desenvolver uma vacina, no entanto todas t√™m esse objetivo comum. As vacinas ajudam o nosso corpo a adquirir uma defesa prolongada contra diferentes doen√ßas, incluindo a COVID-19.

 

 

Antes da utiliza√ß√£o de uma vacina ser autorizada, e independentemente da tecnologia escolhida para a sua produ√ß√£o, esta tem sempre que passar por um rigoroso processo de avalia√ß√£o da sua seguran√ßa e efic√°cia. Este controlo apertado ajuda a distinguir as vacinas como uma das interven√ß√Ķes m√©dicas que mais vidas salvaram ao longo da hist√≥ria da humanidade, ao conferirem uma prote√ß√£o efetiva contra diversas doen√ßas infeciosas que no passado causaram in√ļmeras mortes.

A vacina√ß√£o √© uma ferramenta essencial de sa√ļde p√ļblica. As vacinas s√£o seguras, eficazes e evitam doen√ßa severa.

Os anticorpos atuam atrav√©s do reconhecimento de partes espec√≠ficas de cada agente patog√©nico, como prote√≠nas √† superf√≠cie da c√©lula ‚Äď marcadores a que chamamos antig√©nios. Quando o nosso organismo √© exposto a um determinado antig√©nio pela primeira vez, o nosso sistema imunit√°rio produz anticorpos espec√≠ficos para ele. Adaptado de Organiza√ß√£o Mundial de Sa√ļde

 

COMO NOS PROTEGEM?

Quando algu√©m √© vacinado, √© muito prov√°vel que fique protegido contra a doen√ßa-alvo, no entanto existe um pequeno n√ļmero de pessoas que n√£o pode ser vacinado - como s√£o exemplo os transplantados, os imunodeprimidos, alguns doentes cr√≥nicos e tamb√©m os rec√©m nascidos.

 

O motivo pelo qual estas pessoas não podem ser vacinadas está relacionado com o funcionamento do seu sistema imunitário, ou então porque podem desenvolver alergias graves a alguns líquidos utilizados como base para dissolver a vacina, os excipientes.

 

Porém, a vacinação não só protege quem é vacinado, como também aqueles que não podem receber a vacina. Quando grande parte da população já se encontra imune, o agente infeccioso tem dificuldade em difundir-se na comunidade e a probabilidade de infetar pessoas que não possam ser vacinadas é então mais limitada. A este fenómeno chamamos imunidade de grupo.

O que é a imunidade de grupo?

 

¬©ÔłŹi3S - Instituto de Investiga√ß√£o e Inova√ß√£o em Sa√ļde - abril 2020

 

VACINAS CONTRA A COVID-19, COMO FUNCIONAM ?

Diferentes farmac√™uticas, empresas e institui√ß√Ķes cient√≠ficas t√™m trabalhado no desenvolvimento de v√°rias vacinas contra a COVID-19. Todas trabalham sobre o mesmo alvo: uma prote√≠na que s√≥ existe nos coronav√≠rus, incluindo o SARS-CoV-2. Esta prote√≠na chama-se esp√≠cula ( Spike em ingl√™s), encontra-se na superf√≠cie do v√≠rus e funciona como uma chave para este entrar nas nossas c√©lulas. No entanto, por si s√≥ esta prote√≠na n√£o tem capacidade para causar doen√ßa.  Uma vez que o nosso corpo reconhece a spike como um elemento externo, o que as vacinas fazem √© induzir a produ√ß√£o de anticorpos contra ela, bloqueando esta ‚Äúchave", impedindo que o v√≠rus infete as nossas c√©lulas e se multiplique.

As vacinas contra a COVID-19 foram por isso desenhadas para provocar a produ√ß√£o da Spike , ou para introduzir esta prote√≠na (ou partes dela) no nosso organismo, desencadeando como resposta a produ√ß√£o de anticorpos e de c√©lulas do sistema imunit√°rio. Algumas destas c√©lulas ficam na ‚Äúmem√≥ria‚ÄĚ do nosso corpo e, se formos infetados, s√£o rapidamente recrutadas para combater o SARS-CoV-2 . Outra vantagem da Spike √© que esta √© a prote√≠na que desencadeia a produ√ß√£o de anticorpos mais potente.   

Apesar de todas as vacinas disponíveis terem sido desenhadas para este alvo, o seu desenvolvimento baseou-se em tecnologias diferentes. Há três principais grupos de vacinas contra a COVID-19, dois que já estão aprovados - Vetor Viral e RNA e um próximo de uma aprovação - Subunidades.

 

Vetor Viral: utilizam um outro v√≠rus modificado - o adenov√≠rus - como ve√≠culo para transportar para dentro das c√©lulas as instru√ß√Ķes gen√©ticas que v√£o levar √† produ√ß√£o da prote√≠na ‚ÄúSpike‚ÄĚ.

 

RNA*: utilizam material gen√©tico do v√≠rus que tem as instru√ß√Ķes para fazer a prote√≠na ‚ÄúSpike‚ÄĚ.

 

Subunidades: utilizam a prote√≠na ‚ÄúSpike‚ÄĚ

*RNA, sigla do inglês ribonucleic acid , que traduzido para português significa ácido ribonucleico (ARN)

¬©ÔłŹCi√™ncia Viva, com Paula Alves (IBET e ITQB Universidade Nova de Lisboa) - Janeiro 2021

AS VACINAS CONTRA A COVID-19 NA UE

COMO SE PRODUZIRAM T√ÉO RAPIDAMENTE VACINAS CONTRA A  COVID-19?

O que é Ciência Fundamental?

A ci√™ncia fundamental √© aquela que procura explicar o mundo que nos rodeia e que √© movida pela curiosidade dos cientistas. √Č toda a ci√™ncia que procura produzir conhecimento, pelo conhecimento. Isto √©, sem ter como objetivo imediato uma aplica√ß√£o pr√°tica ou a solu√ß√£o para um problema. √Č gra√ßas √† ci√™ncia fundamental que muitas vezes conseguimos anos mais tarde encontrar respostas a novos problemas. No caso da COVID-19, as d√©cadas de investiga√ß√£o fundamental foram determinantes para o desenvolvimento de vacinas num curto espa√ßo de tempo.

Ao fim de cerca de 9 meses come√ßaram a ser apresentadas as vacinas contra a COVID-19, mas como √© que  foi poss√≠vel se, em m√©dia, o desenvolvimento de novas vacinas demora v√°rios anos?

 

Aqui fica "uma m√£o cheia" de raz√Ķes:

 

Raz√£o 1: 

 

As peças essenciais que possibilitaram a rápida produção das vacinas contra a COVID-19 resultaram do acumular de conhecimento gerado ao longo de décadas.

 

Ao longo de v√°rios anos, por vezes realizadas em paralelo, muitas descobertas foram acontecendo em diferentes laborat√≥rios, gra√ßas ao trabalho de investiga√ß√£o fundamental de in√ļmeros grupos de cientistas, distribu√≠dos pelo mundo.

 

As linhas que unem estas descobertas foram-se cruzando e a colabora√ß√£o e a partilha - propriedades inerentes ao processo de constru√ß√£o de conhecimento - foram fundamentais para que todas estas pe√ßas estivessem ‚Äúprontas a usar‚ÄĚ quando o SARS-CoV-2 originou a pandemia em Mar√ßo de 2020.

 

Sem estas linhas, ou percursos percorridos, que mais parecem um labirinto, nunca teria sido possível produzir, em tempo recorde, as vacinas contra a COVID-19.

Razão 2: A experiência acumulada sobre a produção de vacinas, contra outras doenças.

 

Razão 3: Por causa da gravidade das doenças causadas pelos vírus SARS-CoV e MERS-CoV (ambos da família de coronavirus), muitos laboratórios já tinham começado a desenvolver terapias, a identificar anticorpos e a testar estratégias de vacinação contra estes vírus.

 

Razão 4: As plataformas de produção de vacinas têm passado por avanços extraordinários.

 

Razão 5: Durante os ensaios clínicos houve três fatores que foram determinantes para encurtar do tempo de produção das vacinas contra a COVID-19.

 

- A partir de Fevereiro 2020, come√ßaram diretamente os ensaios de Fase II . N√£o foram necess√°rios ensaios de seguran√ßa (Fase I), visto j√° terem sido realizados com outros coronav√≠rus, aquando da epidemia de SARS-CoV-1 (SARS) que se declarou na √Āsia em 2003. A passagem direta para as Fases II e III tamb√©m s√≥ foi poss√≠vel uma vez que o seu financiamento estava j√° assegurado.

 

- S√≥ √© poss√≠vel testar a efic√°cia de uma vacina, testando-a num n√ļmero elevado de infetados. Neste caso, a dissemina√ß√£o do v√≠rus foi t√£o vertiginosa que depressa se conseguiu testar as vacinas em dezenas de milhares de volunt√°rios e determinar que eram eficazes na protec√ß√£o contra a doen√ßa COVID-19 .

 

- A Fase de Regulamentação e Aprovação decorreu em paralelo com a Fase III dos ensaios clínicos.

Fase I Ensaios de segurança. Quais os efeitos secundários e como o tratamento é eliminado pelo organismo.

 

Fase II Ensaios para determinar a dose certa do tratamento com base na resposta imune induzida, nomeadamente na quantidade de anticorpos produzidos.

 

Fase III Ensaios para avaliar a eficácia. Fase em que são vacinadas milhares de pessoas em áreas com muita transmissão, para avaliar se ficam protegidas contra o vírus.

¬©ÔłŹiMM - Instituto de Medicina Molecular Jo√£o Lobo Antunes,com Bruno Silva Santos, imunologista do iMM - janeiro 2021

¬©ÔłŹiMM - Instituto de Medicina Molecular Jo√£o Lobo Antunes, com Miguel Prud√™ncio, parasitologista do iMM - janeiro 2021


VACINAS CONTRA A COVID-19 | FAQ¬īS

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As vacinas s√£o seguras ?

Sim, as vacinas são seguras, como demonstrado na investigação conducente à sua aprovação. Todas as vacinas passam por um processo rigoroso de avaliação da sua segurança e eficácia, antes que a sua utilização seja autorizada.

 

Como foi possível desenvolverem-nas tão rapidamente ?

H√° v√°rios motivos que justificam a rapidez no desenvolvimento destas vacinas. A tecnologia usada assenta em d√©cadas de investiga√ß√£o em diferentes √°reas (com a virologia, a imunologia, a qu√≠mica); as ind√ļstrias farmac√™uticas envolvidas avan√ßaram com v√°rias fases ao mesmo tempo; as entidades reguladoras foram r√°pidas na avalia√ß√£o dos processos; houve uma grande participa√ß√£o em termos de volunt√°rios, que permitiu a an√°lise robusta dos resultados.

 

O RNA do vírus pode alterar o nosso código genético ?

Não. O fragmento de ácido nucleico usado nas vacinas serve apenas para instruir as nossas células a produzir a proteína spike, que será depois reconhecida pelas células do sistema imunitário.

 

Porque é preciso armazenar as vacinas a temperaturas tão baixas ?

Porque o RNA é mais estável a estas temperaturas, que protegem as vacinas de degradação.

 

As crianças podem ser vacinadas ?

Estas vacinas foram testadas em adultos, pois as crianças não desenvolvem por norma doença grave e parecem também não contribuir significativamente para a transmissão do virus.

 

Tive COVID-19. Devo ser vacinado ?

Há já alguns estudos (pelo menos na versão pre-print) sugerindo que para indivíduos que já tenham tido infeção por SARS-CoV-2, uma dose de vacina será suficiente para elevar a produção de anticorpos a níveis protetores. Isto porque estes indivíduos terão já uma certa imunidade, que será potenciada pela dose da vacina. Tomando os anticorpos como exemplo, num indíviduo com infeção prévia haverá já memória, sendo que uma dose da vacina irá aumentar o nível destes anticorpos para níveis semelhantes aos observados após duas doses de vacinas administradas a indivíduos naives (que nunca foram infetados por SARS-CoV-2).

 

Quais s√£o os principais efeitos secund√°rios das vacinas ?

Dos estudos realizados e do acompanhamento em tempo-real da vacinação, não parecem haver grandes efeitos secundários. Há casos de fadiga, dores de cabeça, dores ou inchaço localizado. Nenhum estudo reporta efeitos secundários severos ou prolongados.

 

Porque s√£o precisas duas doses?

A primeira dose prepara o sistema imunit√°rio, d√° as primeiras instru√ß√Ķes, e a segunda funciona como um ¬ęboost¬Ľ, um potenciador da resposta. Assim, a resposta protetora ser√° m√°xima ap√≥s a segunda dose.

 

Porque é que são administradas com 3 semanas de intervalo ?

√Č o intervalo testado nos estudos realizados e tido como √≥timo para o funcionamento da segunda dose. Em princ√≠pio haver√° produ√ß√£o m√°xima de anticorpos ap√≥s as 2 doses administradas com um intervalo de 3 semanas. N√£o se quer com isto dizer que a vacina n√£o funcione com efic√°cia se um protocolo diferente for usado.

 

As vacinas contém o vírus ?

As vacinas aprovadas na Europa atualmente não contém o vírus.

 

Só vamos precisar de ser vacinados uma vez ? Ou será necessário repetir todos os anos ?

Não sabemos. Teremos que aguardar investigação nesta área para conseguirmos responder a esta questão.

 

Porque é que as variantes do vírus podem escapar à vacina ?

√Č poss√≠vel que uma variante do v√≠rus altere a conforma√ß√£o da prote√≠na spike e por consequ√™ncia o seu reconhecimento pelos anticorpos produzidos em resposta √† vacina. Se isso acontecer, o v√≠rus pode escapar √† vacina.

 

Se for vacinado deixo de transmitir o vírus , caso seja infetado ?

Aparentemente n√£o. A vacina parece proteger contra uma manifesta√ß√£o severa de COVID-19. √Č poss√≠vel que os indiv√≠duos vacinados sejam assintom√°ticos, mas consigam transmitir o v√≠rus.

 

Porque precisamos de vacinar 70% da população ?

Este valor é o estimado para se atingir imunidade de grupo. A imunidade de grupo é importante pois limita a propagação da infeção, protegendo indivíduos que não possam ser vacinados.

FICHA T√ČCNICA

 

Equipa de coordenação:

Catarina Ramos, FC

Diana Mendes Freire, CV

Inês Domingues, iMM

Jo√£o Filipe Marques, CV

Marta Moita, FC

Curadoria científica:

Helena Soares, CEDOC

Luís Graça, iMM

Maria Jo√£o Amorim, IGC

Thiago Carvalho, FC

 

Textos:

Ana Mena, IGC

Inês Domingues, iMM

Catarina Ramos, FC

Marta Moita, FC

 

FAQs:

Helena Soares, CEDOC

Margarida Saraiva, i3S e SPI

Miguel Prudêncio, iMM

Formação de voluntários:

André Valente, FC

Daniel Nunes, FC

Helena Soares, CEDOC

Margarida Saraiva, i3S e SPI

Design e Web Design:

Ciência Viva

 

Guião e legendas do Vídeo:

Anna Hobbiss, CEDOC e FC

Inês Domingues, iMM

Catarina Pimentel, FC

Catarina Ramos, FC

Marta Moita, FC

 

Produção vídeo:

Ciência Viva