Acerca do chá


Breve nota histórica

A utilização do chá, ao que parece, começou por ter um caracter medicinal e o seu uso como bebida, preparada a partir da infusão das folhas de chá, data de há milénios. Segundo a lenda deve-se ao imperador chinês Shen Nung (2737 A C.) a descoberta das propriedades estimulantes da folha do chá. O tratado de Lu Yu, primeiro tratado sobre chá com caracter técnico, escrito no séc. VIII durante a dinastia Tang ajudou a imortalizar o papel da China como responsável pela introdução do chá no mundo. Nele foram estipulados pela primeira vez uma série de preceitos de caracter técnico.
No inicio do séc. IX a cultura do chá foi introduzida no Japão por um monge budista, Saicho, que trouxera da China algumas sementes. A cultura resultou com êxito e desenvolveu-se rapidamente. Produziu-se então nestes dois países, China e Japão, uma evolução extraordinária, Talvez única na história dos produtos de consumo humano e que tocou não só o domínio técnico e económico mas também, e principalmente, os domínios artístico, poético, filosófico e mesmo religioso, envolvendo o consumo de chá nestes dois países, mas principalmente no Japão, um cerimonial por vezes complexo mas sempre de grande significado.
A Europa só conheceu o chá num passado mais recente. As referências mais antigas que se encontram na literatura europeia respeitantes ao chá devem-se a Marco Polo no relato da sua viagem assim como a seu compatriota Ramusio, em escritos que datam de 1559, e ao português Gaspar da Cruz que a ele se refere numa carta dirigida ao seu soberano.
A sua introdução neste continente só se veio a verificar no início do séc. XVII, em consequência do comércio que então se estabelecia entre a Europa e o Oriente. Teriam sido os holandeses a trazer pela primeira vez o chá à Europa, sendo responsáveis pela intensificação do seu comércio mais tarde desenvolvido pelos ingleses. O chá era importado por intermédio da famosa “Tea English East Indian Company”, que detinha o monopólio do comércio de chá com a Ásia e que em 1715 se estabeleceu em Cantão passando a gozar de uma situação privilegiada. Esta manteve-se até 1833, altura em que se viu forçada a procurar novas fontes de abastecimento; virou-se então para as possessões da Inglaterra na Ásia (India e Ceilão) onde introduziu a cultura, primeiro na India e depois em Ceilão.
Na Inglaterra, o seu consumo intensificou-se rapidamente e a partir de meados do séc. XVIII o chá tornou-se a bebida de eleição de todas as classes sociais. É de sublinhar a popularidade que ainda hoje goza neste país, sendo bem conhecido o lugar que esta bebida ocupa na vida de todo o cidadão britânico.
A sua popularidade estendeu-se aos países onde a influência inglesa se fez sentir, primeiro nos EUA depois a Austrália e o Canadá Actualmente o chá é a bebida mais consumida em todo o mundo.
Em território português, presentemente, o chá só é cultivado em S. Miguel nos Açores onde a cultura, que se pratica desde finais do século XIX, é feita contudo em pequena escala. Apesar de no Continente ter sido tentada a sua cultura, nomeadamente no Minho e no Alentejo, hoje restam apenas algumas destas plantas, que existem com carácter ornamental.


Botânica
A planta do chá é designada por Camellia sinensis (L.) O. Kuntze e botanicamente pertence à família Theaceae. A planta do chá é lenhosa e de folhagem persistente. As folhas são alternas, de pecíolo pequeno, elípticas, dentadas e normalmente coriáceas, apresentando-se glabras ou ligeiramente pubescentes na página inferior ao longo da nervura principal. As suas folhas mais jovens e os gomos, parte da planta utilizada na produção do chá comercial, são cobertos por um fino indumento branco e sedoso que mais tarde vem a desaparecer. É este indumento, aliás, que está na origem do nome dado ao gomo terminal : Pekoe, da palavra chinesa pak-ho que significa cabelo ou penugem.
As flores, pequenas, são brancas, geralmente com 4 ou 5 pétalas, aromáticas e aparecem nas axilas das folhas em grupos de 2,3 ou 4.
O fruto é uma cápsula tricoca com 2 ou 3 cm de diâmetro. Dada a grande dispersão que a planta sofreu desde o início do seu cultivo até aos nossos dias e a livre hibridação entre os vários tipos geográficos, não tem sido fácil para os botânicos a descrição das variedades existentes.
Contudo, atendendo ao factor geográfico, consideram três variedades principais de Camellia sinensis, que podem ser reconhecidas na região de origem desta planta. São elas : var. sinensis (chá da China), var. assamica (chá de Assam) var. assamica ssp. lasiocalyx ( chá do Cambodja ou Indochina). Estas variedades cruzam-se entre si originando múltiplos híbridos.

Flôr e folhas de Camellia sinensis (planta do chá).


A Produção do chá nos Açores
Em 1874, chegaram aos Açores (Ilha de S. Miguel) as primeiras sementes de C. sinensis- a planta do chá- e, alguns anos mais tarde, foram chamados dois especialistas chineses que se dedicaram a ensinar aos fabricantes locais as técnicas de preparação das folhas. Todas as variedades de chá provêm dos rebentos jovens desta planta, as diferenças derivam do clima, do período da colheita e do tratamento a que são submetidos posteriormente.
Chegaram a funcionar na Ilha de S. Miguel mais de uma dezena de plantações com fábrica própria. Entre elas encontrava-se a Gorreana que é actualmente, a única plantação com fábrica de chá de toda a Europa.
A Gorreana explora 23 hectares, uma área capaz de produzir cerca de 40 toneladas de chá seco. São necessários em média, cerca de 4 Kg de folhas de chá fresco para obter 1 Kg de chá seco pronto para infusão. A Gorreana produz chá verde e chá preto ortodoxo, assim designado porque durante o processo de transformação das folhas estas ficam na sua maioria, enroladas e inteiras- tal como acontecia com o chá que era trabalhado com as mãos e não por meio das novas tecnologias, que deixam as folhas partidas ou esmagadas.
O processo de transformação tradicional ortodoxo do chá compreende várias fases:

a) Emurchamento- esta operação tem como objectivo murchar a folha, ou seja, fazê-la perder água por evaporação, para que não quebre durante a fase seguinte de enrolamento. As folhas são estendidas em camadas finas em tabuleiros sobre redes metálicas através das quais se faz passar uma corrente de ar quente, a temperatura contralada, forçada por ventiladores. As folhas pelo emurchamento perdem cerca de 25-50% do seu peso, este processo demora cerca de 16 a 24 horas;

b) Enrolamento- esta operação consiste em enrolar a folha. A destruição das membranas celurares permite o contacto dos vários componentes químicos com as enzimas. O enrolamento começou por ser manual, mas actualmente é feito numa máquina, esta consiste essencialmente, numa mesa e num tabuleiro onde se colocam as folhas e uma tampa que exerce pressão sobre elas. Um movimento de rotação faz girar a mesa e o tabuleiro em sentidos contrários. As folhas passam em seguida por um crivo que desfaz os aglomerados de folhas e separa as folhas mais finas das mais grossas, que voltam, geralmente a ser enroladas. As que passam pelo crivo seguem para a fermentação. Este processo demora cerca de 30 minutos mas pode ser repetido 2 ou 3 vezes, pois se o chá ficar insufecientemente enrolado origina infusões mais fracas.

c) Fermentação- as folhas são espalhadas em camadas de altura variável de 2,5 a 10 cm sobre uma superficie de cimento, de ripado ou em tabuleiros de alumínio. A fermentação exige a presença de oxigénio (trata-se em termos químicos de uma reacção de oxidação) e uma temperatura que não exeda os 27 ºC, além de uma atmosfera húmida. A fermentação demora cerca de 2 a 3 horas.

d) Secagem- esta operação tem como principal objectivo, parar a fermentação. A sua duração depende da humidade da folha, normalmente demora cerca de 20 minutos, a 90 ºC. A secagem faz-se mediante uma corrente de ar quente que atravessa os tabuleiros.

e) Escolha, armazenagem e embalagem- Depois de arrefecidas, as folhas são separadas de acordo com os seus diferentes tamanhos. Esta separação é efectuada geralmente em crivos rotativos ou pratos oscilantes associados a máquinas que quebram as folhas e outras que aspiram poeiras ou corpos estranhos. O chá édepois armazenado em tulhas ou silos até à altura de ser embalado.
A selecção das folhas dá origem aos diferentes tipos ou graus de chá preto. Entre outros, destacamos os diferentes tipos de chá preto produzidos pela Gorreana (Açores), o Orange Pekoe (feito a partir do gomo apical e da 1ª folha do rebento, muito enrolado, resultando numa rica infusão, com sabor e perfume delicados), o Pekoe (originário da 2ª folha tem um paladar e aroma menos acentuado ) e o Broken Leaf (feito a partir da 3ª folha e de folhas partidas, é menos aromático mas mais suave).
O chá verde difere ligeiramente no processo de transformação, após a colheita as folhas são sujeitas a um processo de “steaming”, que consiste na aplicação de vapor de água o que leva à inactivação de enzimas (polifenol oxidades), impedindo a fermentação (ou mais correctamente a oxidação). As folhas são depois enroladas, secas e de novo enroladas. Ficam no final, com uma cor verde-azeitona, escura e inteiras.


Rebentos jovens de Camellia sinensis usados para a produção do chá.Plantação de chá (Plantações Gorreana, São Migguel, Açores).
Tabuleiros onde se processa o emurchamento do chá.Enrolador de chá.
Tabuleiros onde se processa a fermentação do chá.Secagem das folhas de chá.
Crivos que separação as folhas de chá de acordo com o seu tamanho, dando origem aos diferentes tipos de chá preto.Selecção e embalagem do chá.
Máquina que gera vapor, onde se colocam as folhas de chá e se desenrola o processo de “steaming” que inactiva as enzimas responsáveis pela fermentação, originando assim chá verde.


Composição química do chá
Na composição de um rebento de chá, cerca de metade da matéria seca é insolúvel em água e dela fazem parte a fibra bruta, celulose, proteínas, gorduras, amido, etc.
Por sua parte a matéria seca insolúvel em água contém polifenois, aminoácidos, cafeína, açucares e ácidos gordos. A cafeína é um composto que pertence ao grupo dos alcalóides derivados das purinas. Na sua forma pura a cafeína é uma substância cristalina que apresenta um gosto amargo. Entre os efeitos da cafeína no organismo humano é de salientar a sua acção estimulante do sistema nervoso central. A folha de chá contém teores normalmente compreendidos entre 2,5 e 5,5 %. Nos grãos de café anda à volta de 1,5 %. O teor em cafeína varia nas diferentes partes do rebento da planta. É maior no gomo terminal e 1ª folha, decresce sucessivamente nas folhas menos jovens e é mínima no caule. O seu teor não se altera significativamente durante o processo de fabrico do chá preto.
Os polifenóis são componentes da folha do chá que se encontram em doses mais elevadas chegando a atingir cerca de 30% da matéria seca dos rebentos. Simultaneamente estes compostos são também os mais importantes e característicos da folha do chá porque são os principais intervenientes nas alterações químicas que ocorrem durante o processo de fabrico do chá. É neles que têm origem uma série de outros compostos qualitativamente importantes para as características do produto final e também da bebida resultante.
A maioria dos polifenóis identificados nos rebentos verdes da planta pertencem ao grupo dos flavanois ou catequinas, são essencialmente a matéria que irá ser oxidada durante a fermentação.
Foram identificados vários flavanois na folha verde do chá, entre os que existem em maior quantidade encontram-se a catequina, galhocatequina, epicatequina, epigalhocatequina e os ésteres gálhico dos dois últimos compostos, respectivamente galhato de epicatequina e galhato de epigalhocatequina.
Os flavonois encontram-se em pequenas quantidades nas folhas verdes; incluem a quercitina, o quempferol e a miricitina e ainda, os 3- glucósidos derivados destes compostos.
Entre os ácidos fenólicos e seus derivados identificados nas folhas de chá referem-se o ácido clorogénico, o ácido elágico e o ácido p-cumarilquínico, entre outros. O teor de polifenois do rebento varia de acordo com vários factores, um deles é a idade da folha e restantes porções do rebento, as variações sazonais e ao ensombramento.
Dentre os aminoácidos presentes no chá o mais abundante é a chamada teanina, identificada como 5-N-etilglutamina. Um outro grupo muito importante são as enzimas, em particular as responsáveis pela oxidação dos polifenois e das catequinas durante a fermentação.
Na folha encontram-se diversas vitaminas entre as quais a riboflavina (vitamina B2) que se mantém durante o processamento do chá. Também contém ácido ascórbico (vitamina C), que é totalmente oxidado durante o processo de fermentação.

Autora: Dra. Sandra Jorge – INETI, DTIQ



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