A privatização do Espaço!

O Americano fundador da Amazon.com, Jeff Brezos, e mais uns quantos multimilionários da alta tecnologia gastam milhões num sonho comum: reiniciar a exploração espacial.

Com este objectivo Brezos regista em 2000 a empresa Blue Origin, com o estatuto de I&D Espacial. Isto não surpreenderá os que estão atentos à lista Forbes das 100 maiores fortunas Americanas. Brezos, agora com 39 anos, afirma que as missões orbitais e a ida à Lua, da NASA o inspiraram desde jovem e o levaram a sonhar tornar-se astronauta. Já em 1982 no seu discurso de formatura liceal falou sobre a importância de da colonização do Espaço para assegurar o futuro da humanidade.

Agora tem uma fortuna de 1,7 biliões de dólares para tentar converter este sonho em realidade. O objectivo da Blue Origin é o de estabelecer uma presença humana duradoura no Espaço. Recrutou sub-repticiamente uma série de homens dos foguetes: físicos, ex-cientistas da NASA, veteranos de projectos espaciais falhados e até um escritor de ficção científica. Fontes próximas da Blue Origin afirmam que esta, aumentando o seu staff constantemente, está a construir um veículo espacial reutilizável para colocar sete turistas no espaço sub-orbital nos próximos anos.

Mas Brezos não está sozinho na sua ousadia. Ele está na vanguarda da migração para a indústria espacial de uma série de empresários da alta tecnologia bem sucedidos.

Os milionários Ellon Musk, fundador da firma de pagamentos online PayPal e John Carmack, o génio que produziu o código dos jogos Doom e Quake, estão cada um deles a desenvolver a sua firma de produção de foguetes. Todos estes sonhadores e outros nesta movimentação, duvidam de que a NASA ou outra agência espacial governamental alguma vez tentem usra qualquer avanço verdadeiramente inspirado.Eles acreditam que podem reinventar os foguetões, baseados nos novos sistemas da tecnologia da informação tornando vôo espacial muito mais barato do que o que conseguem os burocratas governamentais.

O projecto de Musk, sul-africano de 31 anos, pode vir a ser um dos seus maiores negócios. Depois de ter conseguido vários milhões com a venda do Zip2 à Compaq em 1999 e o PayPal à eBay em 2002, está a aplicar a riqueza em 20 dos melhores engenheiros de foguetões para construir um foguetão de dois andares, movido a oxigénio líquido e querosene e designado por Falcon. Este foguetão para ser testado já no final do ano, constituirá uma alternativa de 6 milhões de dólares aos lançadores actuais que custam no mínimo 30 milhões por vôo e é o primeiro passo deste multimilionário para um negócio espacial viável.

O objectivo de Carmack, de 32 anos, é mais modesto. Depois de formar a companhia chamada Armadillo Aerospace, pretende ganhar um prémio de 10 milhões de dólares oferecido por uma companhia de advogados especializada em direito espacial a quem conseguir enviar primeiro um foguetão com três tripulantes humanos a uma altitude de 100 km, por duas vezes consecutivas, em menos de duas semanas. Para tal está a construir com sete voluntários um foguetão a peróxido de hidrogénio, com um paraquedas e um nariz deformável para garantir uma aterragem suave. Tal como com Musk, Carmack pretende reformar uma tecnologia espacial antiquada agarrada a tecnologias com várias décadas.

O rival mais spectacular da Armadillo é o projectista de aeronaves Burt Rutan. Há cerca de três semanas a sua companhia, Scaled composites desvendou a SpaceShipOne.

A nave, talhada como um planador e movida a óxido nítrico (gás hilariante) será pendurada da barriga de um jacto de carga e largada a 15000 metros de altitude de onde continuará até aos limites do espaço. A viagem durará 90 minutos e proporcionará panoramas incríveis. Rutan não se classifica como multimilionário da alta tecnologia mas o seu grupo tem o apoio de um cliente não revelado, com os bolsos muito fundos, que concede à companhia uma flexibilidade enorme para a construção de uma nave de concepção avançada e dispendiosa.

Fontes familiarizadas com a indústria aeroespacial asseguram que se trata do co-fundador da Microsoft, Paul Allen.

Ninguém confirma nem desmente.

E ainda neste concurso entra a companhia de Brezos. A primeira nave a ser lançada chamar-se-á New Shepard, como homenagem a Alan Shepard – o primeiro americano no espaço - e recorrerá à descolagem e aterragem verticais. A companhia financia ainda cientistas em todo o mundo que fazem investigação sobre meios de propulsão não convencionais.

Os programas espaciais governamentais envolvem desde há muito uma enorme quantidade de empresas privadas. Mas, desenvolver programas espacias privados é outra coisa. O esforço financeiro necessário, que estava normalmente só ao alcance das agências governamentais, passa a estar ao alcance dos privados.

As chorudas contas bancárias como a de Brezos, são seguramente a sua vantagem mais forte. Desta maneira evitam consumir uma boa parte da energia na angariação de fundos. São novos e têm o tempo do seu lado. Eles acreditam que colonizar outros planetas é um esforço nobre e filantrópico iniciado há muito pelo homem e marcado pelos pequenos passos dados há 42 anos por Yuri Gagarin e Allan Shepard, iniciando a longa caminhada através do Espaço.

por Manuel Matos Lopes

15-05-2003

 

Adaptado de:

Brad Stone, NEWSWEEK

05-05-2003