Login

[ Imprimir ]
A Ciência e o Espaço

Desafios de física levaram duas alunas a centro de testes de satélites

Teresa Firmino, Noordwijk

Público, 16-03-2006



Através de uma galeria envidraçada, os visitantes podem olhar lá para baixo, onde homens de batas, toucas e pés empantufados andam de roda de um satélite meio escaqueirado. É o Herschel, embrulhado num material dourado. Vanessa Carvalho, de 19 anos, e Filipa Farinha, de 18, estão a vê-lo porque ganharam um concurso cujo prémio era uma visita ao Centro Europeu de Tecnologia e Investigação Espacial (ESTEC), que a Agência Espacial Europeia tem em Noordwijk, na Holanda. Participaram no concurso A Física em Desafios, lançado em 2005 pelo Ciência Viva. Os desafios, destinados aos alunos do ensino secundário, foram concebidos pelo físico português Manuel Paiva, que dirige o Laboratório de Física Biomédica da Universidade Livre de Bruxelas (Bélgica). A aventura que levou à Holanda as duas colegas da
Escola Secundária do Bocage, em Setúbal, começou quando Filipa Farinha viu no site do Ciência Viva que dois rapazes tinham ganho os Desafios do Espaço do ano anterior. “Achei
interessante.” E, como sabia que a amiga se interessa por assuntos do espaço, até quer
ser astronauta, foi dizer-lhe. Participaram nalguns desafios quando frequentavam o 12.º ano. A melhor participação do ano teria direito a um prémio-surpresa. Era a visita ao ESTEC. Não ganharam o primeiro desafio (sobre a primeira lei de Newton), mas tiveram sorte nos outros dois (o tema eram as três leis de Newton do movimento e a força centrífuga).
Para cada desafio, havia um excerto de um DVD da Agência Espacial Europeia (ESA), Newton in Space, em que aparece o astronauta espanhol Pedro Duque a fazer experiências na
Estação Espacial Internacional (ISS), concebidas por Manuel Paiva. Também aparecem experiências feitas na Terra, por alunos a demonstrar como as mesmas leis actuam cá em
baixo. Havia que explicar o que acontecia. Um exemplo: no desafio sobre a força centrífuga, Pedro Duque faz uma experiência com dois flutuadores de pesca ligados por um fio: num injecta café líquido, no outro não. Em microgravidade, quando o astronauta corta o fio, os flutuadores afastam-se e o desafio é calcular a massa do café.

Inclinadas para investigar
Na visita ao ESTEC, nas férias deste Carnaval, a vida delas já se afastou do espaço – mas não
da ciência. “Sempre estive inclinada para a investigação, não tanto do espaço, mas mais
das doenças. O meu objectivo era medicina, mas entrei para farmácia”, diz Filipa Farinha, que também gosta de astronomia. Já Vanessa Carvalho, que gostava muito de engenharia aeroespacial, está em medicina: “Queria juntar a investigação médica ao espaço. Gosto de saber dos problemas do corpo quando a gravidade não actua.”
No ESTEC, o que esperavam ver? “Disseram-me que era investigação tecnológica”, dizia
Vanessa Carvalho antes da visita. “Não sei se terá muito a ver com laboratórios. São
mais máquinas”, dizia Filipa Farinha. As respostas têm a influência de já terem participado
na Ocupação Científica de Jovens nas Férias. Num Verão, estiveram no Instituto de Higiene
e Medicina Tropical, em Lisboa. A fazer o quê? “A dissecar mosquitos”, responde Vanessa Carvalho. “A fazer preparações ao microscópio com sangue de rato contaminado com malária”, acrescenta a amiga. “Cortava- se um bocadinho do rabo e tirava-se sangue”, completa Vanessa Carvalho. No ESTEC, vêem que os laboratórios não são só de
biologia. Além do Herschel, que irá para o espaço em 2007, Rosita Suenson, das relações
públicas do ESTEC, leva-as a ver o Automated Transfer Vehicle (ATV), o veículo para
atracar na ISS e levar mantimentos e combustível. “Vamos construir sete, porque não são
reutilizáveis. Depois serão cheios de lixo e queimados na atmosfera”, explica-lhes.
Homens assépticos rodeiam o primeiro ATV, o Júlio Verne, a lançar em 2007. Também
está embrulhado no material dourado. “É para garantir que os instrumentos a bordo ficam
à temperatura ambiente”, diz Suenson, um dos mais de mil funcionários do ESTEC.
O espaço onde se testam os aparelhos é muito alto, separado por enormes portões.
Quando um se fecha, os aparelhos espaciais ficam sujeitos a 152 decibéis, para simular
vibrações de quando descolarem num foguetão.
“Muito giro”, diz no final Vanessa Carvalho (que ficou a saber que, para concorrer ao corpo de astronautas da ESA, é preciso ter formação superior).
Com elas, os desafios do Ciência Viva acabaram, mas Manuel Paiva responde a todas as dúvidas, no endereço space@cienciaviva.pt.

O PÚBLICO viajou a convite da Agência Espacial Europeia

[ Imprimir ]