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A Ciência e o Espaço

Primeiro veleiro solar foi ontem para o espaço

Teresa Firmino

Público, 23-06-2005

Nave impulsionada pelos fotões do Sol foi concebida pela famosa Sociedade Planetária, fundada por Carl Sagan


Créditos: NPO Lavochkin, The Planetary Society

Parece ficção científica, mas não é. A primeira nave impulsionada com os fotões emitidos pelo Sol - a Cosmos 1 - foi lançada ontem à noite no espaço. Daqui a quatro dias, quando atingir a órbita final, abrirá as suas oito velas, cada uma com 15 metros de comprimento, e transformar-se-á num veleiro movido pelas partículas de luz que ali incidam.

A Cosmos 1 viajou no topo do foguetão Volna, lançado de um submarino nuclear russo submergido no mar de Barents. Até à hora de fecho desta edição, sabia-se que o lançamento tinha decorrido sem problemas, mas os responsáveis pela missão aguardavam receber mais sinais da nave e confirmar que tudo estava bem, disse ao PÚBLICO Lu Coffing, da Sociedade Planetária, a entidade que concebeu a Cosmos 1.

O veleiro solar pretende mostrar que esta nova tecnologia para viajar no espaço, até a outros planetas do sistema solar ou talvez mais longe, funciona mesmo. Este protótipo usa as partículas de luz para se mover, em vez de combustível convencional ou nuclear (embora, para lá da propulsão, a nave use energia gerada a partir de quatro painéis solares para o seu próprio funcionamento).

Se a concepção foi da Sociedade Planetária - fundada em 1980, em Pasadena, na Califórnia, pelo famoso cientista e autor de divulgação científica Carl Sagan, falecido em 1996 -, o fabrico ficou a cargo da Associação Lavochkin e do Instituto de Investigação Espacial da Academia das Ciências Russa. O facto de a construção e o lançamento serem feitos na Rússia, onde os custos são mais baixos, permitiu que este projecto ficasse pelos quatro milhões de dólares (3,28 milhões de euros).

Já tinha havido uma tentativa - falhada - de lançar no espaço uma versão menos completa da Cosmos 1, só com duas velas. Em Julho de 2001, essa versão ainda chegou a ser lançada de um submarino russo, nos mesmos moldes de ontem. Mas a Cosmos 1 manteve-se agarrado ao terceiro andar do foguetão Volna, originalmente concebido como míssil balístico intercontinental e agora convertido para usos comerciais. Por isso, a Cosmos 1 nunca chegou a ser largada no espaço.

Se a actual missão correr bem até ao fim, depois da separação do foguetão, o veleiro, com cerca de 100 quilos, subirá até aos 800 quilómetros de altitude e será aí que abrirá as oito velas em forma de triângulo. Parecer-se-á então com um moinho com velas prateadas, já que são feitas de alumínio de um lado e um plástico fino do outro.
Duas câmaras a bordo do engenho têm a função de filmar as velas a abrirem-se, até porque entre os patrocinadores do veleiro solar estão os estúdios de televisão Cosmos, liderados pela viúva de Carl Sagan, Ann Druyan, além da Sociedade Planetária e de outros.

Espera-se que teste este novo conceito de viagens espaciais durante algumas semanas, levando a Cosmos 1 a alterar a sua órbita e a atingir uma maior altitude. O tempo de duração da missão é incerto, embora Sociedade Planetária espere que dure um mês (o teste falhado do ano passado deveria durar só meia hora).

"Queremos estimular a exploração desta nova tecnologia e levar as grandes agências espaciais e outras entidades a fazer missões ainda maiores longe da Terra, onde poderemos realmente vê-la a funcionar", disse Louis Friedman, director da Sociedade Planetária, citado pelo jornal The New York Times. "Esperamos que a Cosmos 1 abra um novo caminho à exploração do sistema solar, que acabe por conduzir às estrelas."


Ideia proposta por Júlio Verne

Outro objectivo, referiu também Friedman, fascinado com o conceito do veleiro solar desde nos anos 70, quando trabalhava no Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA, é incentivar as empresas privadas à exploração do espaço. Naquela época, o investigador sonhava com um engenho que navegasse ao encontro do cometa Halley, pois visitaria as proximidades da Terra em 1986, mas a ideia era então muito audaciosa. Agora, os veleiros solares poderão ser uma forma de as empresas privadas avançarem pelo espaço.

Nos últimos tempos têm surgido, aliás, várias iniciativas privadas. Por exemplo, o SpaceShipOne, o primeiro avião civil a completar, no ano passado, um voo suborbital a 100 quilómetros de altitude, foi financiado por Richard Branson (o patrão da companhia de avião Virgin Atlantic) e Paul Allen (um dos fundadores da Microsoft).

Curioso é que o conceito do veleiro solar começou por ser ficção científica, proposto pela primeira vez por Júlio Verne, lê-se na página na Internet da Sociedade Planetária. No livro Da Terra à Lua, uma das personagens imagina que um dia poderá viajar-se a grandes velocidades usando a luz como "agente mecânico".


Como funciona a Cosmos 1

O princípio básico de funcionamento de um veleiro solar, como a Cosmos 1, foi concebido nos anos 20, pelo engenheiro russo Konstantin Tsiolkovski (1857-1935). Pensou numa enorme vela, leve e reflectora, a ser desenrolada no espaço e a recebendo o impulso dos fotões do Sol. Submetida ao impulso constante dos fotões solares, a vela estaria em aceleração constante e acabaria por atingir velocidades elevadas.

Ao fim de 100 dias, poderia atingir dez mil quilómetros por hora; ao fim de um ano 36 mil. Em três anos, estaria a viajar a 100 mil quilómetros por hora, uma velocidade que permite chegar a Plutão em cinco anos, refere a agência noticiosa AFP. Russos, norte-americanos, europeus e japoneses estudam os veleiros solares como forma de fazer viagens interplanetárias não tripuladas, pois são um meio barato de enviar naves para outros planetas. O Sol está sempre disponível, ao contrário do combustível convencional das naves.

Os fotões (partículas de luz) são captados pelas velas e, à medida que são daí reflectidos, dão impulso à nave. Ao contrário do que muitas vezes se diz, os veleiros solares não são alimentados pelos ventos solares (partículas carregadas electricamente, como protões e electrões), pois as velas não param nem reflectem essas partículas emanadas pelo Sol.

O sonho é que estes veleiros se lancem numa viagem a Marte ou até, num futuro longínquo, a outras estrelas, mas aqui já teriam de ser usados lasers, uma vez que a intensidade da luz decresce à medida que o veleiro se afasta do Sol. Na região de Saturno é 100 vezes mais fraca do que perto da Terra. Para já, os veleiros solares parecem prometedores para viagens no interior do sistema solar.

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