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Outras

Dinossauros com Plumas Chegaram a Portugal

Teresa Firmino

Público, 01-02-2005


O Museu de História Natural de Lisboa mostra fósseis descobertos na China que provam que as aves descendem dos dinossauros - ou melhor, são dinossauros modernos. Por Teresa Firmino

Dinossauros com penas, isso existiu? Com tufos na cauda como os pavões? Sabia-se que tiveram muitas formas. Eram grandes, pequenos, caçadores velozes e vorazes, comedores pachorrentos de plantas em manadas, com pele escamosa e, principalmente, mortos há milhões de anos, mas com penugens no corpo é que não os imaginávamos. Esta imagem foi construída com a descoberta de fósseis de dinossauros com plumas na China, em meados dos anos 90, que também provaram que nem todos desapareceram - as aves são dinossauros. Em Lisboa, no Museu Nacional de História Natural, estão alguns desses fósseis, na exposição "Plumas em Dinossáurios - Afinal nem Todos se Extinguiram". Amanhã abre ao público, até 30 de Abril.

Concebida pelo Museu de História Natural de Londres, onde foi vista em 2003, para depois andar por outras cidades europeias, esta exposição mostra os famosos fósseis chineses de dinossauros emplumados (ou dinossáurios, pois pode dizer-se das duas maneiras). Descobriu-se o primeiro em 1996, o "Sinosauropteryx prima", com o corpo coberto de penugem e logo foram aparecendo outros com penas, e e até caudas tufadas e patas e braços com penas para poderem planar entre as árvores.

Iam sendo revelados nas revistas científicas: o "Sinosauropteryx prima", o Caudipteryx zoui", o "Protarchaeopteryx robusta", o "Plumo-raptor" e, por fim, o "Microraptor gui". Ao mesmo tempo, encontravam-se aves primitivas contemporâneas dos dinossauros emplumados, como o "Confuciusornis sanctus", a ave mais primitiva, sem dentes e com bico.

Estão todos cá agora, retorcidos nas lajes onde fossilizaram. O "Sinosauropteryx prima" calhou numa posição elegante: "Parece uma bailarina em pontas", diz o geólogo Fernando Barriga, director do Museu de História Natural. E do "Plumo-raptor", no qual se notam bem as penas, diz: "É o bicho mais espantoso que aqui está."

Encontrados por agricultores chineses em pedreiras, na província de Liaoning, estes dinossauros emplumados surpreenderam os cientistas. Eram a prova final da ligação entre as aves e os dinossauros, que punha fim a uma polémica existente desde que se descobriu o fóssil da ave mais antiga que se conhece , o "Archaeopteryx", com 150 milhões de anos. O "Archaeopteryx" exibia uma mistura de características avianas e reptilianas, incluindo dentes.

"É uma exposição emocionante pelo facto de termos os fósseis autênticos, que mostram que as aves descendem dos dinossáurios. Não são réplicas. São a prova", sublinha Fernando Barriga. "É como se tivéssemos a Mona Lisa dos dinossáurios em Lisboa."

Réplica do "Archaeopteryx"

Na exposição está uma réplica do "Archaeopteryx", um fóssil de valor científico incalculável. Só há sete exemplares, encontrados em pedreiras na Alemanha. São dos fósseis mais raros no mundo, e há quem lhe chame as sete maravilhas.

A réplica que está em Lisboa é a do primeiro exemplar descoberto, em 1861, quando se abriu uma laje de calcário litográfico, uma rocha usada para fazer impressões litográficas. Capaz de conservar plantas e animais com pormenor fotográfico, esta rocha preservou as marcas das penas do "Archaeopteryx". Ao abrir-se a laje, como as folhas de um livro, em ambos os lados havia partes do esqueleto. Um ano antes, tinha-se achado uma pena fossilizada.

Este exemplar acabou por ir parar ao Museu de História Natural de Londres. Começou por ser oferecido por um trabalhador das pedreiras a um coleccionador de fósseis, Karl Haberlein, para pagar uma consulta médica. Ainda foi descrito como um réptil com penas, mas depois deram-lhe o nome "Archaeopteryx", que significa "asa antiga". Por fim, Haberlein, para financiar o casamento da filha, vendeu-o ao museu londrino.

Só em 1877 foi encontrado o exemplar mais completo, com crânio, onde aparecem uns inesperados dentes. Está no Museu de História Natural da Universidade de Humboldt, em Berlim (Alemanha).

Mais de 130 anos após a identificação do "Archaeopteryx", os seus intrigantes traços reptilianos foram esclarecidos. O elo perdido entre as aves e os seus antepassados, os dinossauros carnívoros, fora por fim encontrado através dos dinossauros com penas.

É tudo isso que conta a exposição, com muitas penas à mistura. Logo na entrada, dois leques, chapéus e fatos usados no teatro, todos de plumas, cedido pelo Museu Nacional do Teatro, dão um certo ar glamouroso. E por piada, os convites para a exposição seguiram com uma pena de pato. Havia-as de várias cores, amarela, laranja, roxa, azul... "Sem dinossáurios não havia o 'glamour' das plumas. Há uma ligação efectiva entre os dois", diz Fernando Barriga.

A actriz Catherine Zeta-Jones é que não respondeu ao convite para vir à exposição. Depois de ter lido um texto no PÚBLICO dando conta de que a actriz tinha medo de dinossauros, o geólogo convidou-a para vir a Lisboa e perder o medo destes bichos. Afinal, há tantos por aí.


Eles Ainda Andam a Voar por Todo o Lado

A ideia de que os dinossauros ainda estão entre nós surgiu no século XIX, mas só no final do século XX ficou provada

Costuma dizer-se que uma coisa só acontecerá quando as galinhas tiverem dentes. Só que já tiveram mesmo. Em vez do bico das aves actuais, os fósseis das aves primitivas, os antepassados longínquos das galinhas, exibem dentaduras, uma característica dos répteis. Mas se esta ideia pode ser estranha, mais estranho soa quando se diz que as aves são dinossauros. Pois são.

Com a descoberta, em 1861, da ave mais antiga, o "Archaeopteryx", com 150 milhões de anos, os cientistas começaram a estabelecer certas ligações. Era uma ave com características de réptil. Tinha também uma cauda ossuda e comprida.

Este fóssil seria reconhecido pelos defensores da teoria da evolução por selecção natural, publicada dois anos antes da sua descoberta por Charles Darwin, no livro "A Origem das Espécies", como o elo perdido entre as aves e os seus antepassados - explica o paleontólogo Carlos Marques da Silva, da Faculdade de Ciências de Lisboa, num guia que elaborou para os professores prepararem as visitas de estudo com os seus alunos (vai estar disponível em http://www.mnhn.ul.pt ).

Em 1868, Thomas Huxley, fervoroso defensor da teoria de Darwin, sublinhava as características de réptil do "Archaeopteryx". "A ave mais antiga revela maior semelhança com a estrutura dos répteis do que com qualquer das aves actuais", dizia. Questionava mesmo: "Haverá fósseis de répteis mais parecidos com as aves do que os répteis actuais?"

Mais tarde, nos anos 70 do século XIX, Huxley admitia uma ligação entre o "Archaeopteryx" e os fósseis recém-descobertos de uns répteis, os dinossauros. Sugeriu que o carnívoro bípede "Compsognathus" era mais parecido com as aves, e afirmou que era o elo perdido entre os dois.

Mas o parentesco próximo não era a visão predominante. No início do século XX, os cientistas inclinavam-se para um parentesco entre as aves e um grupo primitivo de répteis do Triásico (período entre há 230 e 190 milhões de anos), os tecodontes. No livro "A Origem das Aves", de 1926, o dinamarquês Gerhard Heilmann concluía que o esqueleto do "Archaeopteryx era o de um réptil, e avançava que os antepassados das aves teriam sido os tecodontes e não os dinossauros.

"Os tecodontes eram vistos como os antepassados das aves, dos pterossáurios e dos dinossáurios. Ou seja, aves e dinossáurios tinham um parentesco afastado, partilhando um antepassado comum", explica Marques da Silva.

As parecenças entre dinossauros e aves voltaram à baila em 1969, quando o paleontólogo americano John Ostrom descobriu o "Deinonychus". Era um dinossauro predador, cujos ossos do pulso e da anca eram parecidos com os do "Archaeopteryx". "Ostrom sugeriu que as aves descendiam dos dinossáurios. Mas o 'Deinonychus' não tinha penas e muitos mantiveram-se cépticos."

As provas chinesas

As provas arrasadoras viriam da China, nos anos 90. Jazidas na província de Liaoning conservaram uma fauna diversa, desde aves a dinossauros com penas. Há cerca de 125 milhões de anos, ali havia montes e lagos repletos de vida. De tempos a tempos, erupções vulcânicas lançavam no ar cinzas e gases venenosos, que matavam os seres vivos. Os corpos do animais caíam nos lagos e eram cobertos por cinzas, pelo que ficaram preservados até hoje.

A descoberta dos dinossauros com plumas e penas, lado a lado com aves em diferentes estádios evolutivos, veio preencher as lacunas. "Essa fauna em conjunto permite estabelecer a ligação entre dinossáurios e aves, em que o fio condutor são as penas", diz Marques da Silva. "Aqueles fósseis permitem provar, sem sombra de dúvida, que as aves são dinossáurios."

Assim, os antepassados das aves eram dinossauros carnívoros bípedes que desenvolveram penas e tinham pulsos que giravam para cima, para baixo e horizontalmente - movimentos essenciais ao bater das asas das aves.

Mas estes dinossauros com plumas ainda não eram aves. As penas já não definem onde acaba um dinossauro e começa uma ave, mas, antes, certas características nos ossos. Também não foram as penas que fizeram alguns dinossauros levantar voo; foram essas alterações nos membros anteriores. O uso das penas no voo desenvolveu-se secundariamente, depois de terem servido para aquecer os bichos, para camuflagem ou exibição.

Como levantaram voo é outra questão, e há duas teorias. Uma diz que foi de baixo para cima, ou do solo para os céus: para fugirem aos predadores, certos dinossauros bípedes corriam encostas acima, batendo as patas dianteiras, para ajudar na aderência ao solo. Outra teoria diz que foi de cima para baixo, ou das árvores para o solo: certos dinossauros começaram a planar e acabaram por voar.

Seja como for, a visão que tínhamos das aves e dinossauros mudou para sempre. Nem todos morreram por causa de um meteorito, há 65 milhões de anos. Sobreviveram os que eram aves, e estão por aí em todo o lado. Uns voam, outros não, como as galinhas, e podemos mesmo saborear alguns.


Vestígios Mais Antigos de Aves Encontrados Perto de Leiria

Os vestígios mais antigos de aves em todo o mundo - alguns dentes - encontraram-se em Portugal, na mina de carvão da Guimarota, em Leiria. Não há dúvida de que os fósseis mais antigos de uma ave pertencem ao "Archaeopteryx", com 150 milhões de anos, recuperados em pedreiras alemãs na zona de Solnhofen. Mas conhecem-se dentes fossilizados de aves, oriundos da Guimarota, classificados como pertencentes ao grupo das aves parentes do "Archaeopteryx". Conhecida pelos fósseis de plantas e animais, esta mina foi escavada nas décadas de 60 e 70 por investigadores alemães, de Berlim. Os dentes que lá encontraram deverão estar em Berlim. "Não são atribuídos ao 'Archaeopteryx', porque não é possível compará-los. Mas são de certeza do grupo do 'Archaeopteryx' e são ligeiramente mais velhos do que os famosos exemplares alemães de Solnhofen", diz o paleontólogo Carlos Marques da Silva, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. "Para todos os efeitos, são os vestígios mais antigos de aves."

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