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A Ciência e o Espaço

A paisagem de Titã foi esculpida por chuvas e rios de metano

Teresa Firmino

Público, 22-01-2005

Cada vez mais nítidas, as imagens do solo de Titã revelam canais sinuosos que percorrem cumes em direcção ao leito de um rio. Parecem estar todos secos. Mas a chuva que se pensa ter inundado a paisagem - com gotas de metano - não terá caído há muito tempo. As imagens que permitem concluir que a superfície é moldada por um ciclo de metano, como o ciclo da água na Terra, foram divulgadas ontem pela Agência Espacial Europeia (ESA).

"Temos a chave para compreender o que molda a paisagem de Titã", disse Martin Tomasko, da Universidade do Arizona, nos EUA, da equipa responsável pela câmara. "Provas geológicas de chuva, erosão e outras actividades fluviais dizem que os processos físicos que moldam Titã são parecidos com os da Terra."

Nestas imagens, já com um maior tratamento em relação às reveladas no dia da descida, a 14 de Janeiro, apresenta-se um mundo com uma geologia e meteorologia idênticas às da Terra. A diferença é não se relacionarem com a água, mas com o metano, que, devido temperaturas de menos 180 graus Celsius, é líquido.

Com estas imagens do solo de Titã, onde nunca tinha ido uma sonda, obtiveram-se provas fortes da existência de líquidos em movimento. Notam-se canais tortuosos em zonas mais altas, e claras, a descerem até regiões mais baixas, planas e escuras. "Estes canais convergem para formar sistemas fluviais que correm para lagos que apresentam ilhas e bancos de areia espantosamente semelhantes aos da Terra", diz um comunicado da ESA.

Embora estejam secos, pensa-se que a chuva de metano alimentou há pouco tempo os canais - porque a Huygens detectou metano líquido . "O líquido estava a poucos centímetros da superfície. Temos a impressão de que no local de aterragem choveu há pouco tempo", disse Tomasko.

Os instrumentos de análise o solo também detectaram líquido a vir para a superfície. Por baixo, detectou-se ainda um material com a consistência de grãos de areia soltos, uma indicação de erosão causada pela queda de gotas de metano. E quando o calor gerado pela Huygens aqueceu o chão, os instrumentos detectaram emanações de gás metano.

Tudo isto indica que, tal como se teorizava, o metano tem um papel importante na geologia e meteorologia de Titã. É o segundo principal constituinte da atmosfera e, como a lua se formou há 4500 milhões de anos, já devia ter desaparecido. Mas não, o que indica que deve haver uma fonte à superfície que alimenta a atmosfera, onde se formam as gotas de metano que, ao caírem no solo, causam erosão. E, ao escorrer de regiões mais altas, o metano escava canais e rios.

Nas imagens do local da aterragem também aparecem calhaus arredondados no leito de um rio seco, tal como nos rios terrestres há seixos. Segundo as medições, esses calhaus são compostos por gelo de água sujo, em vez de sílica como as rochas terrestres.

Névoas de metano a bordejar o que parece ser uma linha de costa foi outra das visões da Huygens. Talvez seja o metano a evaporar-se da superfície, da mesma maneira que a água se evapora na Terra. Ao chegar a certas altitudes da atmosfera, com temperaturas mais baixas, condensa e forma gotículas.

"A Huygens confirmou a hipótese do ciclo de metano, semelhante ao ciclo da água na Terra, com a evaporação da superfície, névoas e eventualmente chuva", comenta o astrofísico David Luz, dos observatórios astronómicos de Lisboa e de Paris-Meudon. "Titã é um corpo vivo, em termos de atmosfera e de geologia."

Mas esta missão já pôs em causa algumas coisas sobre a atmosfera de Titã, fascinante por ter brumas densas, compostas por moléculas orgânicas criadas a partir do metano e do azoto. O modelo mais avançado de circulação da atmosfera, desenvolvido no Observatório de Paris-Meudon, indicava que as brumas se tornavam mais densas a partir dos 100 quilómetros de altitude até aos 300 e, acima, havia ainda uma camada de brumas secundária. Porém, a Huygens deparou-se com brumas a 20 quilómetros: "Aparentemente, a atmosfera está carregada de partículas. Mas é preciso quantificá-las. Essa quantidade pode não pôr em causa totalmente o modelo", disse David Luz.

Noutros aspectos, parecem confirmar-se as suposições. Há indícios, com base nas medições na atmosfera, de actividade vulcânica. Bizarro é, em vez de lava, esses vulcões expelirem gelo de água e amónia.

Para já, as zonas mais escuras do solo confirmam uma das suposições do astrofísico Carl Sagan: a de que existiriam lamas acastanhadas, que baptizou de tolinas, resultantes da deposição no solo das partículas da atmosfera. Levadas pelas chuvas de metano, acumularam-se no fundo dos canais e no leito dos rios.

Um mundo tão estranho, e familiar em certo sentido, já faz os cientistas, como Jean-Pierre Lebreton, coordenador da missão, pensar mais alto: "Podemos agora sonhar seriamente em enviar robôs a Titã. Isto é altamente possível."

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