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A Ciência e o Espaço

Cientistas de Évora Fizeram Uma das Primeiras Descrições do Sismo

Teresa Firmino

Público, 06-01-2005


Dois dias depois do grande sismo da Ásia, a 26 de Dezembro, três sismólogos da Universidade de Évora tinham pronta uma descrição do que aconteceu na crosta terrestre no local onde se originou o abalo. A equipa de José Fernando Borges, Bento Caldeira e o argelino Mourad Bezzeghoud foi a segunda em todo o mundo a disponibilizar essa análise à comunidade científica, e não só, através da Internet. Embora preliminares, os seus resultados indicam que a crosta terrestre sofreu uma enorme ruptura, ao longo de 1300 quilómetros de comprimento por 200 de largura, e que esse evento durou três minutos e meio, o que é muito tempo.

Quando o sismo aconteceu, ao largo da costa ocidental da ilha de Sumatra, em Portugal continental faltavam menos de dois minutos para a uma da manhã. Devido à hora tardia e à época natalícia, só passadas algumas horas os investigadores do Grupo de Sismologia do Centro de Geofísica de Évora, coordenado por Mourad Bezzeghoud, começaram a analisar os dados, recolhidos por estações sismográficas em vários pontos da Terra e disponibilizados de imediato. "Quando nos apercebemos do sismo, fomos logo recolher os dados. Deve ter sido pela manhã", conta José Borges.

Mas não foi por isso que a equipa ficaria para trás na compreensão do sismo. No dia 28, poucas horas depois de Yuji Yagi, do Instituto Internacional de Sismologia e Engenharia Sísmica, em Tsukuba, no Japão, ter divulgado a primeira análise no "site" da sua instituição, a equipa em Portugal fazia o mesmo na página do Centro de Geofísica de Évora. Nesta segunda-feira, o trabalho foi divulgado na página do Centro Sismológico Euro-Mediterrânico, em Paris.

Para saber o que ocorreu, a equipa de Évora seleccionou os registos de 29 estações integradas numa rede mundial - a Incorporated Research Institutions for Seismology, ou IRIS, um consórcio norte-americano que centraliza e distribui informação sismográfica. Situadas a 3300 e 9900 quilómetros do epicentro, essencialmente na Ásia, África, América do Sul, Estados Unidos e Austrália, permitem evitar a influência de alguns efeitos locais da Terra nos registos sismográficos.

Esses dados foram usados para ver como se processou a ruptura da crosta, no espaço e no tempo, utilizando vários programas informáticos, uns construídos pela própria equipa, outros adaptados e melhorados por ela.

Num sismo com esta dimensão, com 8,9 de magnitude, tem de ter ocorrido um deslizamento na crosta terrestre muito extenso, diz José Borges. De facto, naquela zona do planeta ocorre um fenómeno chamado subducção, no qual uma placa tectónica mergulha sobre outra para ser destruída no manto terrestre. Este fenómeno é compensado por outro, noutras zonas do planeta, em que é criado fundo oceânico novo e se vai afastando para os lados.

O mergulho de uma placa sobre outra gera abalos sísmicos e manifesta-se à superfície pela existência de fossas oceânicas profundas. No caso da região onde se deu o sismo de Sumatra ou, como também estão a designá-lo os estudiosos, de Banda Aceh, o local mais atingido naquela ilha, a placa oceânica da Índia mergulha sobre a placa oceânica da Birmânia e a fossa resultante é a de Sunda.

"É uma zona muito activa, porque a convergência de placas é bastante elevada: seis centímetros por ano. Na zona de Portugal, a convergência entre a placa euroasiática e a placa africana é de cinco milímetros por ano, o significa que os sismos são menos frequentes", explica o sismólogo.

O facto de se tratar de uma zona de fronteira de duas placas significa que há uma descontinuidade na crosta. Neste sismo, terá acontecido a reactivação da ruptura já existente, havendo um grande deslocamento de um dos blocos em relação ao outro, devido à elevada acumulação de esforço causada pela colisão das placas.

Tirar lições para Portugal

Os resultados da equipa de Évora apontam para uma ruptura de 1300 quilómetros de comprimento e 200 de largura, mas esta área de cedência da crosta é ainda uma estimativa. Isto porque o modelo aplicado só indica, pelo menos por agora, uma ruptura de 1000 quilómetros de comprimento e 100 de largura (a área assinalada no rectângulo da infografia), que causaria um sismo de 8,5 de magnitude. Como a magnitude registada foi de 8,9, a equipa estima uma ruptura de 1300 por 200 quilómetros. Esta é a extensão afectada pelo movimento de uma placa a enfiar-se debaixo da outra, que provocou o sismo. "Mas é possível que seja mais extensa ainda."

A ruptura iniciou-se a dez quilómetros de profundidade e propagou-se em duas direcções, para norte e para sul, com predominância para o sentido nor-noroeste, a uma velocidade máxima de três quilómetros por segundo. Esse fenómeno demorou 210 segundos. "É dos processos de ruptura mais longos que se podem encontrar."

Tanto os resultados de Yuji Yagi como Chen Ji, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, outro investigador que também já divulgou uma descrição do sismo, não obtiveram áreas de ruptura nem magnitudes tão grandes como a equipa de Évora. "Acreditamos que o nosso resultado permite uma visão mais global da ruptura", diz José Borges.

O cientistas do Grupo de Sismologia do Centro de Geofísica de Évora - o único em Portugal a estudar a fonte ou origem dos abalos, o local da crosta onde se produzem - vai continuar a estudar o sismo de Sumatra. Pode sempre perguntar-se por que razão estudam terramotos tão longínquos. "Os sismos de grande magnitude provocam grande destruição. Queremos tirar algumas lições e fazer uma transposição para o que poderá acontecer na nossa zona", responde José Borges.

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