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A Ciência e o Espaço

Observação de Vénus atraiu grupos de turistas em Lisboa
Público, 08-06-2004


Não há registo de lesões

Os turistas que visitavam hoje o Padrão dos Descobrimentos, em Belém, afastaram-se dos seus guias para observar o trânsito de Vénus pelo Sol através de um telescópio e de binóculos disponibilizados no local pelo Planetário Gulbenkian. A Direcção-Geral de Saúde anunciou não ter qualquer registo de pessoas com lesões nos olhos devido à observação deste fenómeno raro.

Alguns surpreendidos, outros divertidos com a atracção extra que lhes era oferecida, turistas de várias nacionalidades iam fazendo fila, por vezes longa, para verem com curiosidade o pequeno ponto negro a cruzar o disco solar.

À sua disposição estavam binóculos devidamente protegidos com filtros solares e um telescópio que projectava a imagem do disco solar num pequeno ecrã onde, além de Vénus, se podiam ver manchas causadas pelos campos magnéticos do Sol.

A observação estava a ser feita ao ar livre, junto ao Padrão dos Descobrimentos, por se encontrarem actualmente suspensas as actividades no Planetário devido a obras de renovação que envolvem, nomeadamente, a instalação de um novo telescópio.

O planeta Vénus passou durante toda a manhã entre a Terra e o Sol, um fenómeno raro que só voltará a ser visto em Portugal em 2125, disse à Lusa Jorge Farinha, do Planetário Gulbenkian, que estava no local a orientar as observações e a explicar o fenómeno.

Embora o trânsito de Vénus ocorra quatro vezes em 243 anos, nem sempre esse fenómeno é visto nas mesmas zonas geográficas. Essas quatro passagens sucedem-se em períodos de oito anos, 121 anos e seis meses, novamente oito anos e 105 anos e seis meses, repetindo-se com características idênticas, explicou. Assim, acrescentou Jorge Farinha, "só daqui a 243 anos haverá um trânsito igual ao actual".

Interrogado sobre os conhecimentos actuais de Vénus, o especialista assinalou a dificuldade de se aceder com sondas àquele planeta, devido à sua atmosfera altamente corrosiva. "Pouco mais se sabe além da composição e do relevo. Está longe de ser o irmão gémeo da Terra, como há muito tempo se pensou", disse.

Outras sessões públicas de observação do fenómeno em Lisboa foram realizadas no Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva, no Observatório Astronómico de Lisboa e no Instituto Geográfico do Exército.

Observação directa poderá afectar os olhos

O fenómeno astronómico, cuja observação directa poderá afectar os olhos e até provocar cegueira, motivou uma campanha de prevenção coordenada pelo Ministério da Saúde, que incluiu a distribuição de cartazes e folhetos informativos e óculos de protecção nas farmácias.

Fonte da Direcção-Geral de Saúde (DGS) disse à Lusa que, até ao fim da manhã, a Linha de Saúde Pública não tinha qualquer indicação de lesões, havendo apenas chamadas de pessoas pedindo informação sobre a forma de observar a passagem de Vénus em frente ao Sol.

O risco de lesão existe porque os olhos são particularmente sensíveis à acção dos raios solares – ultravioletas e infravermelhos – que lesam a retina, a camada nervosa dos olhos que comanda a visão e a função visual.

A retina pode ser "queimada" por uma reacção química, como acontece com a pele quando em contacto com a cal, provocando perturbações da visão, transitórias ou definitivas, que podem ir da sua diminuição até à cegueira total.

Centro Ciência Viva centralizou observações em Faro

Já no Algarve, dezenas de pessoas passaram hoje pela zona da cidade velha em Faro para observar o trânsito de Vénus através de dois telescópios facultados para o efeito pelo Centro de Ciência Viva do Algarve.

O professor Alexandre Costa e a sua equipa estiveram desde as 06h00 até cerca das 12h00 a distribuir gratuitamente óculos especiais para observar o fenómeno.

Pelo local passaram todo o tipo de curiosos, desde turistas a técnicos do Euro 2004, passando por alunos de escolas do ensino básico, crianças de infantários, famílias e ex-professores de Física e Química, que fizeram fila junto aos telescópios para observar o "ponto negro" que hoje esteve estampado no Sol.

"Já tivemos aqui todo o tipo de pessoas, de todas as idades, na sua maioria alunos, mas também algumas pessoas ligadas à ciência que nos fazem perguntas mais técnicas e detalhadas acerca do fenómeno", frisou Alexandre Costa.

Segundo aquele professor, as medições efectuadas pelos telescópios do Centro de Ciência Viva do Algarve serão posteriormente enviadas para o Observatório do Sul da Europa para serem analisadas.

No Algarve houve ainda outros pontos de observação do trânsito de Vénus, nomeadamente na Universidade do Algarve e na Escola Secundária Pinheiro e Rosa, também em Faro.

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