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A Ciência e o Espaço

Todos a postos para o trânsito de Vénus

Teresa Firmino

Público, 08-06-2004


Método para encontrar outros planetas

Vénus é hoje um pontinho preto contra o fundo luminoso do Sol, a partir das 06h20 e até depois do meio-dia- Serão quase seis horas, o tempo da travessia planetária à frente da nossa estrela. Essa travessia, ou trânsito planetário, exemplifica uma das técnicas usadas pelos cientistas na procura de planetas noutros sistemas solares, longe da Terra. Se quiser saber como é, além de assistir a um espectáculo celeste que não é visto desde 1882, e só voltará a ser visível em Portugal em 2117, tem até às 12h26, em Portugal Continental e na Madeira, ou às 11h26, nos Açores.

Até 5 de Outubro de 1995, todos os planetas que se sabiam existir no Universo eram os do nosso sistema solar. Mas desde então, o lugar único de Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter..., e por aí fora, nunca mais foi o mesmo, com a descoberta de mais planetas em órbita de outras estrelas.

Tornou-se oficial: os planetas do nosso sistema solar não são os únicos do Universo. Havia pelo menos um planeta a 40 anos-luz de distância da Terra, em redor da estrela Pégaso 51. Foi descoberto de forma indirecta, através de pequenas oscilações da estrela, para trás e para a frente, sob o efeito da gravidade do planeta. Mas em 1999 sucedeu algo extraordinário: viu-se um planeta a passar diante da estrela, roubando-lhe um pouco de brilho. Essa foi a primeira vez que se detectava um planeta de forma directa.

Havia, a partir daí, duas técnicas de detecção de planetas extra-solares, ou exoplanetas, como se chama a estes mundos que orbitam outras estrelas. Uma dessas técnicas é demonstrada hoje, a milhões de pessoas, quando Vénus passar diante do Sol.

A técnica dos trânsitos para detectar planetas extra-solares consiste na medição continuada do brilho de uma estrela para tentar observar se diminui. Isso poderia revelar que um planeta ou outra estrela passava à sua frente. Os habitantes da Terra só podem ver o trânsito de Vénus e de Mercúrio pelo disco solar, pois são os únicos planetas entre a Terra e o Sol.

Mas no nosso sistema solar dão-se outros trânsitos, como é o caso sempre que as quatro grandes luas de Júpiter - Io, Europa, Calisto e Ganimedes - passam à frente daquele planeta, o maior do nosso sistema solar. Como as luas de Galileu - assim chamadas porque foi ele quem as descobriu, no século XVII - orbitam Júpiter em apenas alguns dias, este fenómeno é frequente, explica o boletim do Observatório Astronómico de Lisboa (OAL). Mas a observação destes trânsitos não é fácil, porque o disco de Júpiter é muito brilhante e ofusca a luz dos seus satélites naturais. Só quando passam em zonas mais escuras de Júpiter se vê o fenómeno.

Ora, foi a técnica do trânsito que, em 1999, tirou as dúvidas aos cépticos sobre a detecção de planetas extra-solares, como conta o astrofísico Alfred Vidal-Madjar numa entrevista publicada no livro "Estaremos Sozinhos no Universo?" (Âncora Editora).

Antes disso, ainda nesse ano, esse planeta fora descoberto à volta de uma estrela amarela parecida com o Sol, chamada HD 209458, na direcção da constelação de Pégaso. Essa detecção fizera-se como até aí os cientistas detectavam planetas extra-solares, incluindo a equipa dos Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra, a quem coube a descoberta histórica de 5 de Outubro de 1995 - pelo método das velocidades radiais, que mede as variações na velocidade de uma estrela causadas pelo efeito gravitacional de um planeta. Se a velocidade e a posição da estrela oscilarem periodicamente, quer dizer que terá um corpo à volta, e poderá ser um planeta.

"Um planeta, encontrado em volta da estrela HD 209458, foi detectado de forma indirecta por diversas equipas de observadores, e depois foi captado de novo, de forma directa, quando passou diante da estrela, a 9 e 16 de Setembro de 1999, exactamente no momento em que era esperado", relata Vidal-Madjar. Podia-se passar a usar um novo método para detectar planetas extra-solares.

Conhecem-se agora mais de 120 planetas extra-solares, entre os quais quatro observados pelas duas técnicas. A conjugação de métodos pode dar informações preciosas sobre estes mundos gasosos e gigantes.

A técnica dos trânsitos dá uma ideia do raio do objecto a passar defronte da estrela e do tempo que leva a completar uma volta, mas tem limitações, explica o astrofísico Nuno Santos, do OAL, que fez o doutoramento sobre planetas extra-solares sob a orientação de Michel Mayor. Aos 30 anos, continua a colaborar com a equipa de Genebra e assim já participou, desde 1998, na descoberta de cerca de 50 planetas.

Como limitações, o astrofísico português refere que o método dos trânsitos não permite dizer o que é e não é um planeta, porque uma estrela muito pequena e um planeta muito grande parecem ter o mesmo tamanho. A técnica das velocidades radiais, no entanto, permite determinar a massa e dizer se é uma estrela, um planeta ou outro objecto.

Juntando as duas técnicas, pode detectar-se um corpo em órbita de uma estrela, confirmar-se que é um planeta, ou não, e até estudá-lo: por exemplo, saber a sua densidade. Por isso, em relação aos quatro planetas observados com as duas técnicas, há dados mais pormenorizados sobre a distância a que estão da estrela, a massa, o raio e a densidade média.

Mas mesmo com as duas técnicas, só se conseguem detectar planetas monstruosos feitos de gases, como Júpiter ou ainda maiores, e que estão na Via Láctea, a nossa galáxia - de maneira geral, estão todos próximos da Terra, a algumas centenas ou milhares de anos-luz de distância (o tempo que a luz que emitem, a viajar a 300 mil quilómetros por segundo, demora a chegar cá).

Será que na vastidão do Universo não há planetas mais pequenos, como a Terra e Marte, que são telúricos e têm uma superfície dura? Esse é o próximo passo da exploração de novos mundos, que, entre outras perguntas, desde logo levantaram a interrogação de sabermos se terão alguma forma de vida.

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