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A Ciência e o Espaço

Marte vai estar hoje mais perto da Terra do que nos últimos 60 mil anos

Máximo Ferreira

Público, 27-08-2003

Rotação em torno do sol explica fenómeno

Hoje Marte fica mais próximo da Terra do que alguma vez esteve nos últimos 60 mil anos. A maior proximidade do planeta vermelho à Terra não terá qualquer influência sobre os terrestres, exceptuando o facto de muitos milhões de observadores aproveitarem a ocasião para o olhar, à vista desarmada, com binóculos ou através dos mais variados tipos de telescópios. Para além disso, a observação de Marte não proporcionará diferenças sensíveis relativamente ao que se pode ver alguns dias antes ou depois.

A razão das distâncias variáveis entre os dois planetas - bem explicada por Kepler quando, no início do século XVII, publicou a sua interpretação matemática dos registos de observações efectuadas por Tycho Brahé, que havia sido seu mestre - resulta de as órbitas respectivas não serem circulares mas sim elípticas. A excentricidade de tais linhas fechadas verifica-se para qualquer planeta, embora possua valores diferentes. Dai resulta que a distância de cada um deles ao Sol - situado este num dos pontos notáveis da elipse, a que se dá o nome de "foco" - é variável ao longo do período orbital respectivo.

Assim, quando dois planetas se encontram do mesmo lado do Sol, a distância entre eles será mínima, embora esses valores não sejam sempre iguais. Essa "proximidade" pode ocorrer numa ocasião em que os dois se encontram mais perto da nossa estrela, ou não.

Embora seja raro, pode verificar-se que, estando os dois planetas no mesmo lado do Sol, o que possui órbita exterior encontrar-se à distância mínima do Sol no momento em que aquele que gira em torno da estrela mais interiormente se encontrar à distância máxima do Sol. Essa será, então, a ocasião de distância mínima entre os dois!

Com efeito, as distâncias médias entre Marte e a Terra podem variar entre 378 milhões de quilómetros - quando se encontram um de cada lado do Sol - e apenas cerca de 78 milhões, na ocasião em que estão do mesmo lado. Mas, porque os períodos orbitais são diferentes e as órbitas (excêntricas) de cada um vão como que rodando no espaço (fenómeno designado por precessão das órbitas), as distâncias mínimas - geralmente diferentes - acabarão por atingir um mínimo que, para Terra e Marte, está prestes a ser alcançado.

Naturalmente, espera-se então observar a superfície marciana com maior detalhe, embora se saiba que, mesmo com telescópios de grandes capacidades, pouco mais se avista do que a calote polar voltada para a Terra (a correspondente ao pólo sul) e colorações diversas em algumas regiões da superfície marciana.

Mesmo assim, não deixa de ser interessante poder contemplar directamente pormenores noutro planeta. Em particular num que, para além de nosso vizinho (56 milhões de quilómetros é muito pouco, em Astronomia), possui características idênticas ao nosso e, pensa-se, que após alguns milhões de evolução semelhante à da Terra, a sua pequena massa condenou a não poder oferecer-nos uma vizinhança agradável de... marcianos!

Dos largos milhões de observadores que, em todo o mundo, vão estar de olhos postos em Marte, uma quantidade considerável estará em Portugal. Instituições oficiais, associações e grupos com ligações à Astronomia, vão abrir as portas ao público, em vários pontos do país. Quase todas integradas no Programa Astronomia no Verão, as actividades envolverão, em muitos casos, para além das observações de Marte, palestras sobre o acontecimento e a observação de outros objectos celestes. Informações sobre locais de observação podem ser obtidas através da internet em http://www.cienciaviva.pt ou pelo número azul 808 200 205.

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