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A Ciência e o Espaço

Robô dos Estados Unidos Parte Hoje para Marte

Teresa Firmino

Público, 09-06-2003

Se tudo correr de feição, a 4 de Janeiro do próximo ano, os cientistas começarão a maravilhar-se com o que lhes chegará da superfície de Marte. Um robô gigante dos Estados Unidos, com seis rodas - que deveria ter sido lançado ontem, mas, devido às más condições metereológicas , deverá ir hoje para espaço a bordo de um foguetão Delta II - começará a deambular pelo planeta vizinho, como se fosse um geólogo no terreno.

Sempre que se deparar com algum obstáculo que possa constituir risco, irá contorná-lo e, sob o comando dos cientistas na Terra, caminhará em direcção às rochas escolhidas para estudo. Esta nova prospecção de Marte continua a ter em vista a solução de um velho mistério: existiu, ou existe, água em Marte, um elemento essencial à vida? E se existiu em grandes quantidades, como parece ter sido o caso, em enormes oceanos, o que a fez desaparecer?

A missão que começa hoje, a Mars Exploration Rover, é composta por um módulo de pouso e pelo robô das seis rodas, com 180 quilos. Será completada por outro módulo de pouso e outro robô, que deverão partir no próximo dia 25. A única diferença é que vão para regiões diferentes. O primeiro robô perscrutará a Cratera Gusev e o segundo a zona de Meridiani Planum.

"Gusev e Meridiani vão fornecer-nos dois tipos diferentes de provas sobre a história da água líquida em Marte", diz Joy Crisp, cientista do Laboratório de Propulsão a Jacto, na Califórnia, envolvido na missão Mars Exploration Rover. "A Gusev parece ter sido um lago numa cratera. Os canais do leito de um rio antigo indicam que a água corria até à cratera. A Meridiani tem um grande depósito de hematite, um mineral que geralmente se forma num ambiente com água."

Pela descrição dos sítios de aterragem, percebe-se que a agência espacial norte-americana NASA procura provas da existência de água, agora e no passado, em locais com características distintas. A Cratera Gusev, resultante do impacto de um meteorito, tem cerca de 150 quilómetros. O que a torna tão atractiva é que se trata de um vale de 900 quilómetros de extensão, cujos meandros vão dar até à cratera. Há muito tempo, correntes de água terão causado a erosão no vale e, provavelmente, desaguaram na cratera e formaram um lago. A água já desapareceu de lá há bastante tempo, mas talvez o robô encontre sedimentos que revelem a história desse lago.

Aí, o robô fará uso de um instrumento colocado, a par de outros, num braço extensível à frente do veículo. Esse instrumento, uma espécie de martelo dos geólogos, vai expor o interior das rochas. Para tal, raspa a parte de fora, para depois dois espectrómetros identificarem a composição das rochas e as condições em que se formaram, incluindo a existência, ou não, de água nessa altura.

A Meridiani Planum é um dos locais mais planos de Marte mas não é por isso que a NASA quer lá pôr o segundo robô, que chegará a 25 de Janeiro do próximo ano. O facto de a sonda norte-americana Mars Global Surveyor, em órbita do planeta desde 1997, ter detectado ali a hematite suscitou estranheza quanto à composição mineral desse local. A hematite, um mineral constituído por óxido de ferro, existe na Terra mas raramente se forma sem a presença de água líquida. Será, então, que a formação da hematite marciana envolveu a existência de água?

Através de um poderoso microscópio, também no braço do robô, examinar-se-á o tamanho e a orientação dos grãos de hematite, na esperança de encontrar pistas sobre a formação deste mineral.

Tanto as imagens obtidas por uma câmara panorâmica - que se espera serem as mais pormenorizadas da superfície marciana - como as várias medições, a enviar diariamente para a Terra, ajudarão os cientistas a comandar os robôs até às rochas e solos que possam ter maior interesse científico. As suas deambulações diárias, de 40 metros, deverão prolongar-se por três meses, pelo menos.

"Usaremos os robôs para procurar rochas e solos que possam ter pistas sobre os ambientes húmidos do passado de Marte. E analisaremos as pistas para ver se esses ambientes podem ter conduzido à vida", diz Cathy Weitz, outra cientista da missão, citada num comunicado da agência espacial. Pela sua parte, Ed Weiler, um dos administradores da NASA, prefere falar da nova imagem que teremos do planeta: "A instrumentação dos robôs, conjugada com a sua grande mobilidade, oferecerá uma visão totalmente nova de Marte, incluindo a primeira visão microscópica do interior das rochas."

O derradeiro objectivo da ida de sondas e robôs a Marte é a preparação de uma viagem de seres humanos, mais viável se se confirmar que ainda há lá água.

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