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A Ciência e o Espaço

Europa, Estados Unidos e Japão Vão a Marte

Teresa Firmino

Público, 03-06-2003

O planeta Marte vai ficar congestionado no final do ano, é o mínimo que pode dizer-se. Vão encontrar-se por lá quatro missões espaciais: uma da Europa, outra do Japão e duas dos Estados Unidos. Só que a frota de sondas em Marte não ficará por aqui, já que em órbita do planeta estão duas sondas norte-americanas - a Mars Global Surveyor, desde 1997, e a Mars Odissey 2001, desde esse ano.
Na nova leva de missões ao planeta vermelho, a Europa é a primeira a enviar a sua sonda: a Mars Express partiu ontem, a bordo de um foguetão russo Soiuz, lançado de Baikonur, no Cazaquistão.

Mas porquê tanto interesse em Marte? Porque Marte encerra ainda muitos mistérios. Os maiores são sobre a existência de água e de vida, passada ou presente. Com esta corrida à obtenção de conhecimentos sobre Marte - que é um dos planetas mais estudados, à excepção da Terra -, os olhos dos visionários projectam-se algumas dezenas de anos no futuro, numa missão de seres humanos ao planeta vermelho.
"O grande objectivo disto tudo, a longo prazo, é mandar homens a Marte. E a Agência Espacial Europeia tem um programa - o Aurora - que quer pôr lá um homem até 2030", conta o astrofísico holandês Maarten Roos Serote, do Observatório Astronómico de Lisboa, que coordena um projecto, à espera de aprovação de fundos, para analisar
dados da Mars Express. "Para mandar um homem, ou uma mulher, ou os
dois, é preciso conhecer bem Marte. Há muitas coisas que não sabemos.
Há sempre a questão da água: onde está?"
Para preparar o terreno para uma missão humana há, então, que aproveitar as melhores oportunidades de lançamento de aparelhos para
Marte. Esta é uma dessas oportunidades, que só acontece de 26 em 26
meses, quando o caminho da Terra para Marte é mais curto. Razões por
que, num olhar mais desatento, todos parecem querer ir para lá de
repente.
No próximo domingo, os Estados Unidos prevêem lançar a Mars Exploration Rover, que terá uma missão gémea a deixar a Terra a 25 de
Junho. Como se depreende pelo nome, a missão da agência espacial norte-americana NASA é constituída por dois robôs que vão amartar - na Cratera Gusev e em Meridiani Planum.


Um Ano Novo agitado

O Japão adiantou-se. Enviou uma sonda, a Nozomi, em Julho de 1998,
com o objectivo principal de estudar as camadas superiores da atmosfera marciana e a sua interacção com o vento solar. Mas a Nozomi andou a fazer passagens pela Lua e pela Terra, aproveitando a sua força gravitacional, para ganhar impulso até Marte - daí que só lá vá chegar no início de 2004.

É também no início de 2004 que chegarão a Marte os dois robôs dos EUA. A sonda da Agência Espacial Europeia (ESA) atingirá o destino um tudo-nada antes, a 26 de Dezembro, depois de uma viagem de seis meses. É a primeira vez que a Europa envia uma sonda a Marte ou, aliás, para qualquer outro planeta além da Terra.

A Mars Express manter-se-á em órbita durante pelo menos um ano marciano (ou 687 dias terrestres). Estudará a composição da atmosfera
marciana e da superfície. Por exemplo, um dos instrumentos a bordo da
sonda irá procurar água e gelo debaixo da superfície, até uma profundidade de alguns quilómetros. Os cientistas esperam encontrar
uma camada de gelo ou solo congelado e medir a sua espessura, diz um
comunicado de imprensa da ESA. Os dados recolhidos pela Mars Odissey 2001 revelaram a existência de depósitos de gelo no subsolo marciano, que se estendem desde a ponta das calotes polares até latitudes médias.

Outros instrumentos da sonda medirão a quantidade de água que resta na atmosfera. "Temos provas claras da presença de água no passado - vimos leitos secos de rios e camadas sedimentares - e também há provas de água actualmente em Marte. Mas não sabemos em que quantidade. A Mars Express irá dizer-nos", afirma Agustin Chicarro, coordenador científico da Mars Express.

Marte terá sido um planeta muito diferente do que é hoje. Era quente e húmido. O poeirento planeta vermelho terá tido oceanos, o que pode ter feito dele um local apropriado para a vida. "Que processo tornou Marte no mundo seco e frio que vemos hoje? Com a Mars Express vamos
descobrir. Acima de tudo, pretendemos obter uma visão global do planeta - da sua história, geologia e como evoluiu", acrescenta Agustin Chicarro.


Beagle 2, a toupeira europeia

Em relação aos mistérios de Marte, Maarten Roos Serote dá mais algumas achegas. "Pensa-se que há água debaixo da superfície, mas em
que estado não se sabe. O que aconteceu? Há uma parte que se evaporou, mas a que restou onde está?"

Mas se a maior parte dos cientistas considera que determinadas estruturas são leitos de rios, também há quem duvide. "Há pessoas que
pensam que não são leitos de rios: pensam que são estruturas formadas
por líquido que correu na superfície, mas que esse líquido era dióxido de carbono." Maarten Roos Serote refere ainda outros mistérios marcianos:
"Houve um campo magnético e, neste momento, não há. Alguma coisa aconteceu. Havia uma atmosfera mais densa do que agora.
A atmosfera foi-se embora: o que aconteceu?"
A Mars Express também lançará para a superfície marciana um pequeno
robô - o Beagle 2, construído no Reino Unido, e cujo nome homenageia
o navio onde o naturalista Charles Darwin fez a viagem que esteve na
base da elaboração da teoria da evolução através da selecção natural das espécies.

A descida do Beagle 2 será feita na cratera Isidis Planitia, na região equatorial. Com mais de 1600 quilómetros de diâmetro, separa o
Hemisfério Sul, cheio de crateras, do Hemisfério Norte, mais plano.
Quando pousar no solo marciano, enviará para a Terra uma música com
nove notas, a assinalar a chegada em segurança, composta pela banda
pop britânica Blur.

Ao contrário dos robôs da NASA - que serão capazes de andar 40 metros
em cada dia marciano, em missões de três meses destinadas à procura de indícios geológicos de água -, o Beagle 2 não será um andarilho.
Nos seis meses da missão, manter-se-á numa área limitada, numa busca
incessante de vestígios de vida. "Está toda a gente doida para encontrar vida em Marte e o Beagle 2 vai tentar obter mais indícios", sublinha Maarten Roos Serote. "O Beagle 2 tem um braço-robô, onde estão a maior parte das experiências. Vai escavar o terreno e analisar e analisar as rochas - tudo numa zona restrita de alguns metros."
Ao esgravatar o solo marciano, até dois metros de profundidade, o
braço-robô do Beagle 2, baptizado Toupeira, pretende procurar minerais com carbono que têm origem em processos biológicos. A procura de indícios de metano, um gás que pode estar associado a formas de vida, é outro dos objectivos da Toupeira.

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