Login

[ Imprimir ]
A Ciência e o Espaço

Europa Apronta-se para Ir à Lua

Teresa Firmino

Público, 04-04-2003



A Lua parece ter ficado ao abandono desde Dezembro de 1972, a data da última vez que os homens puseram lá os pés. Depois dessa vitória, os Estados Unidos, no contexto da Guerra Fria, em que a União Soviética saíra perdedora da corrida, desinteressaram-se da Lua.

Só nos anos 90 reavivaram o interesse, enviando duas sondas - a Clementina e a Lunar Prospector -, que demonstraram poder haver água no satélite natural da Terra. Agora, a Europa também quer entrar na corrida: a sua primeira sonda lunar, a Smart-1, foi apresentada ontem publicamente. A partida está prevista para meados de Julho, a bordo de um foguetão Ariane 5, que descolará de Kourou, na Guiana Francesa.

O lançamento da sonda estava previsto para Março, mas o acidente da nova versão mais potente do Ariane 5, que explodiu em Dezembro do ano passado, ditou o adiamento. Neste momento, estão em curso, no Reino Unido, os últimos acertos com vista ao lançamento da Smart-1, noticiou a agência Lusa.

A Smart-1 será a primeira aventura na Lua da Agência Espacial Europeia (ESA), a que Portugal aderiu como membro de pleno direito no final de 1999. Depois da partida, levará bastante tempo a chegar à Lua - 15 meses, porque irá aproveitar-se o caminho para testar a propulsão iónica, outra estreia da ESA, embora este tipo de motor já equipe a sonda norte-americana Deep Space 1, lançada em 1998.

O teste da propulsão iónica será o objectivo principal da sonda, pois esta tecnologia é considerada essencial para futuras viagens espaciais. Será usada em sondas que, no futuro, a ESA enviará ao planeta Mercúrio (Bepi-Colombo) e ao Sol (Solar Orbiter). "No entanto, o uso não se limitará à ciência, a indústria das telecomunicações também está muito atenta", refere um comunicado de imprensa da agência.

A Smart-1 leva várias experiências para testar diversas inovações técnicas. "A Smart-1 é um protótipo das missões espaciais futuras. É uma missão pequena e barata, que destaca a miniaturização", sublinha o comunicado. A sonda pesa apenas 370 quilos e custa 100 milhões de euros.

Ter-se-á ainda em vista um grande objectivo científico: verificar se os depósitos de hidrogénio congelado, descobertos no Pólo Sul da Lua, são mesmo de água. Um dos locais onde é mais provável haver água congelada é a cratera Aitken, no lado oculto da Lua, no Pólo Sul. Um relatório do Conselho Nacional de Investigação dos EUA, divulgado no Verão do ano passado, aconselhou justamente a agência espacial norte-americana NASA a considerar prioritária a exploração desta cratera. Porém, a NASA não tem, de momento, um projecto seleccionado de uma sonda para enviar à Lua.

A existência de água na Lua mudará radicalmente os planos das agências para a exploração do espaço. Permitiria a criação da tão propalada base lunar, que pode até servir como interposto para outras aventuras, como uma viagem tripulada a Marte. Isto porque do hidrogénio congelado poderá extrair-se oxigénio, possibilitando assim a presença humana na Lua, que quase não tem atmosfera. O hidrogénio também pode servir como fonte de combustível para as naves espaciais.

Embora a ESA esteja agora com os olhos na Lua, nas intenções da agência europeia, tal como nas da NASA, está Marte. Quer-se ir à Lua não tanto como objectivo final, mas como um entreposto ou uma plataforma que está mais à mão, onde podem testar-se tecnologias para preparar uma viagem, quem sabe se daqui a uns 30 anos, de astronautas europeus ou norte-americanos a Marte.

Nos seis meses que estará em órbita da Lua, com possibilidade de outros seis, a Smart-1 voará mais baixo que outras sondas, a apenas 300 quilómetros de altitude, para fazer um mapa mais pormenorizado do Pólo Sul (de 30 metros por "pixel", contra os 200 metros da Clementina). Estudará ainda os minerais e a composição química, já que se as idas à Lua, de homens ou máquinas, trouxeram pistas, também levantaram imensas perguntas. Uma delas é sobre a origem do satélite natural da Terra.

espaco1.pdf
[ Imprimir ]