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Hidrotermalismo Submarino I
As ilhas que constituem o Arquipélago dos Açores representam os pontos mais altos de uma complexa cadeia de montes submarinos situada na Crista Médio-Atlântica, que alberga uma riqueza biológica excepcional. Destes, destacam-se o Banco Princesa Alice e o Banco D. João de Castro.
O primeiro é um monte submarino com uma extensa área de baixas profundidades, 90 km a sudoeste da Ilha do Pico. O banco deve o seu nome a ter sido descoberto durante uma campanha oceanográfica realizada a 9 de Julho de 1896 por Alberto I, Príncipe do Mónaco, a bordo do seu navio de investigação Princesse Alice. Atinge a profundidade mínima de 35 metros e apresenta uma enorme biodiversidade, constituindo um precioso recurso pesqueiro e um óptimo local para a prática do mergulho.
O Banco D. João de Castro é um monte submarino isolado, localizado entre as ilhas de S. Miguel e Terceira, sísmica e vulcanicamente muito activo, com formas secundárias de vulcanismo evidentes que se traduzem em numerosas fumarolas e nascentes termais. A última grande erupção no Banco D. João de Castro ocorreu em Dezembro de 1720 e formou uma pequena ilha sensivelmente circular. A erosão marinha depressa a reduziu consideravelmente, de tal forma que em 21 de Julho de 1722 o Conselho da Marinha foi informado de que a ilha tinha desaparecido, embora haja notícias de registos visuais posteriores.
Após quase dois séculos de disputa quanto à existência ou não da ilha ou de um baixio dela resultante, o navio hidrográfico português D. João de Castro descobriu o baixio, ao qual foi dado o nome do navio. Os fundos marinhos e as águas em torno do Banco D. João de Castro exibem uma grande biodiversidade, com cerca de 220 espécies identificadas e um índice de Margarlef de 8,7 (medida utilizada em ecologia para estimar a biodiversidade de uma comunidade, em que valores superiores a 5 são considerados como indicador de grande biodiversidade). São conhecidas também nascentes hidrotermais de superfície, entre os 20 e os 45 metros, que constituem um importante desafio para o estudo das comunidades que ocorrem neste tipo de habitat. Esta riqueza biológica e a singularidade das formas de vulcanismo submarino que exibe justificaram que o Banco D. João de Castro fosse considerado como Sítio de Interesse Comunitário e integrado na Rede Natura 2000 da União Europeia.
Os Açores constituem igualmente uma área muito importante para estudos das fontes hidrotermais profundas. Estas fontes têm sido alvo de vários projectos de investigação por parte de diversos cientistas. A sul do arquipélago têm sido descobertos, desde 1993, vários campos hidrotermais, numa zona da Crista Média Atlântica que ficou conhecida como a região MOMAR (do projecto MOMAR - Monitoring the Mid-Atlantic Ridge), por se ter tornado uma região privilegiada para estudos internacionais da crosta submarina e fauna.
Tudo começou com a descoberta acidental do campo Lucky Strike, situado a 1700 metros de profundidade, quando uma missão americana que dragava basaltos recolheu pedaços de chaminés hidrotermais, com animais das fontes ainda vivos. Desde então têm-se sucedido as missões, tendo-se descoberto os campos Menez Gwen (800 m), Rainbow (2300 m) e Saldanha (2200 m). A diversidade destes campos é elevada, apresentando características importantes para a compreensão da origem de recursos minerais, metálicos e possivelmente energéticos. O ponto mais enigmático é ainda a possível relação de alguns (como o campo Saldanha) com os campos de hidratos de metano que ocorrem nas vertentes continentais, dada a abundância de metano em ambas as situações.
A descoberta do hidrotermalismo submarino é uma história de sucesso das Ciências da Terra. Nada fazia prever que se viriam a descobrir aí algumas das mais interessantes comunidades de seres vivos conhecidas na Terra. Este campo de investigação constitui hoje uma linha importantíssima de avanço da ciência. As comunidades biológicas dos campos hidrotermais são constituídas por extremófilos, organismos que vivem em condições extremas (falta de luz, baixa temperatura, pressão elevada e abundância de elementos tóxicos para a generalidade dos seres vivos, incluindo arsénio, mercúrio e outros). A quase totalidade das fontes de energia destas comunidades são químicas (sem estarem relacionadas com a fotossíntese) e dependentes de reacções com o enxofre, um elemento fornecido pelas fontes hidrotermais.
O estudo destas comunidades de vida em condições extremas tem especial interesse porque poderá dar-nos pistas sobre a origem da vida na Terra e até para a busca de vida extraterrestre. A conjugação de vulcanismo com a presença de água como em Europa, lua de Júpiter, poderá gerar campos hidrotermais submarinos e talvez vida.
Uma missão coordenada por Fernando Barriga, representante de Portugal no European Science Foundation Marine Board e investigador/coordenador do Creminer - Centro de Recursos Minerais, Mineralogia e Cristalografia, recolheu fragmentos geológicos e colónias biológicas nas proximidades do vulcão da Serreta, zona de fundos marinhos a oeste da costa da Ilha Terceira, frente à povoação da Serreta, onde têm ocorrido erupções submarinas frequentes ao longo de linhas de fractura. A missão integrou investigadores da Universidade dos Açores e as sondagens foram feitas a partir do navio hidrográfico da Marinha Portuguesa “Gago Coutinho”, com o apoio do primeiro ROV (veículo submarino telecomandado) português, de nome “Luso”, que pode mergulhar a seis mil metros de profundidade.
Encontre mais informação em:
http://www.horta.uac.pt/port/index.html
http://www.horta.uac.pt/intradop/
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