UMA TEIA COMPLEXA: ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS, OCEANOS E SAÚDE

UMA TEIA COMPLEXA: ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS, OCEANOS E SAÚDE


O tema das alterações climáticas é complicado e extenso e seria fácil dedicar um curso inteiro à discussão de todas as suas diferentes facetas. Para introduzir o tema, segue-se um vídeo do World Ocean Observatory (Observatório Mundial dos Oceanos):

Tentando focar o tema dos oceanos e da saúde, introduz-se apenas alguns aspectos de relevância relacionados com as alterações climáticas, importantes para uma visão global de contexto.

Deste modo, ao discutir-se os potenciais efeitos das alterações climáticas nos oceanos, e por sua vez na saúde, faz sentido olhar-se primeiro para a forma como a atmosfera e os oceanos interagem de modo a criar padrões de tempo e clima.

O oceano armazena enormes quantidades de energia térmica e apresenta uma resistência razoavelmente elevada às alterações de temperatura. Esta energia térmica sobe para a atmosfera e aquece-a, criando diferenças de temperatura no ar, que originam ventos. Os ventos sopram então contra a água do oceano, criando correntes. Simultaneamente, a salinidade e as variações de temperatura no interior do próprio oceano, são responsáveis pelas correntes verticais observadas. O conjunto de todas estas actividades, forma uma espécie de sistema circulatório de distribuição de calor e regulação do clima bastante complexo.



O oceano tem vindo a ser apelidado de “motor do aquecimento global”. A energia é libertada do oceano sob a forma de calor e vapor de água. À medida que a atmosfera aquece, criam-se gradientes de temperatura que são responsáveis pela geração de ventos de superfície, que por sua vez direccionam as correntes oceânicas. Estes ventos e a libertação de vapor de água, afectam de forma relevante as condições meteorológicas, resultando na formação de nuvens e ocorrência de tempestades, que influenciam de forma vital a vida em geral e a fertilidade da terra. (NASA)



O oceano tem uma grande capacidade de armazenamento de gases por dissolução, em particular, gases que contribuem para o efeito de estufa como o dióxido de carbono (CO2), do qual tanto se ouve hoje em dia. De acordo com a NASA (National Aeronautic and Space Administration), alguns cientistas especulam que, se o padrão circulatório dos oceanos for interrompido poderá tornar-se uma fonte de carbono, ao contrário de um reservatório do mesmo, e os níveis atmosféricos de CO2 poderão aumentar bastante relativamente aos índices actuais de carbono na atmosfera (que por si só já são bastante elevados).

É, portanto, clara a percepção de que o oceano desempenha um papel fulcral na determinação do clima no planeta Terra. Este é o eixo fundamental para a compreensão das relações existentes entre os oceanos, as alterações climáticas e a saúde humana. A tabela que se segue sistematiza alguns dos potenciais perigos resultantes de um clima em mudança e que impactos isto poderá ter na nossa saúde.

QUADRO 1. Perigos ambientais e respectivos impactos na saúde humana [Website da Fundação Nacional para a Educação Ambiental (EUA)].

Perigo ambiental Impacto na saúde humana
Desastres naturais Ferimentos, mortes, escassez de água e alimento e aumento de casos de doenças infecciosas.
Aumento da temperatura global Aumento do cansaço em geral, aumento de enfartes devido ao calor e de problemas respiratórios e cardiovasculares.
Aumento dos índices de poluição atmosférica e da presença de agentes alérgicos no ar Doenças respiratórias, incluindo um aumento do risco de asma.
Cheias e chuvas intensas Emergência e ressurgência de doenças infecciosas e impacto negativo nas reservas de alimento.
Aumento do nível do mar Afogamentos, desalojamentos e migrações e alterações dos contornos das linhas de costa.
Secas e fogos espontâneos Diminuição das reservas de água potável, má nutrição, ferimentos e mortes.


Os investigadores não são conclusivos relativamente à forma como os oceanos irão responder a alterações que estão a ocorrer na atmosfera. As tendências observadas serão a chave para determinar o rumo destas mudanças, a longo prazo. Um documento da NASA de 1999 sobre o papel dos oceanos nas alterações climáticas afirma que:

“Uma das questões chave na área de investigação sobre alterações climáticas, é a forma como os processos físicos, químicos e biológicos, que ocorrem no oceano, irão responder às alterações físico-químicas da atmosfera que temos vindo a observar. Por exemplo, haverá um aumento na incidência de tempestades oceânicas, contribuindo para uma maior circulação das suas águas superficiais? Neste novo tipo de ambiente, o fitoplâncton tornar-se-á mais ou menos produtivo?

O pó proveniente dos solos e das areias do deserto, que é rico em ferro e que quando assenta no oceano serve de fertilizante para o fitoplâncton, é trazido pelo vento. Irá a produção deste pó aumentar devido às alterações climáticas? Este facto irá aumentar a eficiência da bomba biológica e, consequentemente, aumentar a remoção de CO2 da atmosfera pelo oceano?”



Assim sendo, como poderá um planeta mais quente, com padrões temporais, atmosféricos e oceânicos variáveis, afectar a saúde pública?

Existem algumas formas óbvias, tais como a mortalidade devido a um furacão, tsunami ou outra catástrofe natural.

Mas há exemplos menos óbvio, como as implicações para a saúde humana da ocorrência de um furacão numa ilha de um país em vias de desenvolvimento: As ondas da tempestade poderão transportar água contaminada para a costa e as pessoas poderão ficar doentes pelo contacto com esta água. Os hospitais poderão sofrer danos e os profissionais poderão não conseguir prestar os cuidados de saúde a quem precisa. Outros serviços de saúde poderão ser suspensos. Poderão ainda ocorrer surtos de doenças, como aconteceu no início dos anos 60, com o furacão que atingiu a ilha do Haiti, nas Caraíbas.

Um forte furacão atingiu esta ilha, logo após a pulverização de insecticidas para combater os mosquitos que transmitem a malária. Este desastre disponibilizou mais locais para o desenvolvimento de insectos, e interrompeu o programa de controlo de mosquitos. A conjugação destes acontecimentos, resultou num grave surto de doenças.


FIGURA 1 - Um furacão aproximando-se dos EUA (NASA)

FIGURA 2 - Os mosquitos podem representar um perigo para a saúde humana após uma tempestade.


Um exemplo ilustrativo dos efeitos catastróficos de fenómenos deste género são as consequências para a saúde pública do furacão Ike em 2008, tal como explica o seguinte artigo da Fox News:

Avaliação dos Efeitos a Curto Prazo do Furacão Ike
Domingo, 14 de Setembro de 2008
Por Marrecca Fiore

Enquanto que a saúde e o bem-estar dos moradores dos Estados do Texas e da Louisiana, após a passagem do furacão Ike, parecem em melhor forma do que o esperado, os efeitos residuais deste fenómeno poderão trazer consequências negativas nos próximos dias ou semanas, afirma o Dr. Manny Alvarez, chefe de edição do FOXNewshealth.com.

Com a maior parte da região de Houston e Galveston sem electricidade e com os moradores de Galveston sem água canalizada nem serviço telefónico, os moradores estão a enfrentar vários problemas de saúde.

Estes incluem:

1. Exposição a contaminantes tóxicos:
À medida que os refugiados enchem lares e abrigos, uma das maiores ameaças é a exposição a substâncias tóxicas tais como o monóxido de carbono, afirma Alvarez.

Esta ameaça provém da utilização de geradores portáteis interiores, grelhadores a carvão ou fogões de campismo durante as faltas de energia.
“Temos que ter cuidado porque o monóxido de carbono é um assassino silencioso”, conta Alvarez.

De acordo com os Centros de Prevenção e Controlo de Doenças, foram detectados 51 casos de intoxicação por monóxido de carbono, incluindo cinco mortos no Alabama, Louisiana e Mississípi durante e depois da passagem do furacão Katrina.

A intoxicação por monóxido de carbono é difícil de diagnosticar, mas os sintomas conhecidos incluem cefaleias, tonturas, fraqueza, náuseas, vómitos, dores no peito e confusão, de acordo com o Centro de Prevenção de Doenças (EUA).

Deverá ser notado que os especialistas médicos recomendam que não se utilizem aparelhos a carvão, gasolina ou querosene dentro de casa. Estes aparelhos só devem ser utilizados em zonas bem ventiladas.


2. Risco aumentado de exposição ao Vírus do Nilo Ocidental:
As regiões do Louisiana, Texas e outras regiões costeiras do Golfo, são um ambiente propício à transmissão da doença pelo mosquito. E as águas paradas após um furacão estão a dar terreno aos mosquitos para se reproduzirem, deixando os moradores mais vulneráveis a este vírus potencialmente fatal, afirma Alvarez.

“Esta doença tem potencial para afectar dezenas de pessoas após um furacão, sendo possivelmente fatal para algumas”, segundo Alvarez. O Centro de Prevenção de Doenças relatou um aumento de duas vezes o número de casos de Vírus do Nilo Ocidental na região costeira do Golfo, após o furacão Katrina.

Este vírus é transmitido pela picada do mosquito. Não existe vacina. A doença é normalmente assintomática mas pode resultar em encefalite ou edema cerebral, que pode ser fatal. Os moradores que permanecem na região costeira do Golfo após a passagem do furacão Ike, deverão remover quaisquer poças de água parada das suas zonas de residência e utilizar repelente para mosquitos de modo a minimizar as hipóteses de serem picados.


3. Água contaminada:
As inundações causadas pelo furacão Ike têm potencial para contaminar os abastecimentos de água com matéria fecal. Beber e tomar banho em águas contaminadas com matéria fecal poderá resultar na propagação da E. coli e do norovírus, o que poderá resultar em diarreias, cólicas gástricas, náuseas e desidratação.

Os moradores deverão apenas beber água engarrafada. A água da torneira poderá ser desinfectada através da adição de 1/8 colher chá de lixívia inodora por cada 5 litros de água ou ¼ colher de chá por 5 litros de água da chuva. Os brinquedos e outros artigos que possam entrar em contacto com água contaminada deverão ser desinfectados antes de utilizados. Os produtos à base de álcool poderão ser utilizados para limpar as mãos, na ausência de água da torneira.


4. Saúde Mental: Muitos moradores da Costa do Golfo estão a reviver o trauma de um grande furacão pela segunda vez desde o Dia do Trabalhador. Juntem isso ao stress que as pessoas estão a sentir devido ao Katrina, e a depressão poderá também tornar-se um importante problema de saúde pública.

“A depressão ainda é um problema crónico de saúde pública para os moradores que sofreram os efeitos devastadores do Furacão Katrina”, afirmou. “E isto é algo que realmente precisa de ser monitorizado”.
Os moradores, especialmente as crianças, deverão ser vigiados e medicamente assistidos relativamente a sintomas de depressão, de ansiedade e de stress pós-traumático, afirmou Alvarez.


5. Asma infantil.
Os fortes ventos do furacão Ike irão poluir o ar da zona da Costa do Golfo com químicos e gases tóxicos e não tóxicos. Isto poderá ser especialmente prejudicial para as crianças que sofrem de asma. Alvarez recomenda que os pais e as equipas de salvamento monitorizem as crianças relativamente a sinais de asma e se certifiquem que a medicação para a asma está disponível para os jovens.




Outros potenciais impactos de uma alteração da temperatura oceânica poderão incluir:



Relativamente a este último ponto, normalmente não associado aos oceanos e saúde humana apesar de tão interessante, a seguinte animação do website da NASA mostra como poeiras do Sahara atravessam o Atlântico.



Também o caso de estudo da revista Oceanography apresenta as potenciais implicações na saúde humana da poeira do deserto do Sahara Caso de estudo poeira Sahara



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