Diário de Bordo


Diário de Bordo
18 de Abril de 2004

A Viagem do Santa Luzia

Autor convidado: Prof. Doutor Richard Cooper (OTF, Universidade de Connecticut)




O relato seguinte, que se baseia em arquivos históricos e conhecimento tradicional, é um cenário possível de um navio de 30 metros de comprimento chamado Santa Luzia que saiu da costa algarvia para a América Central e regressou com muitas riquezas, mas acabou por ser atacada por piratas no regresso a casa...



Julho de 1645: O navio Santa Luzia era construído de madeira e podia levar 250 pessoas, entre soldados, guarnição e mercadores, que viviam apertados juntamente com galinhas, porcos, contentores de fruta, água, entre outros mantimentos para a sobrevivência durante a travessia de dois meses. Os mercadores a bordo forneceram a maioria do dinheiro para pagar a viagem prevista de seis meses e esperavam regressar com riquezas e especiarias da América Central. Capitães experientes disseram-lhes que a viagem seria longa, difícil e perigosa e que era provável que alguns deles não sobrevivessem.

O Santa Luzia começou a sua viagem, com 40 outros navios, a partir da costa algarvia, rumo a Oeste, em direcção às Américas. Quatro meses depois, chegaram às Américas, encheram o navio com mercadorias e riquezas, comida e água, e zarparam com os restantes 35 navios da frota que resistiram à viagem. Os sobreviventes estavam excitados com o regresso a casa mas estava conscientes da possibilidade de serem atacados por uma frota de piratas espanhóis, franceses ou ingleses.


Dois meses depois, quando a água e a comida começavam a escassear, avistaram as falésias de Sagres, o ponto mais sudoeste da Europa, mas foram confrontados com o pior cenário possível. Uma frota de 30 navios piratas navegava em direcção a eles a partir da protecção das falésias. O Santa Luzia, cujos soldados estavam fracos e doentes da longa viagem, prepararam-se para a batalha, juntamente com o soldados dos outros navios que o acompanhavam, cujos soldados se encontravam nas mesmas condições.



Os navios piratas foram-se aproximando do navio marcante com tiros de canhão. A batalha durou vários dias, com alguns navios a serem afundados por balas de canhão ou por incêndios. O Santa Luzia foi um dos últimos navios mercantes a “perder a vida” e afundou no canhão de Portimão a cerca de 250 metros de profundidade. Morreram todos os que iam a bordo nesta batalha.



Abril de 2004: Com o passar dos anos, o casco de madeira do Santa Luzia foi ficando desgastado por bichos da madeira no fundo das águas do canhão de Portimão. Actualmente, tudo o que resta do grande navio são as estruturas de ferro e a quilha que está enterrada sobre várias camadas de sedimento. Alguns barcos de pesca trouxeram alguns artifactos dos destroços do navio nas suas redes de arrasto, limpando eficazmente o fundo do mar de todos os artefactos que se desprenderam dos sedimentos.






Localizar destroços de barcos afundados é uma tarefa complicada, porque os estes deterioram-se na água salgada após muitos anos no fundo do mar. O destroço moderno da figura foi encontrado num dos mergulhos do SEMAPP e foi mais fácil de localizar porque o navio era feito de metal e não de madeira. Repare-se no instrumento de pesca fantasma deixado junto aos destroços.




Os investigadores do SEMAPP voltarão às águas portuguesas nos próximos anos para continuar a procura de recursos culturais anfundados...


O mau tempo não nos vai permitir mergulhar amanhã, por isso, este será o último diário da expedição do SEMAPP. Obrigado por seguirem as nossas actividades!


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