Perguntas de Reynaldo dos Santos
Respostas de João Ramalho-Santos,Centro de Neurociências de Coimbra
- Pensa que um clone humano iria sentir-se bem por saber que não é normal? Que se trata apenas de uma cópiade outra pessoa dita normal?
Ora essa, não é normal porquê? A não ser que tivesse alguma deficiência óbvia resultante do processo de clonagem o indivíduo em causa seria normalíssimo. Tão normal como o outro. E NÃO seria cópia de outra pessoa, pela simples razão de que, para começar, o ambiente uterino foi diferente e o social certamente que também. As pessoas seriam parecidas, mas distintas, provavelmente mais distintas do que gémeos verdadeiros (que foram criados juntos). A "anormalidade" viria, eventualmente, da sociedade envolvente, que faria perguntas como esta... E "avisaria" benevolamente o indivíduo (é sempre a mesma coisa) de que não é "normal".
Mas a resposta mais honesta é: Não faço a menor ideia. Não sou, nem nunca serei, esse indivíduo.
Ou esta: mesmo que nascesse hoje, o indivíduo teria alguns anos até se colocar estas questões. E as coisas mudam. Se calhar, nessa altura, a pergunta nem teria razão de ser...
- É possível clonar órgãos sem clonar um ser humano completo?
Essa é a ideia de clonagem dita terapêutica. De momento não é possível formar inteiros órgãos in vitro, uma vez que são estruturas complexas e tridimensionais (mas caminha-se para isso). Mais viável é cultivar células in vitro, que, uma vez injectadas em órgãos doentes, os possam regenerar. As células estaminais(embrionárias ou adultas, que poderiam ser criadas também a partir de embriões clonados- para evitar a rejeição por parte do indivíduo que as recebesse). Mas não formar o órgão inteiro. Outra hipótese é modificar geneticamente porcos (que têm muitos órgãos de tamanho semelhante) de modo a que os seus órgãos sejam mais compatíveis para transplantes.
- É possível clonar o ADN de um ser humano morto recentemente? E a partir do ADN de um corpo morto há mais de trinta anos?
Depende do estado de conservação, e da possibilidade de se extrair ADN. Mas, em teoria, sem dúvida. Uma das razões que motivam adeptos da clonagem é precisamente a ideia (errada) de criar uma "cópia" de alguém que faleceu.