A ética é um conjunto de leis morais de um lugar, que determina os valores humanos e morais de uma sociedade, fazendo com que as pessoas reflitam sobre as várias faces de suas atitudes, que refletem a dignidade humana, o bem comum, a solidariedade, a igualdade e a subsidiariedade. As ciências biológicas também tem sua ética, chamada de bioética, que são os valores da sociedade científica que, de certa forma, julga a moral dentro da ciência. Admitimos como Cordi, lt al (2002) que a moral é um conjunto de normas, prescrições e valores, que regulamentam o comportamento dos indivíduos na sociedade, e que a ética, é uma reflexão sistemática sobre o comportamento moral, que investiga, analisa e explica a moral de uma determinada sociedade.
Procuramos nesse trabalho conhecer a opinião das pessoas sobre alguns aspectos da genética e ética relacionados à clonagem terapêutica e à clonagem reprodutiva. Acreditamos ser um dos temas mais polêmicos e interessantes a ser discutido. Com esse artigo estaremos contribuindo com informações sobre clonagem e aspectos éticos a ela relacionados, possibilitando assim a formação de opiniões, comparando os conhecimentos adquiridos durante as nossas pesquisas,as nossas opiniões com as de outras pessoas para podermos entender como essa idéia da clonagem está começando a ser disseminada pela sociedade, em especial entre os adolescentes de 12 a 20 anos.
Compreendendo o fenômeno clonagem
A clonagem apresenta-se sob duas abordagens: a clonagem reprodutiva e a clonagem terapêutica. A clonagem reprodutiva é feita com o objetivo de reproduzir a própria espécie. De acordo com RUMJANEK [2001], para se clonar separa-se as células de um embrião no começo do desenvolvimento. São duas células usadas, a receptora e a doadora, a receptora em geral é o zigoto ( um ovo fertilizado por um espermatozóide) ou um ovócito (um ovo não fertilizado ). É necessário retirar o núcleo do ovócito ou zigoto.
Essa etapa é chamada de enucleação e é realizada cuidadosamente com uma micropipeta ligada a um micromanipulador que suga o material nuclear. Em seguida acrescenta-se o carioplasto (é o núcleo retirado da célula doadora, ainda rodeado por uma camada delgada de citoplasma e de membrana plasmática ) da célula doadora ou a célula inteiro contendo o núcleo que dará origem ao clone. Em ambos os casos o material transplantado é fundido ao ovócito por meio de uma eletrofusão ( choques elétricos de baixa intensidade ) ou através da adição do vírus Sendai inativado que promove a fusão das membranas. A partir daí começa o desenvolvimento do clone, ou seja, o novo ser com características hereditárias do novo doador.
De acordo com o investigador MONTEIRO[2003] a clonagem terapêutica é feita com células muito primitivas, que têm o potencial de se diferenciarem num tipo especifico de células de acordo com o meio onde for introduzida. Existem muitos embriões que não serão usados para serem implantados em úteros e podem ser utilizados para encontrar novas formas terapêuticas para situações que hoje não têm solução, por exemplo, pele para queimados de grande superfície ou células nervosas para situações demenciais.
Em resposta aos nossos questionamentos, a cientista Marilena Corrêa, em seu e-mail do dia 27 de março de 2003, explicou que a clonagem dita terapêutica tem como objetivo obter as chamadas células-tronco do embrião. Nos primeiros dias de desenvolvimento do embrião humano,até o estágio chamado de blastocisto, as células do embrião ainda não se diferenciaram (não se especializaram). Cada uma de suas células têm a capacidade de vir a se transformar em qualquer célula especializada do organismo humano. Essa propriedade de diferenciação das células é chamada de totipotencialidade. E a diferenciação / especialização é o que efetivamente acontece: a partir daquele conjunto de células idênticas e totipotentes vamos ter a especialização de um tecido nervoso, ou o do músculo cardíaco, ou da pele etc à medida que o embrião cresce e se desenvolve. Por isso os cientistas imaginaram que a partir de um embrião fecundado in-vitro, no laboratório, naquele estágio inicial de desenvolvimento no qual as células são totipotentes e não diferenciadas, poderíamos pegar uma célula e fazer desta célula um outro embrião inteiro (clonagem) ou um órgão etc. Tudo isso que foi imaginado com base no conhecimento parcial, que se tem teoricamente, foi testado em estudos com animais, e nunca levou a que de fato se conseguisse desenvolver um órgão ou um tecido perfeito ou sem problemas.
O que existe ou não de ético / bioético na clonagem.
Pesquisa de opinião realizada pela revista brasileira Galileu com cientistas brasileiros e especialistas em genética mostrou unanimidade ao dizer que a tentativa de clonagem de um ser humano é uma irresponsabilidade que não deve ser experimentada, uma vez que os estudos feitos com animais mostraram que a técnica é ainda muito insegura. Afirmam que um clone nunca será uma cópia fiel do indivíduo clonado, porque as características de uma pessoa são a mistura de genética e do que ela foi aprendendo ao longo da vida. A imagem será a mesma, mas a personalidade e as habilidades, não. Será uma outra pessoa. Para a maioria dos cientistas, atualmente os riscos superam os possíveis benefícios.
Segundo WATSON [2003] “teme-se que a identificação da predisposição genética de uma pessoa a determinada doença possa causar discriminação genética. Outro risco é a eugenia. No futuro, teoricamente, pais poderiam selecionar genes de um embrião para que ele tivesse determinada cor de olhos, entre outras características. Há também preocupação que o patenteamento de genes e o alto custo da chamada medicina genética tornem quaisquer avanços obtidos acessíveis apenas aos habitantes de países ricos. “
De acordo com OLIVEIRA [2000], todos os avanços tecnocientíficos precisam de uma análise que considere as questões que envolvem a industrialização da vida e as idéias que defendem o domínio da criação dos seres vivos.
As biofábricas “fabricam” desde coisas úteis para a humanidade até armas biológicas
O ponto principal de debate é a questão da eugenia que abre a possibilidade de um “controle de qualidade do produto a ser concebido”. Existe também a preocupação com os bancos de sêmen, óvulos e embriões congelados cujo destino não está definido.
Pesquisa de opinião
Para identificarmos o conhecimento e a postura das pessoas sobre esse assunto e como as informações sobre clonagem estão chegando para os jovens montamos uma pesquisa de opinião com algumas questões que achamos fundamentais. Escolhemos adolescentes como público alvo.Entrevistamos um universo de 120 pessoas de 12 a 20 anos, alunos de Ensino Fundamental, Médio e Superior, divididos por grupos de idade.
Primeira pergunta:
Atualmente existem muitas plantas clonadas e algumas espécies animais. Alguns cientistas estão fazendo experiências para clonar seres humanos. Você é a favor desse tipo de experiência com seres humanos?
No grupo de 12 a 14 anos, 75% dos entrevistados responderam que eram contra esse tipo de experiência, 23% eram a favor e 2% preferiram não opinar.
No grupo de 15 a 17 anos, 53% responderam que eram contra e 37% a favor desse tipo de experiência, 7% preferiram não opinar e 3% desconheciam o assunto.
No grupo de 18 a 20 anos, 55% responderam que eram contra e 15% a favor desse tipo de experiência, 30% preferiram não opinar e todos conheciam o assunto.
A tendência da nossa pesquisa é que as pessoas quanto mais velhas, mais aceitam as experiências para clonagem de seres humanos.
Segunda pergunta:
Hoje pensa-se que a clonagem reprodutiva humana está relacionada a cópias idênticas da pessoa clonada. Na sua opinião qual é o principal motivo para se fazer a clonagem?
No grupo de 12 a 14 anos, Cópia de pessoas mortas(ressuscitar) foi escolhido por 15%; Melhoramento da espécie humana(clonagem de gênios da humanidade, resistência a doenças, prolongamento da idade de vida)28%; Perpetuação da própria pessoa, 4% clonagem terapêutica, 42%Outros, 11%
No grupo de 15 a 17 anos, Cópia de pessoas mortas(ressuscitar) foi escolhido por 23%; Melhoramento da espécie humana(clonagem de gênios da humanidade, resistência a doenças, prolongamento da idade de vida)39%; Perpetuação da própria pessoa, 6% clonagem terapêutica, 29%Outros, 3%
No grupo de 18 a 20 anos, Cópia de pessoas mortas(ressuscitar) foi escolhido por 9%; Melhoramento da espécie humana(clonagem de gênios da humanidade, resistência a doenças, prolongamento da idade de vida) 27%; Perpetuação da própria pessoa, 6% clonagem terapêutica, 52%Outros, 6%.
Para as pessoas de 12 a 14 anos houve uma interferência,pois precisamos explicar o conceito de clonagem terapêutica o que pode ter mudado o resultado, dando o maior índice para esse item. No grupo de 15 a 17 anos, foi curioso o alto índice da escolha do item “cópias de pessoas mortas” apesar de ter ficado só como o penúltimo mais votado. No grupo de 18 a 20 a maior escolha foi pelo item, clonagem terapêutica, mostrando uma maior conscientização dos jovens, mostrando também uma diferença considerável e abaixo do índice das outras idades no item cópias de pessoas mortas.
Terceira pergunta:
Na sua opinião existe algum motivo para a proibição da clonagem?
No grupo de 12 a 14 anos, Ir contra as leis da natureza foi escolhido por 37%; Questões religiosas 21%; Questões éticas 38%; Outros 4%
No grupo de 15 a 17 anos, Ir contra as leis da natureza foi escolhido por 35%; Questões religiosas 11%; Questões éticas 49%; Outros 5%
No grupo de 18 a 20 anos, Ir contra as leis da natureza foi escolhido por 17%; Questões religiosas 42%; Questões éticas 36%; Outros 5%
No grupo de 12 a 14 e de 15 a 17 o item mais votado foi “questões éticas” sendo que em 12 a 14 ele ficou somente 1% acima de “Ir contra as leis da natureza” enquanto em 15 a 17 ficou uma diferença maior entre os dois itens. Entre 18 a 20 anos o resultado foi completamente diferente deixando “questões religiosas” como o mais votado, sendo que nas outras duas idades, ele ficou somente como o penúltimo. Isso mostra que a religião está sendo mais levada em conta quando a pessoa fica mais velha.
Quarta pergunta:
Você recomendaria alguma pessoa a se clonar?
No grupo de 12 a 14 anos, todos responderam, sendo que Sim 9%; Não 91%
No grupo de 15 a 17 anos, todos responderam, sendo que Sim 20%; Não 80%
No grupo de 18 a 20 anos, Sim 7%; Não 74%; Prefere não opinar 19%
A aceitação maior da clonagem humana ficou no grupo de pessoas de 15 a 17 anos, enquanto a não aceitação diminuiu de acordo com a idade, isso porque muitos de 18 a 20 anos preferiram não opinar
Quinta Pergunta:
Você recomendaria alguma pessoa a abortar, caso descobrisse que o feto tem uma doença genética como por exemplo aquiropodia, síndrome de down, distrofia muscular?
No grupo de 12 a 14 anos, Sim 7%; Não 91%; Prefere não opinar 2%
No grupo de 15 a 17 anos, Sim 23%; Não 74%; Prefere não opinar 3%
No grupo de 18 a 20 anos, Sim 14%; Não 82%; Prefere não opinar 4%
O grupo de 15 a 17 se destacou dos outros por ser o que respondeu pela maior aceitação do aborto no caso de doenças genéticas descobertas no feto, sendo que o grupo de 18 a 20 anos foi o segundo a aceitar. A preferência por não opinar, teve um índice parecido em todos os grupos.
Conclusões
Com as respostas obtidas em nossa pesquisa podemos concluir que boa parte dos entrevistados, antes de saber o que era clonagem terapêutica, apontavam este como principal motivo de se fazer a clonagem, a ressurreição de pessoas mortas ou gênio da humanidade. Como sabemos que isso não é possível verificamos que o público demonstrou que não tinha informações suficientes sobre o assunto.
Concluímos também que é muito difícil julgar o que é ético e o que não é dentro da ciência. Algo que é usada para o bem, como a vacina pode ser usada para o mal, mas é impossível parar a ciência, ela vai estar sempre evoluindo.
O cuidado com os rumos da ciência , no entanto, devem fazer parte de uma ampla discussão de toda a sociedade. Os benefícios devem ser analisados lado a lado com as conseqüências.
As discussões sobre esse assunto já chegaram em nível do governo que se preocupa em regulamentar essas experiências.
Referências
Literatura
CORDI. It al. Para filosofar.4.ed. São Paulo: Scipione, 2002
OLIVEIRA, Fátima. Bioética: Uma face da cidadania. São Paulo:Moderna, 2000
Revistas e Jornais
WATSON, Jornal O Globo, março de 2003
RUMJANEK F. D. Revista ciência hoje, A Técnica de Clonagem de Mamíferos, Rio de janeiro, n.176, p.34 a 39, março de 2002
FERRARI N. Revista Ciência Hoje, Copia Fiel, Rio de Janeiro, n. 122, p. 3 a 10, outubro de 2001
COLAVITTI F.;GIRARDI G. Revista GALILEU, O Circo da Clonagem, Rio de Janeiro, n.139, p.67 a 74, Fevereiro de 2003
Sites/e-mail
CORREA, Marilena email, 27 de março de 2003
MONTEIRO, Carolino. Resposta do investigador: www.cienciaviva.pt/genoma
Acesso em maio de 2003
Artigos e discussões do fórum do site: www.cienciaviva.pt/genoma
Escola Monteiro Lobato - CEMS, de Vitória, Espírito Santo, Brasil. Grupo: Fernanda Leon Peres Shalders, Maira Gerhardt Santos, Natalia de Souza Bourguignon e Patricia Benezarth Herkenhoff