Num futuro bem distante, em um planeta pouco conhecido chamado Vouvie, constituído por uma população rigidamente manipulada pela genética, vivia uma moça muito bonita chamada Branconética. Ela havia sido concebida pelo método natural, sem a intervenção médica, e com mais um detalhe que a diferenciava das outras pessoas.
Ao ser submetida a exames, quando criança, ficou constatado que não havia indícios de doenças genéticas, embora em seu DNA tenha sido encontrado um gene mutante, cuja função não ficou esclarecida, mas mesmo assim, Branconética ficou sendo conhecida como o ser mais “geneticamente perfeito” de todo o mundo.
Ela vivia com seu marido Esteban num chalé, que ficava na pequena cidade de Vouville, onde tinham uma vida calma e tranqüila, naquele planeta cheio de absurdos e injustiças.
Antes de se casar Branconética vivia com sua madrasta Célia, uma geneticista famosa e polêmica que era reconhecida por todos como um gênio da ciência. Ela era viúva, seu marido, o pai de Branconética, havia morrido num acidente com seu carro super evoluído, que em vez de andar, voava, já que o trânsito era localizado todo no céu. Célia vivia em uma “robohouse” (casa grande, bonita, rica e completamente automatizada).
Sua “robohouse” possuía um perfil altamente sofisticado, onde ela tinha seu laboratório e desenvolvia experimentos. Seu mais moderno e avançado equipamento era o “Mega Espelho Mágico”. Esse espelho robô armazenava os dados genéticos de todos os seres vivos do planeta, ajudando nas pesquisas de Célia.
- Espelho, espelho meu! Existe alguém mais bela do que eu?
- Senha correta! Bom dia, minha ama!
- Bom dia computador! Abra novamente o mapeamento genético das mulheres da cidade de Vouville!
- Já está aberto.
- Vou retomar o plano de clonar todas as mulheres deste planeta e depois matar as reais, tornando essas clones minhas escravas, assim como fiz com Tobias, meu servo.
- E como vossa senhoria pretende atrair essas mulheres até aqui?
- Isso é óbvio! Fingirei que vou fazer um concurso da mais bela mulher do planeta.
Em alguns anos, todas as mulheres deste planeta se tornarão minhas escravas! Agora imprima imediatamente o mapeamento das mulheres de Vouville.
- Aqui está senhora. Você sabe quem eu encontrei na lista de Vouville?
- Quem? Diga logo, seu inútil!
- A sua desaparecida enteada, Branconética. Nossa! Mas que surpreendente! Em seu mapeamento genético há um gene mutante!
- Como isso é possível?
- Branconética é o único ser desse planeta que foi concebido naturalmente. Mesmo assim ela alcançou uma perfeição genética, não constando nenhum gene responsável por qualquer doença em seu DNA! Ela é o ser mais saudável geneticamente que já existiu!
- Então vamos cloná-la!
- Não podemos, senhora. Pela minha análise, nas células de Branconética existe uma enzima especial que permitem que o DNA se replique apenas em seu ambiente, quer dizer, ele não pode ser replicado fora do corpo de Barnconética. Isto teria acontecido porque ela foi concebida naturalmente, não foi manipulada. Branconética pode ser um marco da história evolutiva, indicando uma defesa que a natureza está construindo na espécie humana. Por isso, ela não pode ser clonada, e mais, ela poderá iniciar uma geração com esta caracteristica e com isso inibir o processo de clonagem.
- Isto é um perigo ... Espere... Tive uma idéia!
- Escreva o que eu estou te dizendo! Dentro de duas semanas Branconética estará morta!
A única coisa que Célia fez desde daquele dia foi estipular um plano para matar Branconética. Seu plano era acrescentar um gene venenoso a uma maçã transgênica e dar a Branconética. Célia sabia que sua enteada não resistia às maçãs azuis que ela preparava e que nunca iria desconfiar de um gesto de carinho de sua madrasta para com ela.
Após duas semanas de muito trabalho, com as maçãs azuis produzidas, Célia mandou-as por seu motorista para ser entregue à sua querida enteada. O motorista sabia de todo o plano de sua patroa, mas como havia sido clonado para servi-la, seguiu toda a orientação.
Branconética recebeu suas maçãs, sozinha em sua casa. Ficou muito espantada, pois ela achava que sua madrasta nem se quer lembrava dela. Quando ia ocorrer a trágica mordida, uma escavadeira amarela invadiu sua casa. De dentro dela cerca de sete homens de baixa estatura saíram e interromperam o plano diabólico de Célia.
Aqueles homens eram a organização secreta intitulada ANÕES (Associação Nacional de Organização de Ética Social), que atuava no subsolo das cidades. Essa organização já estava há muito tempo atrás de Célia pois haviam constatado que ela não usava a genética de maneira correta. Em suas investigações concluíram que ela a usava para fazer maldades, acabar com a vida das pessoas e só fazer o bem a si mesma.
Suas investigações eram feitas com aparelhos de alta potência sonora, utilizados para fazer escutas no subsolo. Eles usavam esses aparelhos para ouvir as conversas de Célia com seu espelho, seu confidente secreto. Em uma dessas conversas eles ouviram o terrível plano de Célia de matar Branconética e o porquê de querer matá-la.
Eles contaram tudo para Branconética que ficou estarrecida.
Quando Branconética ficou sabendo que todo o concurso de “Perfect Miss Vouville” era uma fraude para Célia matar todas as outras concorrentes e substitui-las por clones, para ter poder sobre elas, se revoltou, uniu-se aos ANÕES e resolveu abrir uma ação contra a madrasta acusando-a de tentativa de assassinato e clonagem ilegal.
Começou então o julgamento.
O juiz Astolfo Gaspar entra no recinto e todos os presentes ficam de pé.
- Está aberta a sessão de número 4.563. Branconética Albuquerque Silva contra Célia Martins Alves Albuquerque.
- Eu comunico a todos que exijo respeito comigo e também uns com os outros. – disse o juiz Gaspar mostrando sua maneira rígida de trabalhar – Por favor, a senhora Branconética, dê o seu depoimento.
- O que tenho a dizer é que essa mulher com que meu pai, por erro, se casou, tentou me matar usando uma maça transgênica! - respondeu Branconética apontando para Célia.
- Protesto! Não estamos discutindo o casamento da minha cliente! – o advogado de Célia, um dos melhores e mais caros de toda a sociedade, começava a mostrar que não aceitaria perder este caso.
- Protesto aceito. – disse o juiz, batendo com seu martelo na mesa e retomando o julgamento - E a senhora Célia, o que tem a dizer em sua defesa?
- Tenho a dizer que tudo isso é uma mentira! Sempre adorei Branquinha minha querida enteada. Ela que nunca gostou de mim e quer arruinar a minha carreira de geneticista!
- Que interesse eu teria em arruinar a sua carreira, Célia?
- Você sempre quis estar em meu lugar Branquinha!
As duas mulheres começavam a se descontrolar. Parecia que tinham decidido resolver todas as suas diferenças ali mesmo, bem no meio do tribunal.
- Silêncio! Eu já disse que exijo respeito em meu tribunal! Organizem-se logo, pois senão suspendo esse julgamento agora mesmo!
- Branquinha, não foi essa a educação que eu te dei.- resmungou Célia.
- Vou parar esse julgamento já! – reclamou o juiz já sentindo uma ligeira dor de cabeça.
- Não senhor juiz, não faça isso! Se esse concurso horrível acontecer, a Célia fará de todas as pessoas...
Branconética foi parada no meio de sua fala, recriminada por seu advogado, um dos componentes do grupo ANÕES. Ele desejava que esta horrorosa revelação aparecesse no final desse espetáculo, que estava apenas começando. Ele temia que uma acusação sem provas impugnasse toda a ação que planejavam.
O juiz resolveu continuar a sessão mesmo com aquela desordem, mas deixou claro que era a última chance de Branconética e sua rival. As duas daí por diante resolveram ficar quietas.
- Que entre a primeira testemunha!
Um homem velho, alto, muito magro entra no tribunal. Era Tobias que tinha um importante peso no julgamento na visão do advogado de Branconética. Ele havia solicitado ao juiz a presença deste servo de Célia para depor, mostrando todo o acontecido como realmente foi, pois Tobias, não tendo consciência do bem e do mal, contaria a verdade, mesmo que isto arruinasse sua patroa. Essa virtude de Tobias havia sido planejada por Célia no momento da clonagem, para que ele nunca a enganasse.
- Apresente-se, por favor. - diz o juiz.
- Sou Tobias Moura, o motorista da dona Célia.
Célia tremeu na cadeira. Ela nunca pensaria que Branconética usaria seu motorista no tribunal.
Tobias contou que levou a maçã envenenada para Branconética a mando de Célia. Ao ser questionado mais incisivamente, contou que ela já havia feito um teste com este mesmo tipo de maçã em uma de suas empregadas e havia testemunhado a morte desta empregada e a sua substituição por um clone. Houve uma onda de indignação no tribunal. Os jurados ficaram espantados com a nova revelação pois eles nunca imaginariam que uma geneticista tão famosa, pudesse cometer tal atrocidade.
O juiz resolveu fazer um intervalo, já que a acusação ficou bem mais grave.
Retomada a sessão, o juiz Gaspar reiniciou os trabalhos numa nova perspectiva, já que aquele julgamento não iria ficar numa simples tentativa de homicídio e sim em um genocídio.
O juiz chama a próxima testemunha.
Entra no tribunal um outro membro do grupo anões, trazendo consigo um pequeno computador. Ele então começa o seu testemunho.
- Meu nome é Dunga, faço parte do grupo ANÕES. Estou aqui para fazer uma grande revelação. Nós estamos há muito tempo investigando a senhora Célia Martins Alves Albuquerque através de uma escuta subterrânea. Temos também uma cópia do aparelho utilizado pela geneticista, uma amostra do equipamento entitulado “espelho mágico”, no qual há todas as etapas do plano de morte e substituição da população de nosso planeta. Aqui está a prova!
De repente uma projeção holográfica surgiu em meio ao tribunal para que todos pudessem ver a simulação do plano, em todas as suas etapas. Além disto todas as conversas gravadas entre Célia e seu Mega Espelho Mágico podiam ser ouvidas pois, o computador da geneticista gravara todas as conversas. Todo o tribunal pôde ver que nele constavam todos os dados de mulheres que iriam participar do concurso, e que posteriormente iriam morrer.
Depois daquela apresentação o publico que assistia o julgamento ficou indignado e muitos já anunciavam, junto a gritos de histeria, a condenação da acusada. Célia, tremendo, pálida e quase sem fôlego tentava se explicar alegando ser uma geneticista que queria apenas o bem para toda a sociedade.
Os jurados se reúnem e dão o veredicto: CULPADA
Naquele mesmo momento o juiz Astolfo Gaspar se levanta e condena a acusada à morte.
Branconética comemorou com seu marido a descoberta de que nunca poderia vir a ser clonada, o que havia sido mostrado no holograma por Dunga.
Uma semana depois, Célia se encontrava sentada em um desintegrador de partículas. Seu computador e laboratório foram destruídos, juntamente com os primeiros clones feitos. Totalmente arrasada, ela se encontrava em uma espécie de estado de choque, desde o dia da condenação, não pronunciando nenhuma palavra.
E então, quando o policial ia ligar o desintegrador, Célia fez seu último pronunciamento:
- Demorei muito tempo, mas agora consigo compreendo o quanto estava cega em achar que podemos imitar a natureza. Ela é inigualável, inimitável, única. E quanto mais nós, simples seres humanos, tentamos alcançá-la em sua perfeição, mais ela muda e arranja jeitos de nos mostrar o quão insignificante somos. Aprendam isso antes que seja tarde também para vocês: a natureza é perfeita!
E foi feito, o que deveria ser feito.
Escola Monteiro Lobato - CEMS, de Vitória, Espírito Santo, Brasil. Grupo: Clarisse Pereira Pacheco, Leonardo Gabriel M. Biancardi, Marília Ribeiro, Botti e Renata Ribeiro Orrico