Assista à emissão da CvTv
Pavilhão do Conhecimento


Genoma 2003 - Actividades
 
Imprimir documento

Perguntas dos alunos da Escola
Portuguesa de Moçambique
Respostas de Jorge Sequeiros, IBMC, Porto


Gostaríamos de saber quais são as vantagens e as desvantagens da clonagem humana e, sem qualquer tipo de crítica sensasionalista, quais são realmente as com mais "peso", as desvantagens ou as vantagens?

A clonagem humana só deverá apresentar vantagens para o tratamento de doenças genéticas ou lesões de orgãos. É a chamada clonagem terapêutica, que se baseia na obtenção de células estaminais embrionárias que, por serem totipotentes ou pluripotentes, são capazes de se diferenciarem em células de um dado tecido ou orgão para regererá-lo. Terá interesse para doenças degenerativas como Alzheimer, Parkinson, esclerose múltipla ou para lesões traumáticas da medula espinal ou para regenerar orgãos como na cirrose hepática ou no enfarte de miocárdio. A desvantagem é a destruição dos embriões a partir dos quais essas células forem colhidas.
Sabe-se hoje que os adultos têm ainda uma pequeníssima quantidade de células pluripotenciais nos seus vários tecidos. Se se conseguissem colher essas células estaminais adulas, cultivá-las e depois transplantá-las ou injectá-las no orgão doente (cérebro, medula espinal, fígado, coração, etc.) elas poderiam implantar-se aí e regenerar uma parte significativa do tecido perdido ou lesado e assim recuperar a função perdida desse orgão. O probema é que é muito difícil isolar essa células de um adulto e por isso alguns investigadores propõem que se obtenham essas células a partir de embriões (onde é muito mais fácil), sejam os embriões excedentários, ou seja, aquelas que sobram no processo das fertilizações in vitro para tratamento da infertilidade (e que são depois abandonados ou destruídos), sejam embriões criadaos expressamente para essa finalidade.
(1) Quanto à colheita de células estaminais em adultos, ninguém parece levantar grandes obejecções a nível ético; o problema é que esta é muito difícil e para já impossível em termos práticos. (2) As objecções éticas surgem, sobretudo dos meios mais conservadores, quanto ao aproveitamento dos embriões excedentários e (3) aumentam no caso da criação de embriões expressamente para tratamento de doenças. Não há ainda consensos a nível mundial, nem sequer dentro ou entre diferentes países. Alguns já têm alguma legislação, mas esta difere muito de país para país, mesmo no caso da Europa, onde se podem encontrar leis para todos os gostos.
Quanto à clonagem reprodutiva, esta tem a desvantagem de vir a criar um ser geneticamente (quase) idêntico a outro, com os problemas de identidade e outros que isso pode criar. Mas o maior problema ainda são os motivos que levam as pessoas a quererem ser clonadas ou a querer clonar um filho, uma mulher ou um marido. Em primeiro lugar, esse motivos geralmente não têm grande razão de ser, pois todos desejaríamos poder conservar connosco ou trazer de volta um parente querido, mas percebemos a inutilidade desse desejo - nenhum clone seria igual ao original (mesmo que o fosse fisicamente, não o seria em termos de personalidade e comportamentos). O que faz um ser humano é muito mais que os seus genes, é a sua educação, a sua cultura, as suas vivências, as experiências da vida por que passa, os afectos que recebe, as emoções que vive, a aprendizagem que faz, etc. Mas, se repararam, os mesmos argumentos que se podem usar contra a clonagem reprodutiva, são os memos que servem para dizer que ela afinal não teria os perigos que dizem. Ou seja, na minha opinião (e há muito quem discorde), a grande questão não são os perigos da clonagem reprodutiva, é que ela não tem qualquer interesse. É a busca de notícias sensacionalistas por parte de certa imprensa (quase toda) e os medos e os fantasmas que se criaram nas diversas sociedades quanto aos perigos da ciência, dos cientistas loucos, da criação de monstros, de exércitos de escravos ou legiões de super-homens, que foram alimentados pela imaginação criativa de muitos escritores e realizadores de cinema.


É muito falado, que uma seita, julgo eu serem "raelistas", já clonou por várias vezes humanos. acha isto viável do ponto de vista cientifico? é possivel que isso tenha realmente ocorrido?

Não é impossível que a produção de clones humanos se venha a verificar no futuro. No entanto, hoje ainda não é tecnicamente possível. É muoto difícil criar um ser humano, porque nós somos muito complexos. Já se clonaram sapos, ratos, vacas e ovelhas, mas ainda ninguém conseguir clonar sequer um macaco, muito menos uma pessoa. As tentativas que se fizeram, falahram sem pre ao fim das primeiras divisões celulares, ou seja, ao fim dos primeiro dias após a criação do embrião. Mesmo nos maíferos são necessárias muitas centenas ou milhares de tentativas para obter um clone. Não sei se sabem, mas de cada fecundação natural, isto é de cada embrião criado na reprodução humana por via sexual, só 25-30% chegam ao final de uma gavidez. Ora os raelitas dizem que implantaram 10 embriões e já obtiveram 5 recém-nascidos. Bastaria isso, e o facto de serem uma seita religiosa estranhíssima, como sabem, para não merecerem qualquer credibilidade. Eles que não têm qualquer preparação (a Françoise Boiselier é sacerdotiza da seita, e é uma química e por sinal não muito boa - passou a vida a mudar de emprego e não se lhe conhece uma única publicação científica)! O que eles conseguiram, isso sim, foi muita publicidade e a subida em flecha das acções das suas companhias...! Não há um só cientista que se acredite neles.


Como é que se iniciou o projecto do genoma humano a nível mundial?

Foi em 1988, numa grande reunião na Califórnia, que se decidiu lançar o projecto que se iniciou em 1990 e que agora terminou no passado dia 14 Abril. Foi no meio de grande controvérsia, de muita gente que dizia que era demasiado ambicioso e, sobretudo, que não iria ter qualquer interesse. O projecto foi planeado para 15 anos e com um custo de 3 mil milhões de dólares, mas acabou ao fim de 13 e só (!?) com o gasto 2,7 mil milhões. Os grandes financiadores foram o Departamento (equivalente aos nossos ministérios) de Energia dos Estados Unidos e os National Institutes of Health (NIH, o maior instituto de investigação nas ciências da vida dos EUA, ligado ao governo americano).
Nele colaboraram mais de 20 grandes laboratórios nos EUA, Inglaterra, França,. Alemanha, Japão e China, além de muitíssimos outros pequenos laboratórios por todo o mundo que se dedicaram ao mapeamento de genes de doenças humanas. A sequenciação do genoma não é um fim, é antes o princípio do desvendar da função dos nossos genes e do resto do nosso DNA, o que ainda vai demorar muitos anos mais a conseguir. Os grandes efeitos ainda vão demorar algum tempo até se começarem a sentir, com novos diagnósticos, prevenção e tratamento de muitas doenças. No entanto, já desde antes do programa iniciar que se começaram a fazer descobertas que já deram resultados muito importantes.


Espero ter conseguido responder às vossas interrogaçõe principais, mas não deixem de procurar mais informação nos sites indicados na página do Ciência Viva e noutros. Se puder ajudar de novo, não hesitem em perguntar (embora eu possa não responder logo!).

Um grande abraço para vocês e uma boa ciência viva!

Jorge Sequeiros



Voltar
  © Ciência Viva, 1996-2012