Genoma 2003 - Materiais de Apoio

Clonagem - «A Medicina regenerativa
vai ser uma realidade nos próximos anos»


Entrevista concedida pelo Prof. Carolino Monteiro à revista «Oxigénio»*



A classe científica dividiu-se perante o anúncio do nascimento de Eva, supostamente o primeiro clone humano. Uns acreditam que foi possível desenvolver uma técnica eficaz na área da clonagem reprodutiva, outros defendem que tudo não passa de uma grande mentira para centrar atenções numa seita religiosa. Para Carolino Monteiro, professor associado da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e presidente da Comissão Instaladora do Colégio de Biotecnologia da Ordem dos Biólogos, o futuro a curto e médio prazo passa muito mais por outro tipo de clonagem: a terapêutica

Oxigénio – Tendo em conta o actual “estado da arte”, acredita que as conquistas anunciadas pela Clonaid sejam verídicas?
Prof. Carolino Monteiro – Eu sou um céptico relativamente à veracidade dos factos apontados pela Clonaid. Penso que foi uma estratégia de marketing muito bem montada, através da qual uma seita religiosa com cerca de 50 mil membros conseguiu fazer-se ouvir em todo o mundo.
É necessário ter presente que este tipo de investigação é feita em centros muito específicos, o que implica um investimento financeiro muito grande. Até agora as técnicas de clonagem têm sido aplicadas em mamíferos não humanos e os modelos animais demonstraram que há ainda alguma dificuldade em controlar o processo. Por outras palavras, o número de animais que se obtém por este processo é pequeno e os que temos actualmente não nos permitem ter uma avaliação a longo prazo dos acontecimentos. Por isso, defendo que é um absurdo e um erro grave pensar-se num processo científico que não é totalmente controlado. A ser verdade o que Clonaid diz, terá sido uma aventura de muito mau gosto.

O. – Como é que se pode explicar o facto de um grupo de cientistas ter alegadamente conseguido desenvolver uma técnica que a restante classe não domina?
Prof. C. M. – Se estes bebés existem de facto, isso só poderia ter sido conseguido através da aquisição de informação científica a outras companhias de biotecnologia. A Clonaid não teria num curto espaço de tempo a oportunidade de obter resultados científicos que a levassem a essa consecução. E apesar de não estar nada publicado, acredito que haja informação que possa ser vendível. Duvido, no entanto, que esta informação tenha já uma tal diferenciação que permita clonar seres humanos. De qualquer forma, e não obstante o facto de não concordar com a clonagem humana, quer do ponto de vista científico quer do ponto de vista ético, penso que a médio ou longo prazo a clonagem humana será uma realidade porque daqui a 50 anos a Ciência estará mais evoluída e a técnica terá aceitação social.

O. – O facto de não se divulgarem os dados científicos disponíveis traduz o receio dessa mesma informação poder ser mal utilizada?
Prof. C. M. – Não é por receio de ser mal aplicada mas tão somente por uma razão económica. As empresas investiram somas avultadas no desenvolvimento de informação científica, quer seja genética, quer seja sobre novas drogas ou técnicas. Esses dados são para serem vendidos e não oferecidos e por isso a comunidade científica não pode fazer uso deles. As empresas de biotecnologia não têm como objectivo publicar os resultados das suas investigações, colocando-os ao serviço da comunidade científica. Pretendem sim produzir dados que vão ser vendidos, o que limita muito o nosso conhecimento de tudo aquilo que existe.

O. – E no caso de clonagem de seres humanos, também se está a jogar com muitos interesses económicos porque muitos do que pretendem ter uma criança clonada estão dispostos a investir grandes quantias de dinheiro ....
Prof. C. M. – Certamente que sim. Esta questão leva-nos a outra que é o financiamento da investigação por parte dos institutos e das universidades, que é sempre contado aos ‘tostões’. Em contrapartida, a Clonaid diz que os casais que tentaram obter os seus serviços pagaram de antemão cerca de 200 mil euros para tentar ter um clone. Isto a multiplicar por 50 pessoas dá uma soma muito avultada que qualquer laboratório português gostaria de ter para trabalhar durante 10 ou 20 anos.

O. – Quais são os motivos que o fazem discordar da clonagem humana?
Prof. C. M. – Em primeiro lugar não concordo porque não são processos biológicos controlados, logo não há garantia de que um novo ser daí resultante não venha com anomalias genéticas.
Do ponto de vista ético, não vejo razão para avançarmos com indivíduos que não seja por reprodução sexuada. Se o único objectivo é obter um indivíduo igual a outro, isso não será conseguido porque há outro DNA, conhecido por DNA mitocondrial, que nunca será da pessoa que dá origem à outra. Para além disso, as experiências vividas pelo novo indivíduo nunca serão iguais às do ser clonado. Por conseguinte, é uma tolice completa considerar-se que uma pessoa resultante de uma clonagem reprodutiva será alguma vez igual ao indivíduo que lhe deu origem.
Numa outra vertente, em termos de biodiversidade é importante que numa sociedade haja pessoas o mais diferentes possível. Assim, não faz sentido pensar em clonagem humana quando há possibilidade de ter indivíduos por reprodução sexuada. Mesmo para casais inférteis, a solução não é a clonagem mas sim a reprodução medicamente assistida. Mas ao contrário do que se possa pensar, não são os casais inférteis que mais recorrem à clonagem reprodutiva. São antes pessoas que perderam um ente querido, em especial um filho. Penso que estes indivíduos necessitam mais de um apoio psiquiátrico do que recorrer a uma técnica que implica o dispêndio de somas tão avultadas.

O. – Quando se fala em técnicas de reprodução medicamente assistida, existência de embriões excedentários e clonagem reprodutiva refere-se habitualmente a necessidade de haver legislação que regule a prática dos cientistas. Contudo, temos assistido a diversas situações que nos fazem crer que não é a existência de leis que impede certas pessoas de avançar com algumas experiências...
Prof. C. M. – É verdade. Por isso sou a favor de regulamentações não muito rígidas e de uma grande interacção entre o legislador e as pessoas que trabalham na área científica por forma a se chegar a consensos. Colocar restrições muito rígidas não levam a nada até porque as barreiras geográficas estão muito esbatidas.
Também concordo com a criação de comités reguladores da investigação para alguns temas mais polémicos. Aqueles organismos devem discutir a eventual aceitabilidade das várias propostas de investigação, avaliando a possibilidade de obter os mesmos resultados com outras técnicas ou não.


Medicina regenerativa

O. – Quando se fala em clonagem pensa-se geralmente na forma reprodutiva. Todavia, a clonagem terapêutica tem outra aceitação junto da comunidade científica e assume-se cada vez mais como a solução para o tratamento de muitas patologias...
Prof. C. M. – Actualmente temos duas possibilidades: ou retiramos do nosso organismo (da medula óssea, por exemplo) algumas células que têm o potencial de serem colocadas noutro tecido e fazerem o trabalho desse mesmo tecido; ou recorremos às stem cells embrionárias. No primeiro caso não há conhecimento científico de que aquelas células tenham este potencial completo. No segundo caso, como estão num estadio muito primitivo, pensa-se que as células embrionárias poderão adaptar-se a um determinado tecido e fazer o seu trabalho. Esta é a verdadeira Medicina regenerativa. A meu ver deve haver investigação nos dois tipos de células: nas do adulto e nas do embrião excedentário. Só que aqui entramos em colisão com alguma filosofia e religiosidade relativamente ao embrião que não permite considerar estas células como utilizáveis para a investigação. Neste momento estamos a discutir estas questões em Portugal, com o recente lançamento do Livro Branco sobre a utilização dos embriões excedentários para fins de investigação.

O. – Na Alemanha e na Inglaterra já foi aprovada a utilização de embriões excedentários para este tipo de pesquisas...
Prof. C. M. – Sim e tenho conhecimento de que já foi autorizada na Alemanha a primeira investigação centrada em Munique, recorrendo a células embrionárias, de modo a encontrar a forma das células estaminais fazerem o trabalho de diversos tecidos. Mas até termos essa potencial capacidade terapêutica deverão decorrer pelo menos cinco ou 10 anos. Não obstante esse facto, já há muita investigação a ser feita por empresas de biotecnologia porque se sabe que vai ser um produto vendível a elevado preço.

O. – Esta é a via mais aceitável da clonagem?
Prof. C. M. – A Medicina regenerativa vai ser uma realidade nos próximos anos e o futuro da clonagem é muito mais este, devido ao seu grande potencial para bem da humanidade. Os grandes laboratórios não estão a trabalhar na clonagem para fins reprodutivos mas sim terapêuticos.

O. – Quando se fala em stem cells estamos a referir-nos a células embrionárias com quanto tempo?
Prof. C. M. – No máximo uma semana. Do ponto de vista científico, as células com uma semana ou menos têm uma maior capacidade de funcionar bem para estes propósitos.


Terapêutica personalizada

O. – A investigação efectuada tem formulado outras hipóteses de aplicação das células embrionárias?
Prof. C. M. – Na utilização das células estaminais poderemos ter uma informação muito precisa sobre os genes que trabalham numa fase muito precoce do nosso desenvolvimento, de modo a perceber algumas doenças genéticas. Se percebermos melhor isso, também podemos intervir melhor no desenho de terapêuticas.
Por outro lado, está a ponderar-se a hipótese de verificar se nestas células determinados fármacos são ou não nocivos.

O. – Consegue explicar o porquê desta extensão à área farmacológica?
Prof. C. M. – Com o que sabemos sobre o genoma humano, verificámos que determinadas pessoas reagem de forma diferente aos medicamentos. Uma pessoa pode tomar um fármaco que não lhe faz nada, a outra pode fazer muito e um terceiro indivíduo pode necessitar de doses diferentes.
Cada vez mais se conhecem as variações genéticas que estão associadas à sensibilidade à utilização dos fármacos. Penso que muitas pessoas terão que fazer pequenas análises para se conhecer as suas variações genéticas específicas antes de tomarem um determinado medicamento. Isso permitirá adequar as doses a cada indivíduo, a chamada terapêutica personalizada.

O. – O que está a ser feito neste momento?
Prof. C. M. – A ideia está ainda a ser desenvolvida mas já estão a ser efectuadas pesquisas ao nível das variações do genoma humano. De qualquer forma, ainda não há aplicabilidade directa da informação disponível.

O. – Mas para se adequar o tratamento, o médico ou outro técnico de saúde terá que ter acesso a informação genética muito pormenorizada. Não se coloca aqui a questão da confidencialidade dos dados?
Prof. C. M. – A informação genética deve ser confidencial e neste caso deve restringir-se à utilização de um medicamento específico. Acredito que a nível hospitalar, nos centros de saúde ou mesmo na farmácia comunitária vai ser possível fazer pequenos testes que irão estar disponíveis de uma forma muito simples. Uma gota de sangue, um raspado da mucosa bucal poderão permitir aplicar testes muito simples que permitirão conhecer imediatamente qual é a dosagem que aquela pessoa deverá tomar daquele medicamento.

O. – Estes testes poderão ser aplicados a todos os fármacos ou só a alguns?
Prof. C. M. – Estimo que serão aplicados só aos medicamentos sobre os quais sabemos que as pessoas têm uma diferente sensibilidade. Acredito que serão muito mais dirigidos para as doenças comuns da nossa sociedade como é o caso da diabetes, patologias cardiovasculares, cancro e doenças do foro psiquiátrico.

O. – Para quando se poderá ter resultados práticos nesta área?
Prof. C. M. – Esta não é uma medicina de 2003. Poderá ser mais rápida do que possamos imaginar mas não é de utilização imediata. Por isso mesmo as faculdades na área da biomedicina (Farmácia, Biologia, Medicina, Medicina Dentária e Medicina Veterinária) devem apostar muito nos conhecimentos modernos da genética porque os profissionais vão necessitar desta informação. A genética veio revolucionar muito o modo como as pessoas olham para a sua própria saúde e para a saúde dos outros.


Luísa Neves

*«Oxigénio» nº 35 – Abril/Junho de 2003



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