No dia 7 de Novembro tivemos uma aula muito especial. Vieram à nossa escola
dois senhores, o senhor Alexandre Assalino e o senhor Paulo Figueiredo,
modelistas de navios, falar-nos sobre a sua actividade.
Tínhamos preparado um guião de entrevista para não nos esquecermos do que
queríamos perguntar. Os senhores responderam a todas as nossas questões.
Ficámos a saber coisas muito interessantes para o nosso tema do projecto
"Invenções e Descobertas Portuguesas" que é "A Caravela".
Esta aula despertou o nosso interesse pelo modelismo e ficámos com vontade
de experimentar esta actividade. Prometemos ao senhor Assalino que da
próxima vez que viesse à nossa escola, já tínhamos alguns navios construídos
por nós.
Gostámos muito de apreciar os modelos de navios que os senhores trouxeram
para nós vermos. Eram maravilhosos: caravelas, traineiras antigas, etc. Até
apetecia brincar com eles. Também tivemos oportunidade de apreciar um
barquinho ainda em construção, algumas das ferramentas que se utilizam em
modelismo, bem como os planos para a construção.
Queríamos que estes momentos se repetissem mais vezes e agradecemos muitos a
estes senhores que vieram à nossa sala de aula ensinar-nos coisas tão
interessantes.
Entrevista:
Como se chama?
L.P. - Eu chamo-me Luís Paulo.
A.A. - Eu chamo-me Alexandre Assalino.
Qual é a sua profissão?
L.P. - Sou professor de matemática.
A.A. - Sou reformado.
Como se começou a interessar por esta actividade?
L.P. - Muito tarde, já era crescido, talvez mais de 20 anos.
A.A. - Desde pequenino. Tinha cerca de 10 anos quando fiz os meus primeiros
barquinhos em madeira.
Onde aprendeu a fazer estes trabalhos tão interessantes?
L.P. - Eu aprendi sozinho. Fui fazendo e aprendendo. Hoje quem quiser
aprender tem muita facilidade: há revistas dedicadas só a este tipo de
trabalho, na Internet também já existe muita informação sobre este
assunto...
A.A. - No meu tempo não se ensinava nada destas coisas na escola. Quem
queria aprender tinha que praticar sozinho em casa, ou pedir a qualquer
mestre carpinteiro que ajudasse. Não havia as facilidades que há hoje, nem
televisão nem nada.
Como se constrói um modelo?
A.A. - Depende do que a pessoa quiser fazer. Se for um barquito vulgar
agarra-se num bocado de madeira e vai-se talhando em volta até dar a forma.
Se quiser fazer algo que seja parecido com um barco a sério, feito à escala,
já dá mais trabalho porque tem que se fazer aquilo que os estaleiros fazem.
Tem que ter os planos do barco... Fazem-se as "cavernas" que é o esqueleto,
e depois no fim é todo forrado com tabuinhas por fora.
L.P. - Há muitos tipos de modelo. Se vocês quiserem fazer um barco sabem o
que é a casca de pinheiro? Quando eu era pequenito fazia barcos de casca de
pinheiro. Pega-se num bocado grande de casca, alisa-se contra uma pedra até
dar a forma do barco e fica um modelo só de uma peça. Qualquer um de vocês é
capaz de fazer isso. Depois há barcos que se compram já às peças, vêm barras
de madeira que nós temos que aparar e cortar à medida, dar a forma, colar,
montar... É o caso desta caravela que eu construí. Por fim há estes como o
Sr. Assalino faz, que são os mais valiosos de todos, pois são feitos como é
na realidade, só que em miniatura. Faz cada peça segundo os planos do barco.
Onde vai buscar as ideias para o que pretende construir?
A.A. - Normalmente tenho que ir buscar os modelos fornecidos pelo Museu da
Marinha de Lisboa que tem os planos para construir barcos. É o caso desta
caravela mais pequena. Está à escala de 1 para 100. São cópias exactas dos
barcos utilizados nos descobrimentos há 500 anos.
L.P. - Esta caravela é do séc. XV, mil quatrocentos e tal.
Como consegue Ter tanta paciência?
A.A. - Sem paciência não se faz nada. É preciso trabalhar, persistir, ter
gosto pelo trabalho, perder horas a fazer as coisas... Se se cria gosto pelo
trabalho se aprende a fazer, se sabe fazer, automaticamente vem a paciência
para levar as tarefas até ao fim.
Quantos modelos já construiu?
A.A. - Talvez trinta e tal, quarenta e tal. Não sei ao certo.
Quanto tempo leva a construir cada barquinho?
A.A. - Isso é conforme o modelo. Há modelos mais simples, mais fáceis de
fazer, que levam por exemplo um mês e há outros que levam quatro, cinco,
seis, sete (meses), conforme...
Todos os dias trabalho. Esta traineirinha demorou cerca de cinco meses a
fazer com oito horas de trabalho diário.
L.P. - Esta caravela levou quatro anos a fazer. Mas foi só durante as
férias.
Qual foi o que gostou mais de fazer?
A.A. - Quando uma pessoa começa a fazer um barco apaixona-se sempre pelo que
está a fazer. Não posso dizer concretamente de qual gostei mais. Pode haver
preferências em termos do formato do desenho de cada um, mas gostar de fazer
gostei de todos.
Que tipo de ferramentas e materiais, são necessários?
A.A. - Eu trouxe só para vos dar uma ideia o tipo de ferramentas que são
necessárias: uma serrinha, uma plaina com lâminas de barbear para por a
madeira lisa, estes grampos para fixar as peças que estão a secar, um
martelo pequeno, as pinças para puxar as linhas, umas limas pequeninas, uma
régua para medir em superfícies curvas, um furador manual, lâminas muito
afiadas para cortar, um torno em miniatura para fixar as peças pequeninas
quando estão a ser trabalhadas.
E depois disto tudo as mãos: a principal ferramenta são os dedos.
São difíceis de encontrar?
A.A. - Não é difícil. Compram-se em lojas da especialidade
São caros?
A.A. - Não é preciso comprar ferramentas caras.
L.P. - Se se comprar um "Kit" já feito pode ser bastante caro, mas se for o
próprio a construir já fica muito mais barato. Depende.
Os modelos, depois de prontos podem flutuar?
A.A. - Poder podem se forem feitos de propósito para isso . Como nos barcos
a sério, o casco terá que ser pintado, protegido, calafetado, para não
deixar entrar a água
Já construiu alguma caravela?
A.A. - Já. O primeiro modelo que construi como deve ser foi aquela caravela.
Com cavernas, pelo processo seguido pela construção naval. Pode-se ver o
interior do casco pela abertura Que deixei para esse efeito.
Que tipo de informação nos pode dar sobre a caravela portuguesa?
A.A. - Os barcos que antecederam as caravelas eram os utilizados no
comércio. Eram muito pesados porque tinham que levar mercadorias. Para
poderem viajar para mais longe, os construtores portugueses tiveram que
aligeirar as formas, tornar o barco mais leve e fácil de manobrar. A
caravela portuguesa tinha velas latinas para aproveitar melhor os ventos de
frente. Mas também havia caravelas de vela redonda que aproveitava melhor o
vento de trás. Ás vezes a meio da viagem tinham que modificar a forma das
velas e dos mastros. Consoante o tipo de dificuldades que encontravam tinham
que resolver o problema recorrendo à ciência e à técnica disponível em cada
momento e em cima do acontecimento. Assim, pela prática, foram desenvolvendo
as embarcações e a arte de navegar
L.P. - São barcos são séc. XV. , foram construídos para navegar no alto mar.
É bom que saibam que era muito difícil navegar numa caravela em alto mar.
Por exemplo, sabem onde é que os marinheiros dormiam? Era ao ar livre, no
convés. Só havia duas pessoas que iam dentro que era o capitão e o piloto,
porque no interior tinham que levar tudo o que era necessário para a viagem
e não havia espaço para as pessoas. Tinham que levar a comida, a água e
todos os materiais para a manutenção do navio: cordas, pano para as velas se
se rasgassem,... Não sabiam o que iam encontrar pelo caminho, por isso
tinham que levar tudo aquilo de que pudessem necessitar ou talvez não
conseguissem voltar nunca mais.
Agora imaginem: à noite, com temporal, chuva, as ondas a passarem por cima
do barco... era muito duro e complicado.
Acha que os portugueses contribuíram para o desenvolvimento da navegação?
Porquê?
L.P. -Muito. Porque tiveram que inventar ou adaptar tudo aquilo de que
necessitavam: embarcações, instrumentos de navegação, ... Tiveram que fazer
muitos cálculos matemáticos para se poderem orientar no mar. Imaginem-se no
meio do oceano, sem verem mais nada a não ser céu e mar, não há rádios, não
se sabe exactamente onde se está, a força do vento que faz andar o barco
pode parar de um momento para o outro... Os portugueses tiveram que aprender
a orientar-se pelas estrelas, pelo Sol e a calcular a sua posição porque
foram os primeiros a navegar sem terra à vista. Também não existiam mapas,
eles é que os iam desenhando.
Conhece outras pessoas que tenham esta actividade?
A.A. - Não me lembro de nenhum...
L.P. - Há alguns, embora o que haja mais é daqueles que constróem kites em
plástico.
Considera que a construção destas miniaturas é uma actividade educativa?
Porquê?
A.A. - Sim. Quem se dedica a esta actividade é obrigado a estudar, tanto no
aspecto técnico como até histórico. A pessoa enriquece-se sempre. Às vezes
tenho que investigar a história do barco que estou a construir, falar com
pessoas, recolher fotografias... Não é só olhar para os planos e fazer.
Acha que os jovens se deveriam interessar pelo modelismo?
L.P. - Os jovens devem experimentar. Nem toda a gente vai gostar do
modelismo, mas se não tentar nunca vai saber...
A.A. - Também podem fazer outros tipos de modelo: de aviões, de casas, ...
Que conselhos nos daria se pretendêssemos começar a aprender?
A.A. - Já experimentaram pegar numa noz, abri-la ao meio e fazer com ela o
casco de um barquinho? O meu primeiro barquinho foi feito assim.
L.P. - Peguem numa casca de pinheiro e a partir dela fazem um primeiro
navio. Se gostarem, compram um kit de plástico simples e começam a
construir.
Muito obrigado pela vossa disponibilidade e paciência.
A.A. - Eu é que estou muito grato por ter esta oportunidade de falar
convosco.
Gostava de saber, um dia mais tarde, que foram capazes de construir os
vossos próprios modelos.