Artigo de Imprensa


"Ciência Viva" para aspirantes a investigadores
Artigo do DN por FILOMENA NAVES

Novembro de 2001


O Pedro, de Torres Vedras, nasceu com uma doença, a psoríase, e dar o seu testemunho pessoal, ainda que com nome fictício, foi o seu contributo mais visível para o projecto Ciência Viva em que participou na escola. A Ana é de Évora e não está muito virada para a ciência. Mas adora escrever e sabe que toda a gente gosta de uma boa história. Por isso deu a ideia de se inventar uma para falar da genética da surdez. O Rodolfo viveu com prazer as horas de trabalho extra-curriculares que o levaram ao contacto com os cientistas no laboratório.
Descobriu um mundo que, afinal, não era tão formalnem distante como supunha e conseguiu até falar, via e-mail, com uma investigadora britânica a trabalhar em Glasgow, em terapia génica. Foi à Internet, descobriu o endereço electrónico e tentou a sorte. O mais engraçado é que a investigadora respondeu.

Para o Pedro, a Ana e o Rodolfo, todos alunos do secundário de diferentes escolas do país, participar no projecto Ciência Viva "Genoma Humano e Perspectivas para a Saúde Pública" se não lhes mudou radicalmente a vida deixou pelo menos sementes importantes e foi uma experiência enriquecedora e inesquecível. Foi isso mesmo que ontem testemunharam numa sessão de apresentação e debate sobre esse projecto no Pavilhão do Conhecimento, no âmbito da Semana da Ciência e da Tecnologia, a decorrer até domingo.

A Ana, por exemplo, sabe que o seu caminho não é a ciência. Mas aprendeu qualquer coisa e, sobretudo, teve uma oportunidade pouco habitual de aplicar o seu gosto pela ficção. O Pedro, se sonhava vagamente trabalhar um dia num laboratório, reforçou a ideia e, acima de tudo, percebeu que não é impossível. Quer ser investigador em farmacologia e espera que haja emprego para ele. O Rodolfo confirmou apenas um desejo que já existia claramente dentro de si. "Participar no projecto foi, sobretudo, uma oportunidade que não podia deixar escapar", disse, perante uma plateia cheia de jovens como ele.

Isabel Paiva, uma das professoras que estiveram envolvidas no projecto, sintetizou de forma exemplar os ganhos que este tipo de trabalhos traz a todos. "Torna a ciência mais simples", disse, explicando que "o contacto dos jovens com os investigadores nas suas intituições de trabalho, motiva os alunos e desfaz tabus sobre o mundo da investigação".

Para Jorge Sequeiros, investigador em genética humana, "receber estes jovens, além de abrir janelas nas nossas redomas, mostra-nos as nossas próprias deficiências". E explica: "Para falar de ciência a quem não está muito familiarizado com ela é preciso saber muito."

No final, o especialista em genética forense Francisco Corte-Real fez exactamente isso: explicou de forma cristalina, algo que é bem complexo.