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Genoma Humano 2002 - Escola Secundária de Reynaldo dos Santos
 
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Genoma Humano 2002

Conto - Loucogenes
Escola Secundária de Reynaldo dos Santos

De entre 2325 candidatos restavam apenas três. Nada de muito surpreendente se pensarmos que uma das provas era extrair um pêlo a um camelo, analisar o sem DNA e proceder à sua sequenciação, não fosse o prémio final uma bolsa de estudo na Arábia Saudita, durante vinte dias. Mas não é tudo. A par de tudo isto contabilizaram-se as desistências dos mais sensíveis, a procura de um fio de cabelo num salão de cabeleireiro, que se julgava ser de uma criminosa desaparecida há cerca de vinte e um anos, as inúmeras visitas a estabelecimentos prisionais e algumas sessões menos próprias, como autópsias matinais, já não referindo a vasta panóplia de tantas outras peripécias.
O trio vencedor estava apurado. Constituído por dois rapazes e pela única rapariga que conseguira resistir. Sabia-se apenas que as siglas com se que tratavam eram, respectivamente, BP, BF e TR, uma vez que não queriam revelar a sua identidade, receando a popularidade vindoura.
De facto, os meios de comunicação andavam ávidos por desvendar o mistério das siglas enigmáticas, como se fazia manchete em todos os jornais.
Há mais de dezassete anos que ninguém conseguia superar as árduas provas para, enfim, ingressar na área da genética forense. Todavia, este ano havia sido diferente. Tinham nascido verdadeiros heróis, génios científicos, mentes brilhantes.
Chegava, então, o dia de rumar até à Arábia. No entanto, em troca de uma avultada quantia, o trio maravilha, como se passaram a chamar, concedeu uma entrevista. Testavam o seu mais recente método de criação de perfis genéticos, quando foram entrevistados. Dessa entrevista, algo inglória, os jornalistas apenas foram informados de que o horário de descanso daqueles três era imutável, pelo que foram, forçosamente, obrigados a retirar-se do laboratório no momento em que BP, de forma arguta, os despachava a uma velocidade forense, digamos furiosa.
Passadas dez horas de viagem, eis que chegam à Arábia. Um mundo novo parecia sorvê-los por entre a pacatez de um lugar lúgubre perdido na imensa areia do quente deserto.
Foram, imediatamente, apresentados ao comandante das forças especiais do exército. Não havia tempo a perder, pois a vaga de crimes que se abatera naquele local estava a provocar o pânico geral. Essa era a missão do trio maravilha: desvendar a identidade do presumível autor de tais crimes.
A falta de condições daquele meio revelou-se na casa onde foram instalados. Tratava-se de um celeiro centenário, cujo soalho era um verdadeiro campo e golfe, de tantos buracos que tinha, as paredes, essas eram autênticas janelas com vista panorâmica sobre o deserto. A avaliar pelo alojamento não faltariam companheiros para animar os seus dias, pois sob o mesmo tecto viviam aracnídeos, morcegos, uma comunidade de toupeiras e tantos outros inquilinos. Os primeiros cinco dias pareciam uma eternidade. Nem sinais do tal criminoso. Segundo testemunhas, o criminoso assassinava as suas vítimas com uma moca, sem que nada lhes furtasse. A comunidade médica afirmava tratar-se de um amnésico, com uma anomalia no cromossoma 2. Para as atitudes de violência apenas um fundamento plausível: um criminoso faz uso da força em proveito próprio.
De repente, quando se preparavam para dar como terminado mais um dia de investigações falhadas, TR é surpreendida por uma ovelha, ou talvez uma mulher. Pensava estar a delirar devido ao calor e, por isso, chamou BF.
- BF corre! Não vais acreditar no que tenho diante os meus olhos.
Também BF ficara atónito com o que presenciava. Era uma mulher de estatura baixa. A cobrir-lhe o corpo a lã característica das ovelhas.
- Ouve, acabou de falar.
- Não, TR, acabou foi de balir.
- Como? É uma mulher...
- Não, não pode ser...uma mulher com voz de ovelha?!
A escuridão da noite não lhes permitia uma visão muito alongada dos factos, pelo que já só observavam a sua sombra por entre a plantação de cactos que rodeava o celeiro. Era tudo muito insólito, primeiro um criminoso de moca, agora uma mulher-ovelha. Mas, do que eles não se tinham apercebido é que BP acabava de ser agredido. Estava com uma sutura no crânio.
- BP, BP acorda.
- Talvez tenha caído num destes buracos.
- Não sejas criativa TR. Alguém entrou aqui e agrediu-o.
- Mas quem?
- Isso só vamos saber quando ele acordar, se é que vai acordar em breve.
Tinham já passado dez dias e BP continuava inconsciente. Repetia, incessantemente, a palavra Dolly. BF e TR não queriam acreditar nos episódios daquele “trailer” de acção. Tudo parecia ter estagnado à semelhança da consciência de BP. Nenhuns indícios de mulher-ovelha e criminoso de moca.
Ao fim de quinze dias, sem mais nada dizer senão Dolly, BP acorda.
- Acabei de ter um sonho terrível. Uma mulher mascarada de ovelha agredia-me com uma moca, sem que eu me pudesse defender.
- O quê? – exclamaram, em pânico, BF e TR.
- É isso que acabo de vos contar. Porquê?
- Nada. De certo sentes-te fraco, o melhor será ires descansar e amanhã sentir-te-ás melhor.
Isto dizia-lhe TR, enquanto pensava na correlação dos factos. BP descrevia, exactamente, a mulher que BF e TR tinham observado dias antes. Seriam meras coincidências? Certos eram os assaltos que grassavam sem que nada os detivesse.
BF preferia acreditar no sonho, na parte surreal de tudo aquilo. Mas TR começava a considerar a hipótese como certeza.
O regresso a Portugal estava marcado para a manhã seguinte.
Passavam poucos minutos do cair da noite, quando foram surpreendidos por uma mensagem em código. Trataram, logo, de a traduzir e formar a cadeia de acontecimentos que lhe estava subjacente. A mensagem dizia apenas: “AGA UGA”.
De súbito, a cena voltava a repetir-se. Lá ao longe avistaram a mulher-ovelha. Na expectativa que esta se aproximasse para que a pudessem capturar, BP e BF combinavam a melhor estratégia para a deter. Assim, sem hesitação, saltaram-lhe para cima no momento em que ela passava, sorrateiramente, por entre os cactos.
No meio de todo aquele alvoroço, é TR quem consegue impor alguma ordem. Entre “méés”, gritos e lã, BP aplica-lhe o fulminante golpe final. A mulher-ovelha cai, finalmente, prostrada no chão.
BF estava tão pálido que caiu também. Para além de um, agora eram também dois, pois TR desmaiara logo em seguida. BP estava diante da cena mais fenomenal que alguma vez havia visto. Deambulando por entre os três, apercebe-se que a mulher-ovelha tenta fugir e, sem qualquer hesitação, aplica-lhe outro golpe, deixando-a de vez inconsciente. Inconscientes estavam também BF e TR, que por mais que BP os tentasse acordar, a nada reagiam. Embora a prestação de primeiros socorros de BP não fosse das melhores, a ideia de usar cactos para os acordar parecia surtir alguns efeitos. É TR, quem acorda primeiro.
- Ai, pára de me picar.
- Ainda bem que voltaste à acção, porque apenas um actor em palco...
- Que aconteceu ao...
- Exacto!
- A...
- Nem mais!
BF acorda em seguida, vítima da epidemia de cactos com que BP o picava.
- Já estava na hora de mudares o cenário! – diz-lhe BP sorrindo.
- Estou, estamos...
BF, ainda combalido, desmaia de novo. Sem mais demora, BP e TR removem a mulher-ovelha para dentro do celeiro, deixando BF no alpendre. Lá estaria mais confortável e sem o odor da mulher-ovelha que lhe provocava aqueles enjoos.
- BP, o morcego por favor.
TR utilizava o morcego para extrair algum sangue à mulher-ovelha, pois à semelhança do alojamento assim era a escassez em utensílios de laboratório.
BP recolheu o sangue e um pêlo, do vasto manto de lã, e lá foi na motoreta até ao quartel do exército.
A expectativa era tanta que adormeceu enquanto aguardava os resultados. Eram congruentes com os registos de um pêlo encontrado numa das vítimas. O perfil genético era igual.
Toda a equipa do quartel estava atónita. Acabava-se o mistério dos crimes insólitos. Regressaram todos ao celeiro, onde estava TR, a mulher-ovelha e BF já curado dos enjoos.
Ao depararem com aquela figura ficaram extasiados.
- E a arma do crime, a moca?
A questão era geral. Segundo TR, a moca era o próprio focinho da mulher-ovelha que, pontiagudo, provocava a dor intensa de uma paulada, responsável pelo estado inconsciente das suas vítimas. Na grande maioria dos casos, a morte era o fim trágico.
Assim, o mistério foi desvendado e BP, BF e TR recompensados com uma grande cáfila, pelo esforço e dedicação prestados ao serviço da nação Árabe.
Hoje, sabe-se que este policial se tornara um êxito no ano de 2020. Aliás, reza a lenda eram os próprios investigadores forenses e médicos do Instituto de Medicina Legal que narravam esta história aos debutantes que queriam enveredar nestas áreas. Com efeito, Dolly era o fracasso no processo de cruzamento entre humanos e animais, do qual resultaria a mulher-ovelha, vítima de perturbações neuropsiquiátricas, devido ao excesso de “loucogenes” no seu organismo.

Autores (ALUNOS DO 11º A – 2001/2002):
BRUNO SANTOS PEREIRA
BRUNO MIGUEL DUARTE FERREIRA
TERESA MARIA FERREIRA RIBEIRO



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