Conto - O meu nome é Miguel Oom...
Escola Secundária Almeida Garrett
Maio de 2020,
Estou deitado na cama, são quatro da manhã e ainda estou acordado. Está completamente escuro, como eu gosto. Tirando os berros vindos de uma discussão entre duas putas ao fundo da rua, paira no ar um silêncio invulgar nesta cidade. Será por causa disso que não consigo adormecer? Não, eu sei que não. A razão da minha insónia não é assim tão simples, tomara eu que fosse. Tenho ainda muito presente tudo o que me aconteceu, algo que nunca pensei que pudesse acontecer, e muito menos a mim.
Levanto-me, vou para a sala, acendo a luz, sento-me e começo a escrever num caderno que estava em cima da mesa. Sempre me senti melhor depois de escrever, como se ficasse mais leve, como se todos os meus medos se libertassem. Tenho a vida toda escarafunchada em cadernos, diários, guardanapos e até pedaços de cartão. Nunca descobri porquê, mas fico mais aliviado ao contar a minha história, torná-la um documento como estou a fazer agora:
O meu nome é Miguel Oom e sou inspector da Policia Judiciária na cidade do Porto. Uma cidade que, após a Revolução Robótica em 2009, evoluiu de uma forma assustadora. A sua economia teve um grande crescimento e, infelizmente, também a criminalidade.
Eu e o meu colega tínhamos acabado de capturar um serial killer, um simples funcionário da câmara, gordo, baixo, careca, com olhos esbugalhados, um necrófilo portador de um sadismo quase inimaginável. Raptava mulheres entre os 30/50 anos, e, numa espécie de ritual satânico, torturava-as até à morte e violava-as depois de mortas. Das catorze vítimas descobertas, apenas três tinham sido identificadas até ao momento em que foi julgado, apenas metade do quintal havia sido escavado! Depois de o interrogarmos, foi mandado para a solitária, já que a pena de morte foi considerada um castigo primário, digno dos primitivos, e já que a evolução tecnológica permitiu uma maior segurança nas prisões.
Mal acabamos de inserir o relatório no computador, ouve-se um toque. Eu e o Tomás, meu colega e melhor amigo, já o conhecíamos muito bem. Tínhamos sido destacados pela central para um novo caso, provavelmente outro homicídio. Eram os nossos distintivos que tocavam e vibravam freneticamente, foi uma óptima invenção, mas às vezes dá vontade de os atirar contra uma parede. Olhei para o monitor do meu distintivo, era de facto um homicídio. Rua Henrique Galvão, nº 7, 11º esq., que coincidência, era a rua paralela à minha! Metemo-nos no carro e fomos logo para lá. Normalmente costumava ser eu a conduzir, mas naquele dia sentia-me maldisposto, o Tomás disse que era por falta de sexo, mas ele é casado, também não deve ter muito! Hehehehe!!
(...)