Conto - Veredicto de um constituinte
Escola secundária de Cascais
No passado ano 2019 assistimos à decadência mundial. De facto, ninguém ficou insensível perante a vaga de mortes que ocorreu em poucos meses. Foi o resultado desta guerra que dura há pelo menos quinze anos. Quando aqui cheguei pensava que ia recomeçar a vida com a minha família e com o meu filho de dezoito anos, cuja infância eu tinha perdido. Era a vida com que eu sonhara, mas rapidamente vi todas estas ilusões andarem para trás pois Osama Abdulah Ali tinha sido mais veloz que eu. Este seguidor de Osama Bin Laden preparava, há anos a arma biológica mais fatal, eficaz e mortífera de todos os tempos. O objectivo? A vingança contra o povo americano e todo o Ocidente que tanto sofrimento tinham infligido aos afegãos durante a III Guerra Mundial. Durante todos estes anos assisti a vários ensaios e estudos dos cientistas com um único fim: a derrota dos seus inimigos. Vivíamos nas montanhas Alamed, na Antárctida, escondidos de toda a civilização. Eramos apenas uns três mil entre sobreviventes afegãos, cientistas, eu próprio e mais alguns reféns (não sei para que nos retinham). Era impossível fugir daquele inferno, não por causa da segurança que nem sequer existia, mas porque não havia maneira de fugir. Tudo estava rodeado por rochas e gelo. Os únicos sítios aquecidos eram o Forte Bin Laden, onde vivíamos, e o avião dos mantimentos que chegava todos as semanas. Neste só entravam pessoas cujo DNA, extraído da raiz do cabelo, constasse da base de dados. A fuga era, portanto, impossível. Não havia nada a fazer.
A felicidade dos homens de Osama Abdulah Ali era testemunhada pelas suas alegres cantorias, enquanto passeavam pelos corredores do forte. ”Alah jericio dela manu fa american su tahan”, era impossível não decorar, pois não cantavam outra coisa. Tudo isto me afligia, pois esta euforia não vinha, com certeza, de uma coisa boa. Tinha alguma coisa a ver com a destruição dos Estados Unidos e de todo o Ocidente. Eles eram loucos e maquiavélicos. Saber que a desgraça estava próxima e que eu nada podia fazer entristecia-me. Talvez não voltasse a ver mais a minha mulher e o meu filho.
Certo dia, um dos reféns veio ter comigo e propôs-me um plano de fuga. No abastecimento seguinte fariamos explodir o forte, matando todos os terroristas, e escapariamos no avião.
Ao longo daquela semana preparámos o golpe. Entrámos, via Internet, na base de dados do avião e introduzimos a sequência do nosso genoma. Arranjámos, junto de um contrabandista, armas Laser para nos defendermos. Não me perguntem os detalhes técnicos, porque quem fez quase tudo foi o Juan. Era, de facto, um perito em computadores e tecnologia avançada. Era um autêntico taliban espanhol.
Nada podia falhar ou então seríamos “fritos” por Osama Abdulah Ali. Algo me dizia que iamos ter sucesso e que eu conseguiria voltar para a minha família. Tudo correu como esperado. Na semana a seguir o avião recebeu uma nova tripulação: nós. Era bastante mais avançado do que os que eu tinha visto havia alguns anos. Bastava escolher o destino e rapidamente estaríamos lá. Passada uma hora e meia chegámos a Boston. O Ocidente estava salvo (pensava eu...) e nós livres de perigo. Mal chegámos, Juan abasteceu o avião com uma célula de plasma e foi para as Caraíbas, como sempre sonhara. A sua adaptação à actualidade espantava-me, pois parecia que já tinha estado nestes sítios anteriormente.
Quanto a mim, fui notícia do “Virtual”, um jornal que não era de papel, e mais uma novidade para mim. Só se ouvia falar do jornalista raptado pelos talibans e desaparecido há 19 anos. Perguntavam-me como era possível estar vivo após tanto tempo e como havia sobrevivido à guerra. Expliquei tudo e revelei que os últimos talibãs haviam perecido na explosão do Forte Bin Laden.
A minha presença em casa, após tanto tempo, foi estranha para a minha família e para o meu filho que me julgava morto. Não foi fácil adaptar-me àquela casa nova,
totalmente diferente de como a deixei, às novas tecnologias, ao meu filho que eu não conhecia e, especialmente, à minha mulher que estava mais nova e um pouco diferente graças a duas plásticas.
Mas pouco tempo tive para pensar em coisas irrelevantes pois o verdadeiro problema tinha começado. A antecipação de Abdulah Ali deixou-me espantado. A “epidemia”, nome por que a arma biológica era conhecida, alastrava-se e cada vez mais pessoas morriam. A doença propagava-se através do contacto com a pele e os sintomas principais eram: falha de memória, rejeição da própria pele e cansaço. Devido à grande variabilidade do vírus utilizado para construir a arma poderiam ainda ocorrer sintomas imprevisíveis e diferentes de pessoa para pessoa. Não tinha ainda sido possível detectar o tempo de incubação do vírus e urgia fazer alguma coisa, pois o mundo estava virado de cabeça para baixo. Como num filme de terror, todos os dias morriam muitas pessoas e a população mundial estava dizimada.
Havia muito tempo que não aparecia um vírus com uma infecciosidade tão grande. Usualmente, mal era detectado um novo organismo, o seu genoma era introduzido numa base de dados mundial situada em Nova Iorque e automaticamente era sintetizado um antídoto ou uma vacina de prevenção. Com esta estirpe isto não aconteceu.
Um dia surgiu-me a lembrança, um pouco apagada, da letra da canção que os terroristas cantavam tão alegremente no forte: ”Alah jericio dela manu fa american su tahan”.Vim a descobrir que significava “A América e o Ocidente morrerão por causa dos seus constituintes”. Ninguém percebia o que isto queria dizer até que a bióloga, Michelle Kratzenberg, descobriu a resposta ao pôr o caso em discussão numa aula de Introdução ao Genoma Humano. Aí surgiu a ideia de que os constituintes de que a canção falava pudessem ser o DNA. Após vários testes, descobriu-se que o vírus substituía a Timina por uma base azotada, com o nome de Tiosina, que também se ligava à Adenina e que causava danos no corpo humano. Ao entrar nas células esta base provocava alterações irreversíveis no genoma. Michelle e os seus alunos pesquisaram e criaram o antídoto e a vacina contra vírus. A existência de uma cura para a doença fez com que a vida no Ocidente voltasse rapidamente ao normal. Apesar do grande choque mundial e da ruína total, os governos de todo o mundo investiram em propaganda para o aumento da natalidade, pois era necessário restabelecer o nível de população.
A população aumentou de novo e as vidas normalizaram-se, mas ainda há quem se lembre dos tempos da “epidemia” e há, com certeza, muita gente que teme sair de casa pois acredita-se que ainda haja portadores do vírus. Receio bem que tenham alguma razão e que eu seja uma das causas desse medo, pois ainda ficou bastante por explicar. Muitas coisas se apagaram da minha memória entretanto e muitas outras aconteceram. Juan apareceu com um nome falso no Virtual dizendo que o vírus era algo passageiro e que não tinha já muita importância. Penso muitas vezes se ”Alah Jericio dela manu fa american su tahan” não se referia a um constituinte ignorante que caiu numa armadilha e que acabou por trair o seu povo. Talvez até seja eu, mas não especulo mais porque estou cheio de comichões na pele e já bastante cansado. Assim me despeço, caros leitores do Virtual.
Autores: Joana Netto, Michelle Kratzenberg Nunes, Pedro Peixoto