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PERTURBAÇÕES DO SONO


O sono não dorme

Passamos cerca de 8 horas por dia, 56 horas por semana, 224 horas por mês e 2688 horas por ano a fazê-lo,...isso mesmo, pura e simplesmente a DORMIR...
Passamos então aproximadamente um terço das nossas vidas sem fazer aparentemente nada. Mas será que não fazemos mesmo nada enquanto dormirmos? Aparentemente, é assim. Com efeito, os nossos olhos estão fechados, os músculos relaxados, a respiração é regular, não reagimos à luz nem ao som. No entanto, se analisarmos o que se passa ao nível do nosso cérebro, a realidade é muito diferente, verificando-se que está bastante activo.


Precisamos de dormir?

O sono tem a função de reabilitar o corpo após um dia de esforço físico e psicológico. Assim, se formos privados do sono lento (sobretudo da fase 4) ficamos fisicamente cansados. Por outro lado, se formos privados do sono REM tornamo-nos ansiosos e irritáveis. Pensa-se que o sono, sobretudo o sono REM, é importante nos processos de aprendizagem e de memorização.


Alunos em diálogo com Teresa Paiva,
investigadora do Centro de Neurociências de Lisboa

Os resultados da investigação têm mostrado que o sono é necessário para o bom funcionamento do sistema nervoso. Quando não dormimos o tempo suficiente, ficamos sonolentos, incapazes de nos concentrarmos, temos problemas de memória, a capacidade física é afectada e temos menos capacidade de desenvolver cálculos matemáticos. Se a privação do sono continuar, podem surgir alucinações e instabilidade emocional. Alguns cientistas acreditam que o sono permite aos neurónios utilizados durante a vigília restabelecerem-se. Com a privação do sono, os neurónios ficam de tal maneira esgotados de energia ou poluídos pelos produtos resultantes da actividade celular, que podem começar a ter problemas de funcionamento. Pensa-se, também, que o sono permite ao cérebro exercitar ligações importantes neuronais que poderiam, de outro modo, deteriorar-se por falta de actividade.

O sono é indispensável à vida. Estudos efectuados em ratazanas revelaram que, quando privadas de sono, morriam passadas apenas 3 semanas.


E quando dormimos mal?

Pelo menos 40 milhões de americanos têm perturbações do sono, como doenças crónicas a longo prazo, em cada ano. Outros 20 milhões sofrem, ocasionalmente, de problemas com o sono. Estas perturbações e a privação de sono afectam-nos no trabalho, na condução automóvel e em actividades sociais. Médicos já descreveram mais de 80 perturbações do sono, a maior parte das quais pode ser tratada de forma eficaz quando diagnosticada correctamente. Entre as doenças mais comuns estão a insónia, a apneia do sono, a síndrome das "pernas inquietas" e a narcolepsia. A insónia é uma das alterações do sono mais frequentes. Afecta todos os grupos etários, embora seja mais comum nas pessoas que sofrem de stress ou ansiedade. O tratamento pode assumir duas vertentes: deve começar-se pela educação dos hábitos de descanso ou, eventualmente, por técnicas de relaxamento; nos casos mais graves podem usar-se fármacos indutores do sono.

Entre as doenças mais frequentemente encontradas pela Profª Teresa Paiva e a sua equipa estão a insónia, a apneia do sono, a roncopatia, a síndrome das "pernas inquietas" e a narcolepsia. Na visita ao laboratório tivemos oportunidade de visualizar gravações em vídeo referentes a algumas destas patologias. É curioso que doentes vão a uma consulta apenas para dormir. De facto é isso que se passa nas consultas ao laboratório do sono. Os doentes são instalados num quarto e filmados durante a noite por uma câmara de infravermelhos, ficando monitorizados com electroencefalograma, electromiograma (que regista a actividade muscular) e electro-oculogramas (que revelam os movimentos oculares).

A apneia do sono parece afectar entre 5 e 6% da população europeia e cerca de 18 milhões de mericanos. Caracteriza-se por um ressonar bastante sonoro, acompanhado de episódios de asfixia. É mais frequente nas pessoas obesas e de pescoço grosso.

A síndrome das "pernas irrequietas" faz com que o doente desperte com um "tremor" nos membros inferiores. Afecta aproximadamente 12 milhões de Americanos, as suas causas são desconhecidas e o tratamento farmacológico é complexo. Actualmente, estão a ser investigadas substâncias que controlam o tono muscular.

A narcolepsia é, felizmente, uma síndrome mais rara. Afecta cerca de 250 mil americanos, mas tem tratamento. Os doentes, apesar de terem dormido bem, adormecem enquanto estão a realizar qualquer actividade. Tem origem genética e o seu tratamento é sintomático. Consiste no uso de fármacos que mitiguem os sintomas e numa boa higiene do sono.


O que fazer para dormir melhor?

Hoje em dia dormimos menos uma hora e meia do que no início do século. De facto, a vida na sociedade dos nossos dias, a televisão, o consumo, o trabalho levam-nos a querer estar atentos 24 horas por dia, razão pela qual colocamos o sono em segundo plano, considerando-o verdadeiramente indesejável. Porém, o sono exige certos cuidados e regras, para que possamos ter aquilo a que se chama uma boa higiene do sono.

É imprescindível dormir as horas necessárias para que o nosso organismo funcione adequadamente. A quantidade de sono que cada pessoa necessita varia de acordo com numerosos factores, nomeadamente a idade. As crianças precisam de 16 horas por dia de sono, enquanto que os adolescentes já só necessitam de 9 horas, em média. Para a maior parte dos adultos a quantidade de sono necessária parece encontrar-se entre as 7 e as 8 horas de sono por dia. No entanto, algumas pessoas podem apenas precisar de 5 horas de sono diárias enquanto que outras poderão necessitar de 10.

É essencial criar um horário mais ou menos regular de sono. Assim, deitarmo-nos e levantarmo-nos sempre à mesma hora pode melhorar a nossa qualidade de sono. É igualmente importante não fumar, não beber e não comer demasiado antes de nos deitarmos. Seguir a mesma rotina todos os dias antes de deitar pode ajudar a que adormeçamos mais rapidamente e a que durmamos melhor.


O que a ciência pode fazer...

Até ao momento a ciência não fez mais do que abrir uma pequena janela sobre o complexo mundo das doenças do sono.

Os avanços de relevo da medicina e de disciplina médica só se iniciaram a partir da década de 50 com a descoberta da organização do sono em duas fases. Na década de 70 começaram as descrições clínicas importantes, designadamente da apneia do sono. A investigação do sono tem-se vindo a expandir e a atrair a atenção de mais cientistas. Os investigadores sabem agora que o sono é um processo activo e dinâmico que influencia grandemente o nosso período de vigília. Assim, tem-se apostado na pesquisa e investigação do sono para compreendermos totalmente o nosso cérebro.
Por exemplo, os estudos realizados nos laboratórios de sono, como o do Centro de Estudos Egas Moniz, que tivemos oportunidade de visitar, já permitem melhorar de forma radical a qualidade de vida de alguns doentes. É o caso daqueles que sofrem de apneia do sono, uma perturbação que se não for diagnosticada coloca os doentes em risco de vida. Com efeito, não são raros os casos ed indivíduos com esta patologia que, em consequência de uma higiene do sono deficiente, adormecem durante o dia nas mais variadas situações, nomeadamente, a conduzir o automóvel ou no trabalho. Depois de diagnosticados, no laboratório do sono, estes doentes podem actualmente fazer tratamentos, oxigénio nocturno, cirurgias. Na experiência de Teresa Paiva têm sido obtidas taxas de cura da ordem dos 80%.
Novas tecnologias, como a imagiologia cerebral, proporcionam aos cientistas a melhor compreensão de como as regiões cerebrais funcionam durante o sono e de como diferentes actividades e perturbações afectam o sono.

Através da compreensão dos diferentes factores que afectam o sono espera-se chegar a novas terapias revolucionárias de tratamento das perturbações do sono e ultrapassar os problemas associados com os diferentes fusos horários e trabalhos por turnos. Podemos, assim, esperar por estes e muitos outros benefícios resultantes da pesquisa, que nos permitirão compreender a fundo o sono e a sua importância nas nossas vidas.


Trabalho realizado pelo grupo da Escola Secundária José Gomes Ferreira
Apoio e revisão científica de Teresa Paiva, investigadora do Centro de Neurociências de Lisboa