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A malária: dos primórdios aos nossos dias


Todas as literaturas antigas, da Suméria, do Egipto, da Índia ou da China, nos falam de febres altas e oscilantes, associadas a lugares húmidos, sobretudo no Verão e no Outono, que chegavam a devastar aldeias inteiras. Deduz-se, assim, que a malária (também conhecida por paludismo) é muito antiga.

A malária requer um mosquito para a transmissão da doença/infecção e estes existem sobretudo nas regiões tropicais. Já houve malária em zonas temperadas, como a Europa, mas a mesma foi erradicada.

A propagação da doença para outros locais poderá estar relacionada com a evolução do Homem, nomeadamente com as trocas comerciais entre os países e com a criação de lagos e pântanos para as regas agrícolas. No primeiro caso efectuou-se o transporte dos mosquitos; no segundo, espalhou-se o hospedeiro e o agente infeccioso e criaram-se novos locais para a reprodução do vector.

Nos nossos dias, com a descoberta do parasita e do vector, têm-se feito estudos não só tendo em vista a cura e prevenção da malária por medicação ou candidatos a vacinas mas é importante também que exista um mínimo de infraestruturas de apoio aos programas de saúde e controlo da malária.


O ciclo de vida do parasita

A malária humana é uma doença causada por 4 espécies de parasitas, Plasmodium falciparum, Plasmodium vivax,, Plasmodium malariae e Plasmodium ovale, irregularmente distribuídos pelas regiões tropicais. Estes têm dois hospedeiros: o mosquito Anopheles (fêmea), que se alimenta de sangue e o Homem.

O Anopheles, durante a refeição de sangue humano, pode-se alimentar de gametocitos de plasmodio da circulação sanguínea do homem infectado. No estômago do mosquito, formam-se gametas e estes, por fertilização, produzem ovos ou zigotos, aqui denominados oocistos. Dentro destes desenvolvem-se parasitas denominados esporozoítos, eventualmente móveis e invasivos, que se deslocam para as glândulas salivares do mosquito. Ao alimentar-se novamente, o mosquito inoculará estes na corrente sanguínea do segundo hospedeiro (o homem). Estes esporozoitos procuram celulas hepáticas para iniciar o seu desenvolvimento.

Aqui multiplicar-se-ão e ao serem libertados na corrente sanguínea, invadem os glóbulos vermelhos. O parasita inicia mais uma fase de desenvolvimento e maturação, conduzindo à destruição dos glóbulos vermelhos. Esta é a fase dos sinais clínicos, quando o doente procura um médico e tratamento. É nesta fase também que se forma de novo gametocitos. Se, nesta fase, o homem for picado por um mosquito fêmea de anopheles, será infectado fechando-se assim o ciclo de vida do plasmodium.

Só a fêmea do mosquito Anopheles é vector da doença, uma vez que só ela necessita de uma refeição de sangue humano para que se dê a maturação dos seus ovos.


Os sintomas

Os sintomas da doença manifestam-se cerca de 1-2 semanas após o indivíduo ter sido infectado e caracterizam-se por:

Estes sintomas podem diferir vagamente conforme o agente infeccioso. Se a doença não for tratada, os calafrios e a febre podem prolongar-se até que as fases agudas sejam ultrapassadas. Se a infecção ocorrer em pessoas sem qualquer defesa imunitária, a malária poderá ser letal.

As pessoas cronicamente doentes com paludismo sofrem de anemia, dores de cabeça, dores musculares e mau estado geral.


Como tratar?

O remédio mais antigo é a casca da árvore da quina (chinchona) e a sua essência fundamental - o quinino, seus sais e derivados. É muito eficaz na malária terçã e quartã (assim designados por a febre alta surgir em dias alternados e de quatro em quatro dias, respectivamente), mas no caso da forma tropical existe o perigo de desencadear a febre hemoglobinária.

Hoje fabricam-se antipalúdicos sintéticos (ex. cloroquina, primaquina, entre outros) que não causam hipersensibilidade.

Há hoje falta de novos medicamentos e os plasmodios são muitas vezes resistentes à medicação utilizada. Dado o elevado custo de produção de novos medicamentos, a indústria não os tem produzido com qualidade.


Prevenção e precauções para os viajantes

Uma vez que a malária se distribui fortemente nas regiões tropicais, os viajantes devem, antes de partirem, informar-se acerca do risco de infecção com malária nas áreas de destino. Se residem em Portugal devem consultar um médico especialista em doenças tropicais, no Instituto de Higiene e Medicina Tropical (Consulta do Viajante), que lhe fornecerá indicações sobre quimioprofilaxia.

Devem, também, tomar medidas protectoras para reduzir o contacto com os mosquitos, especialmente entre o entardecer e o amanhecer, uma vez que é durante esse período que o mosquito se alimenta, havendo o perigo de contaminação com o Plasmodium.

Assim sendo, devem:


Uma Vacina anti-malária? Para quando?

O desenvolvimento de uma vacina contra a malária tem sido um dos grandes problemas com que os cientistas que investigam esta doença se têm deparado.

O problema tornou-se ainda maior após a descoberta da grande resistência que o Plasmodium falciparum oferece à cloroquina. Também já há índices que apontam para o aparecimento da mesma resistência por parte de um outro parasita da mesma família: o Plasmodium vivax. O Plasmodium malariae e o Plasmodium ovale são parasitas que causam menor sintomatologia.

Apesar disso, verificaram-se avanços significativos que poderão conduzir à descoberta de uma vacina. São disso exemplo os estudos do instituto de pesquisas Walter Reed, do exército norte-americano, que alcançara bons resultados com uma vacina experimental contra a malária. Foram injectadas três doses de vacina em sete voluntários antes da exposição ao mosquito Anopheles, onde se aloja o Plasmodium falciparum, causador da doença. Desses sete voluntários, apenas um ficou infectado com a malária depois da exposição.

A vacina sintética foi composta por uma proteína expressa pelos esporozoítos, ou células do parasita (cuja estrutura foi identificada, pela primeira vez, pelo casal Victor e Ruth Nussenzweig, há mais de dez anos), e por uma estrutura ligante que estimulou a imunidade do organismo (antigénios da superfície da hepatite B).

Segundo um porta-voz do laboratório inglês Smith Kline Beecham, "cientificamente, foi a primeira vez que uma vacina experimental, ainda com um alto potencial para ser aperfeiçoada, alcançou semelhante grau de protecção contra o parasita antes que este ingressasse nos glóbulos vermelhos do sangue".

Ainda a propósito da vacina, a cientista Ruth Nussenzweig, da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, afirmou: " Será importante determinar a eficácia do produto em pessoas que vivem em áreas onde a doença é endémica, onde os níveis de transmissão são altos e existem múltiplas cepas do parasita". Mais uma razão pela qual demorará ainda algum tempo até se poder falar de uma vacina que previna a malária.


Trabalho realizado pelo grupo da Escola Secundária Henriques Nogueira
Apoio e revisão científica de Virgílio do Rosário, investigador do Centro de Malária e Outras Doenças Tropicais