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Malária: o ciclo imparável
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Virgílio do Rosário
Um parasita, um mosquito e o Homem. A malária já não tem segredos, mas ainda é difícil de erradicar. Na
investigação desta doença trabalha, no Centro de Malária e Outras Doenças Tropicais do Instituto de Higiene e
Medicina Tropical, Virgílio do Rosário. Um homem licenciado em veterinária que, após o doutoramento, tem
percorrido o mundo por causa da doença. Nesta conversa, conta o que viu e sentiu em Moçambique, durante as
inundações.
Como é que se estuda a malária?
A malária, como qualquer outra doença, tem mais de uma dezena de campos para se trabalhar. Pode-se
trabalhar só com o parasita e, dentro do parasita, há características referentes ao seu genótipo, ou
genoma, à sua virulência, características que só dizem respeito aos Plasmodios. Se não se quiser estudar
o parasita mas sim o próprio doente, então a investigação tem a ver com a pessoa. Nesse caso pode-se estudar a
resposta imunitária ao agente, a infecção, a genética, e a patogenia. Há, ainda, outra possibilidade
que passa pelo estudo das pessoas em grupo, integradas nas regiões. Esta possibilidade liga-se,
normalmente, àquilo que se chama epidemologia da malária ou estudos de populações. Finalmente, o mais
importante não é muito estudado. Refiro-me ao agente dentro do hospedeiro definitivo (o mosquito vector).
Obviamente, o médico não olha para o mosquito, nem está directamente interessado nele, se for um clínico.
Já são estudos de entomologia, ou estudos do genótipo dos mosquitos.
Portanto, cada área pode ser focada de acordo com as diferentes fases do ciclo. Para se fazer investigação
em malária é preciso conhecer bem o ciclo e os seus parâmetros mais importantes que são: o mosquito vector;
o próprio agente e a pessoa infectada. Depois, dentro deles, estudam-se áreas distintas, mas todas elas
têm de estar relacionadas. Um investigador molecular só estuda as moléculas do Plasmodium. Nunca
viu uma criança que morre de malária, mas conhece uma série de moléculas muito importantes que poderão
ser transformadas numa futura vacina e, essa vacina, vai impedir que a criança morra. Quando o investigador
tiver essa molécula purificada terá de trabalhar com outras pessoas, no terreno. Nunca há investigação isolada.
Sabemos que esteve em Moçambique na altura das inundações. O que é que sentiu, como cientista e
pessoa, quando se deparou com a tragédia vivida pelos habitantes?
Nem sei como é que hei-de responder. Posso dar muitas respostas. Começo por dizer que não faz sentido
que os países não estejam preparados para as suas catástrofes. Quando há uma catástrofe, nos Açores e na
Madeira, as pessoas têm de estar preparadas para elas. Recordam-se que houve algumas e, ao que parece,
as pessoas também não estavam preparadas. Aliás, tanto quanto se sabe, até foram as causadores, pois
deitaram os lixos todos nas saídas de água, impedindo que as águas escorressem.
Claro que, em Moçambique, a tragédia foi excessiva. A quantidade de água acumulada era quase do tamanho
de Portugal.
Todos os países têm estruturas próprias para responder. Têm um exército que também pode ser utilizado
como serviço de bombeiros de apoio imediato. Mas, uma coisa é dizer "a catástrofe é tão grande que não
há nada a fazer" e outra é afirmar "a malária vai ser muito grave". A malária já é muito grave sem a
inundação; com a inundação, talvez as pessoas tomem em consideração que ela existe.
Em relação à catástrofe, era tão grandiosa que era muito difícil fazer-se qualquer coisa de imediato.
A movimentação das pessoas dos seus locais de residência implicou que todos os registos deixassem de
existir. Elas mudaram-se para outros locais, onde havia outros registos, e ficou tudo disperso. Se um
hospital tinha um registo de toda a população e sabia quantas crianças nasceram e foram vacinadas,
quantas malárias tiveram, quantas tuberculoses; depois das inundações não se sabe mais nada.
Quando se olha para uma situação destas, mesmo que se queira ajudar é um bocado difícil. Nenhuma ajuda
é feita na base da boa vontade e do bom coração. Isso ajuda mas não é nada. Tem tudo de ser feito na
base do dinheiro, das infra-estruturas, dos locais preparados para integrar as pessoas que vêm de fora,
para que o trabalho seja conjunto. E deve haver garantia de continuidade. Isso significa que o
funcionamento de todas as estruturas tem de ser muito bom, senão é dinheiro deitado fora e, quando os
que foram ajudar se vêm embora, fica tudo igual. As catástrofes têm de ser vistas com muito cuidado.
Ainda não respondeu totalmente à nossa questão. Não nos disse o que sentiu como pessoa?
A malária se existe, hoje, no ano 2000, é uma lástima porque toda a gente conhece o ciclo da doença.
Sabe-se qual é o agente e quem transmite. Se houver educação primária e básica, se as pessoas residirem
em casas protegidas contra os mosquitos, se não houver lixeiras com latinhas de água onde o mosquito
possa procriar, se tudo isto actuar, ou seja, educação e unidades básicas de saúde, a malária
reduzir-se-á. Portanto, se ainda existe, significa que toda a gente tem um bocadinho de culpa por
todo o processo. Aliás, digo-vos que quando entrei na vossa escola pela primeira vez, fiquei pasmado
com o graffiti das paredes ("animais não são para experiências"). Fiquei mais chocado do que
com as inundações em Moçambique. Tenho de confessar que, em África ou no Brasil, estou à espera de
ver inundações. Um graffiti, aqui, não estava à espera.
Se tivesse de explicar a malária a um moçambicano que não soubesse o que era essa doença (a um
moçambicano ou a outra pessoa que não soubesse) como faria?
Um moçambicano até sabe o que é a malária. Está em contacto com ela. Sabe que é o mosquito que a
transmite. Todas as áreas de educação, na televisão e nas escolas, ensinam às pessoas o que é a malária
e como é que ela se transmite.
Quando eles têm febre associam à malária, não associam à insolação. Portanto, as pessoas estão bastante
condicionadas a associar febres, dores de cabeça e mosquitos à malária. Elas sabem e não é preciso dizer
muito mais. Depois, vão normalmente ao posto de saúde tirar uma gota de sangue para fazer um exame. Nesse
aspecto, acho que as pessoas dos países em desenvolvimento sabem perfeitamente o que é a doença.
Como é que os doentes reagiam quando sabiam que tinham malária? Ficavam assustados?
De forma alguma. A população africana está muito habituada à possibilidade de morrer. Não é como
a nossa. Eles sabem que, dos filhos que têm, alguns vão morrer. Em África as pessoas sabem disso. E têm
outra coisa que eu nunca percebi muito bem: uma enorme fé em Deus. Sabem que quando morrem é porque
Deus assim o quis e não regateiam. Se alguém morreu foi Deus que quis.
Outra curiosidade: eu nunca vi pânico antes do diagnóstico ou durante o tratamento. Vi dor pela morte,
mas isso vê-se em qualquer lado, mas não vi pânico.
Em relação à Sida é capaz de ser pior, porque na malária a probabilidade de se detectar a doença e de
se a poder tratar é muito grande. Na Sida já se sabe que o prognóstico é muito reservado, portanto ...
mas eu nunca trabalhei com doentes com Sida. Com a malária não: as pessoas vão, fazem filas enormes e
ficam, horas a fio, à espera que se faça a leitura. É um diagnostico feito a partir de lâminas com
amostras de sangue. Depois, recebem a resposta num papelinho, vão à farmácia onde lhes dão o medicamento
e vão para casa tomá-lo.
Qual é a ligação entre as cheias e a propagação da malária ?
É um bocado difícil de responder. É óbvio que as cheias vão descer e criar poças de água onde o
mosquito vai procriar, mas não exageremos esse factor. Se forem para uma zona em África, onde há
montes de latas de lixo com água dentro, cada uma delas é um perigo, é uma fonte onde o mosquito vai
manter a infecção.
O problema da malária já existe, há todos os anos e continuará a haver, porque até agora não tem
havido um sistema que, de facto, interrompa o ciclo da doença.
Durante as inundações, que indicações deram à população?
Em primeiro lugar, a informação. Em segundo, tentou-se de todas as formas, evitar o contacto dos
mosquitos com a população. Isso também tem a ver com a educação, porque se tiverem redes nas camas e
protegerem as crianças e os adultos à noite, que é quando é habitual os mosquitos entrarem nas casas
para atacarem as pessoas, corta-se o ciclo. A educação também lhes diz que há outros processos: a
limpeza, a higiene, as águas tapadas para não haver criadores artificiais. Ou seja, tentar minimizar
o uso dos medicamentos. Porque a ideia de que o medicamento é eficaz, é muito boa; mas o medicamento
custa dinheiro e mal usado, usado excessivamente ou por muito tempo, selecciona parasitas que se lhe
tornam resistentes.
O que é necessário é conhecer os hábitos dos mosquitos da região, ter uma ideia dos parasitas que
existem e tentar ver se, na acomodação do dia-a-dia, o contacto das pessoas da aldeia com os mosquitos
infectados é reduzido ao mínimo.
Só uma parte da população é que mostra dores de cabeça e febre. Há pessoas que têm maior ou menor
sensibilidade. Há sempre pessoas com o parasita que não apresentam sintomas.
É como quando vocês dizem: " Mas tu estás com gripe e eu não estou? Porquê?" Há uns mais sensíveis
e outros menos sensíveis e, se calhar, se eu fizer lâminas de sangue para um grupo de uma região com
malária, encontro uns 10-20% que têm Plasmodium, mas por algum motivo não se consideram doentes.
O problema é que estes não vão ao médico, não precisam de microscopia porque não sentem nada mas são um
reservatório de parasitas. Portanto se vocês quiserem cortar o ciclo, também têm de destruir o reservatório
de parasitas que está numa pessoa que não mostra sinais clínicos. O problema não é tão fácil de resolver.
Tudo isso custa dinheiro. Significa transporte, coloração, lâminas, picadas e tratamento. É um processo
muito dispendioso.
Não se esqueçam que Portugal teve malária até aos anos 50, sabem disso, não sabem? Agora pergunto-vos
eu: Sabem porque é que já não há malária em Portugal? As pessoas doentes morreram? Os plasmódios já lá
não existem?
A malária que existiu em Portugal não tinha nada a haver com a malária trazida pelas pessoas das
colónias em África. Era originária de regiões locais em Portugal. A Itália e a Grécia tinham malária assim
como Portugal e Turquia (este ainda tem focos de Plasmodium Vivax).
Essa malária era diferente da do emigrante, do turista que vem de fora, cheio de febre. O turista
também tem malária mas não transmite, porque o mosquito que se encontra em Portugal não demonstra
capacidade de transmitir a malaria africana.. mas transmitia muito bem os plasmodios existentes aqui.
Há um lugar em Águas de Moura, e que se chamava na altura, se não estou em erro, Centro de Paludologia.
Foi este centro, com o apoio de verbas americanas - um projecto muito grande da Rockefeller -, que fez
todo o trabalho de erradicação da malária em Portugal. Um trabalho destes tem a ver com o financiamento,
com o funcionamento de uma boa estrutura, exige que se esteja sempre em cima do acontecimento e que se
tenha um registo de dados, de forma a que nunca se perca o trabalho em termos de continuidade.
Sabemos que o Instituto de Higiene e Medicina Tropical se concentra sobretudo na investigação. Dá
também algum apoio na informação à população?
O Instituto tem um serviço que se chama Consulta do Viajante. Antes de viajarem para os países onde
há risco de contraírem a doença, as pessoas devem aí se dirigir para pedir informações sobre os riscos
e a prevenção a fazer.
As escolas de Londres, de Itália e de Espanha têm, na Internet, de acordo com a Organização Mundial de
Saúde, uma boa informação sobre as precauções que se devem tomar.
Quais os novos campos de investigação e o que há de novo nesta área?
É difícil dizer o que há de novo, pois todos os dias há novidades. Mas, a maior parte da investigação
está a ser feita em biologia molecular (descobrir novas moléculas), em imunologia (como é que o parasita
responde, como é que as pessoas respondem ao parasita nas diversas fases do seu desenvolvimento: quando
entra, quando vai para o fígado, quando sai do fígado e vai para os glóbulos vermelhos) e também em
serologia.
Outro aspecto importante é a padronização das técnicas. Há uns tempos atrás não havia métodos comuns.
Hoje sabe-se que, para se determinar as zonas e as pessoas naturalmente imunes à doença, é importante
trazer amostras de sangue de diversos locais e cada investigador vai estudar uma amostra. Se não se
seguir o mesmo protocolo não vamos chegar a conclusões verdadeiras.
Disse que havia diferenças nas respostas dadas pelas pessoas infectadas.
Para que o parasita entre tem de haver uma interacção significativa, que tem a ver com aquilo a
que se chama receptores. Se a hemácea não tiver esses receptores o Plasmodium não consegue fazer
uma ligação para invadir. Portanto haverá pessoas que, não tendo os receptores, são automaticamente
resistentes. Assim, a existência do receptor é muito importante. Mas vamos pôr a pergunta ao contrário.
Imaginemos que dois de vós foram de férias para S. Tomé, onde há muita malária. Chegaram lá e os dois
estiveram nos mesmos sítios, foram igualmente picados por mosquitos. Ao regressarem, um entrou em coma,
foi para o hospital e morreu de malária. Ao outro não lhe aconteceu nada. Há quatro possibilidades:
- um deles não tinha receptores;
- tinham sistemas imunitários diferentes, portanto, a resposta foi diferente: um tinha uma resposta
muito forte e defendeu-se, o outro não;
- a doença pode não se desenvolver; se as hemácias não forem as relevantes ao desenvolvimento do
parasita.
- por coincidência, um dos indivíduos foi submetido a picadas por mosquitos não infectados.
- o que não adoeceu, tinha feito prevenção e estava portanto protegido.
Que fundos tem o Instituto?
Dentro do Instituto, eu trabalho num centro de investigação que se chama Centro de Malária e Outras
Doenças Tropicais. Somos nós quem vai buscar o dinheiro aos subsídios nacionais e europeus. A nossa
investigação é feita na base de projectos que nós elaboramos e a partir dos quais escrevemos a pedir
dinheiro, porém podemos garantir que não há dinheiro em excesso nem fácil de se obter.
E os projectos são todos aprovados?
Não, porque depois o mundo é muito competitivo.
Nós às vezes mandamos 15 projectos e só 2 são aprovados. A qualidade científica dos jovens de hoje,
quando terminam os cursos e se vão doutorar, é muito boa. Há uns anos atrás, um estudante levava 8 anos
para fazer um doutoramento. Hoje leva 4 anos. Se não o fizer em 4 anos já está ultrapassado. hoje a
vida cientifica é mais difícil e competitiva.
O Instituto forma novos investigadores?
Nós formamos imensos. Podem formar-se de várias maneiras. Por exemplo, daqui, de Torres Vedras,
a Dinora e a Ana entraram como estagiárias de investigação ou entraram a fazer estágio de licenciatura
(quando acabam os cursos têm de fazer o estágio).
Normalmente, os candidatos a investigadores vão para lá e fazem um estágio que dura 6 meses, podendo
ir até um ano. Se são muito bons, nós tentamos que eles fiquem para um mestrado ou doutoramento. Ou seja,
nós fazemos um projecto que eles terão de desenvolver, para o qual pedimos verbas ou em Portugal ou em
Bruxelas.
O Centro faz investigação em muitas áreas diferentes, não faz só em malária. Na malária existe uma
enorme disciplina de trabalho, os jovens não têm horário, trabalham fins-de-semana, têm de ser fluentes
em inglês, têm de saber escrever publicações científicas e, logo ao fim de um ano, artigos em inglês.
Portanto, quando Podem ir sozinhos para qualquer lado.
Hoje a investigação é das áreas mais competitivas. Além disso, nós não fazemos só investigação,
temos de dar aulas, temos de operar o Ciência Viva, que dá muito trabalho. Temos de fazer muita
administração científica, de responder a cartas, de contactar os colegas, de organizar reuniões que
são só de conversa ou temáticas, relatórios, etc. E convida-se gente de todo o lado, ou, então, fazemos
parte das chamadas redes europeias da malária, em que estamos associados a 10 laboratórios europeus,
com os quais temos de nos encontrar, uma vez por ano, para discutir coisas.
Quais são as habilitações necessárias para se trabalhar no Instituto?
Têm de ser licenciados. Podem ser licenciados em tudo o que for ligado às ciências da vida: Biologia,
Farmácia, Veterinária, Medicina, Bioquímica.
Eu tenho uma pessoa a trabalhar comigo que nunca tinha visto um Plasmodium. É importante
aproveitar a experiência de cientistas de outras áreas, é importante trazer essa experiência para a
malária.
Nunca tem férias?
As férias são reduzidas. Já trabalhei nos EUA, em dois lugares; no Brasil, e em África e na Escócia,
e agora trabalho aqui.
Quando comecei em Portugal, iniciei com uma bancada e dois microscópios, com uma equipa pequena e
hoje nós temos 8 projectos internacionais e uma equipa de 17 pessoas, das quais 13 não são pagas pelo
instituto, são pagas por bolsas ou por projectos. Portanto, manter uma equipa não é fácil.
É preciso muita disciplina?
Muita, muita disciplina. O que me tem custado mais é a parte da disciplina, embora não me possa
queixar, também tenho de falar das coisas boas. Recentemente foram dois jovens investigadores que
estão comigo quem escreveu um relatório justificativo de apoio financeiro recebido de Bruxelas.
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Trabalho realizado pelo grupo da Escola Secundária Henriques Nogueira
Apoio e revisão científica de Virgílio do Rosário, investigador do Centro de Malária e Outras Doenças Tropicais
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