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TUBERCULOSE
Doença do século XXI

Na batalha contra a tuberculose, o Bacilo de Kock ganha terreno aos antibióticos. As mutações deste destemido bacilo tornam-no cada vez mais resistente aos anticorpos e aos medicamentos. Leonor Noronha, investigadora do Centro de Malária do Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Lisboa, explicou as razões desta crescente resistência e o modo como são tratados os doentes.

Trinta e cinco países responderam ao apelo da Organização Mundial de Saúde, permitindo determinar a proporção de casos de tuberculose multirresistente actualmente existente. Cada país estudou 555 pessoas que foram submetidas a um tratamento com os quatro antibióticos mais usados. A resistência detectada a estes 4 antibióticos foi, em média, de 1,4% para o total de casos estudados.

Segundo Leonor Noronha, do Centro de Malária do Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Lisboa, nos últimos anos, o cenário da doença mudou devido a factores como "a crescente expansão demográfica, os elevados índices de pobreza em algumas regiões do globo, a importação de mão-de-obra de países onde a endemia tuberculosa atinge taxas graves, o progressivo aumento da idade média de vida de algumas populações e, consequentemente, o envelhecimento imunitário em indivíduos infectados pelo Mycobacterium tuberculosis, o desemprego, a toxicodependência e o surgimento da infecção pelo VIH".



O grupo da Escola Manuel Cargaleiro com Leonor Noronha,
investigadora do Centro de Malária do Instituto de Higiene e Medicina
Tropical de Lisboa


A tuberculose surge agora sob formas diferentes da clássica. Dada a claudicação das defesas do organismo e considerando que os bacilos de Koch se dividem todas as 24 horas, as populações bacilares são em número cada vez maior. Este notável aumento proporciona o aparecimento de mutações do Bacilo de Kock (Bk) resistentes aos fármacos antituberculosos.

A tuberculose surge agora sob formas diferentes da clássica. Dada a claudicação das defesas do organismo e considerando que os bacilos de Koch se dividem todas as 24 horas, as populações bacilares são em número cada vez maior. Este notável aumento proporciona o aparecimento de mutações do Bacilo de Kock (Bk) resistentes aos fármacos antituberculosos.

O incumprimento dos tratamentos tuberculostáticos também tem levado a um aumento e a uma selecção de bacilos de BK resistentes às terapêuticas, principalmente aos dois fármacos mais activos (a isoniazida e a rifampicina). Criam-se assim as estirpes de BK multirresistentes.


Microfotografias de macrófagos (glóbulos brancos) a fagocitarem bactérias responsáveis pela tuberculose (Mycobacterium tuberculosis - MTb)


Nos hospitais com grande aglomerado de imunodeficientes, há grandes possibilidades de surgirem infecções cruzadas entre os doentes com estirpes de BK multirresistente.

Para se combater a doença ou tratar um indivíduo com qualquer tuberculose (normal ou multirresistente), quer esta se localize nos pulmões ou noutro local, tem de se seguir dois passos, conforme explicou a investigadora Leonor Noronha. "Primeiro os pacientes com suspeita de tuberculose são diagnosticados por um Rx ao tórax e confirmados pela pesquisa de bacilos álcool resistentes (BAAR) no exame directo e cultural da expectoração, das secreções brônquicas ou do LBA, com identificação da micobactéria envolvida em testes de sensibilidade aos antibacilares. Segue-se, numa segunda fase, um tratamento quádruplo (com 4 antibióticos) com duração de 6 a 24 meses". Os mais usados são a isoniazida, a rifampicina, a pyrazinamida, a estreptomicina e o etambutol, consoante o tipo de resistência encontrada. Na fase inicial utilizam-se os antibacilares ou antibióticos de 1ª linha, os mais fracos, e, se houver resistência, são utilizados outros mais fortes (de 2ª linha). Se estes também não forem eficazes, como último recurso, os médicos podem realizar uma cirurgia para extracção dos tecidos mais afectados.

Neste momento, existem casos de tuberculose multirresistente que subsiste a todos os antibióticos conhecidos, provocando, inevitavelmente, a morte dos indivíduos.


Os sintomas

Alguns dos sintomas provocados pela tuberculose ou pela tuberculose multirresistente são a tosse com escarro por mais de 4 semanas, a falta de apetite, o emagrecimento, a febre taciturna, a dor no peito, os suores nocturnos, o cansaço fácil e a rouquidão.

De acordo com as explicações de Leonor Noronha, as bactérias da tuberculose entram, na maioria das vezes (cerca de 95%), pelas vias respiratórias, embora também possam entrar por via digestiva, cutânea, conjuntival, amigdalina, placentária e genital. Depois, dirigem-se para a corrente sanguínea e alojam-se no local que tiver as condições mais favoráveis à sua fixação. Logo, as bactérias podem alojar-se em qualquer parte do corpo como, por exemplo, rins, fígado, gânglios linfáticos, ossos, etc., provocando a necrose dos tecidos.

Para diagnosticar a doença, os médicos fazem raios X, examinam a expectoração para verificar se contém BK, realizam análises sanguíneas e, ainda, o teste da tuberculina. Neste teste cutâneo, que determina se uma pessoa possui anticorpos contra o bacilo, é injectado na pele um pequeno preparado, que consiste num derivado de proteína purificado de Mycobacterium tuberculosis (PPD). Um inchaço avermelhado, indica uma infecção anterior de BK ou uma imunização positiva contra a tuberculose. Toda esta investigação confirma o diagnóstico.

Em Portugal, um grupo de investigadores do Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Lisboa, do qual faz parte Leonor Noronha, trabalha no âmbito da tuberculose mas ainda não efectuou trabalhos com as estirpes multirresistentes. Outras instituições estão a levar a cabo investigações com vista à descoberta de novos químicos que possibilitem a criação de um novo antibiótico contra estas últimas.

Algumas pessoas consideram que não é correcto falar numa grande evolução nos antibacilares, pois ainda se utilizam os que foram inventados há 20 anos.


Trabalho realizado pelo grupo da Escola Secundária Manuel Cargaleiro
Apoio e revisão científica de Fernando Ventura e Leonor Noronha, investigadores do Centro de Malária e Outras Doenças Tropicais