1º Fórum Ciência Viva - Intervenção do professor Mariano Gago
1º Fórum Ciência Viva
Intervenção do Ministro da Ciência
Lançado há cerca de um ano, o Programa Ciência Viva afirmou-se
como contributo indispensável para a promoção da cultura
científica de base em Portugal.
Este objectivo foi construído em torno de duas prioridades claramente
afirmadas: a importância decisiva da escola na formação
de capacidades de aprendizagem científica efectivamente utilizáveis
ao longo da vida, e a necessidade imperiosa de sublinhar o papel insubstituivel
da experimentação - isto é, da confrontação
organizada do pensamento e do real - na apropriação de cultura
científica.
A concretização prática destas prioridades fez-se definindo
instrumentos de acção que simultâneamente as explicitassem
e conseguissem mobilizar os actores relevantes.
Foram três esses instrumentos.
O primeiro, precisamente o que hoje nos reune i.e, o Programa Ciência
Viva na Escola, dirigido às comunidades escolares - e destinado a promover
projectos de acção nas escolas capazes de mobilizar para práticas
de ciência viva o maior número de alunos e, potencialmente, de
induzir na escola maior cultura científica, pela aliança - a que
apelámos - da comunidade científica com a escola básica.
Cobrindo hoje várias centenas de escolas e envolvendo dezenas de milhares
de alunos em todo o país, o Programa Ciência Viva enraiou-ze nas
dinâmicas transformadoras da escola e tornou-se insubstituivel.
Passado este primeiro ano de vida, que a vós se deve, importa continuar
e reforçar o Ciência Viva na Escola, dotando-o de maior capacidade,
e orientando-o em função da experiência adquirida e da reflexão
que será produzida pela Equipa Internacional de Avaliação
e Acompanhamento aqui presente cujo trabalho não quero deixar de agradecer
e de realçar, assim como o da Comissão de Selecção.
A este respeito, gostaria de vos propôr dois temas de análise
possivelmente orientadores do Programa durante os próximos anos: por
um lado, o reforço das
relações entre a Escola básica e as instituições
científicas portuguesas - Laboratórios e Centros de Investigação,
mas também empresas, museus, hospitais, através do envolvimento
mútuo em acções de educação científica
e da geminação de escolas com instituições de ciência
e tecnologia; por outro lado, o reforço de prioridade nas aprendizagens
científica e técnica nos primeiros anos de escola, isto é,
no ensino infantil e muito especialmente, na escola primária.
Lançar um programa específico para a educação
científica na escola primária será, estou convencido, um
meio essencial para a educação científica não só
das crianças mas das suas famílias. A sua concepção
como programa aberto, orientado para a escola mas mobilizador de professores
e famílias para a sua própria educação científica
permanente, poderá contribuir para estimular e renovar a educação
permanente em Portugal.
O segundo instrumento de intervenção do Programa visa criar,
em todo o país, Centros de Ciência Viva, espaços interactivos
de divulgação científica para o público em geral,
locais privilegiados de encontro de actores regionais apostados na intervenção
cultural, educativa, profissional e económica, centros de apoio à
Escola e unidades de formação e estágio de professores
e animadores. Nestes Centros exercer-se-á a prática profissional
da divulgação científica entendida não como espectáculo
da ciência mas como diálogo experimental livre , por diferentes
meios de comunicação, com a generalidade da população
e com as escolas.
Lançámos já o primeiro Centro de Ciência Viva de
Faro, a abrir este Verão, e contribuimos para a concretização
do Planetário do Porto, a inaugurar antes do final do ano.
Apelo à iniciativa regional para a multiplicação da oferta
de Centros Ciência Viva em todos os distritos do País, por associação
de autarquias e empresas, escolas, centros de juventude, Universidades, Politécnicos
e Centros de Investigação, Parques Naturais, Hospitais, Associações
ou outras entidas empenhadas em desenvolver com o MCT parcerias duráveis
e mobilizadoras.
O terceiro instrumento de intervenção, visa o estímulo
ao movimento associativo para a promoção da cultura científica
e tecnológica em Portugal.
O movimento associativo - suportado em associações formais ou
em grupos e movimentos informais - é fonte essencial de aprendizagem
democrática e de formação para a cidadania. É como
instrumento de participação informada na vida cívica que
as acções associativas em prol da cultura científica ganham
sentido e devem ser valorizadas (como expressões genuínas de actividade
política dos cidadãos). O seu reforço e enraízamento
no tecido social e nas controvérsias que mobilizam a opinião será
um factor decisivo da modernização informada da democracia portuguesa.
A acção a que chamámos Astronomia na Praia foi um exemplo
de acção mobilizadora (mais de cem mil pessoas em 1996) levada
a cabo por associações e grupos de astrónomos amadores
que este ano, sob a designação Astronomia no Verão, será
prosseguida também no interior do País.
Estamos apostados em continuar e apostar com persistência no apoio ao
movimento associativo para, em parceria com o Estado e no pleno respeito da
autonomia das instituições, assumir um papel crescente na acção
cultural científica e tecnológica em todas as áreas da
sua intervenção. A criação de um Forum de Associações
para a Cultura Científica e Tecnológica é uma iniciativa
que desde já propomos como forma concreta de estruturar e amplificar
a acção associativa e a participação para a cultura
científica e tecnológica em Portugal. Esse Encontro, poderia prolongar-se
sobre a rede RCTS e a Internet,
entretanto estendida a estas Associações.
Um quarto e último instrumento de intervenção afigura-se-nos
indispensável para o futuro. Trata-se de conceber e orientar um programa
de apoio à divulgação científica nos media entendidos
estes em sentido lato: meios de comunicação como a televisão,
a rádio, o jornal ou o livro, mas também exposições
ou viagens, CD-Roms ou conteúdos na Internet. Este programa será
lançado no próximo ano, com base na experiência entretanto
adquirida na avaliação da linha de financiamento público
permanentemente aberta no Ministério da Ciência e da Tecnologia
e que correntemente apoia diversas acções de divulgação.
A cultura científica e tecnológica dos cidadãos é
um dever de cidadania e uma condição de participação
informada na vida social e económica. Não é pois um objectivo
exclusivo de professores, animadores e comunicadores ou de cientistas. Mas o
papel insubstituível dos cientistas e de outros profissionais das
ciências e das tecnologias na promoção da cultura científica
de base dos cidadãos é insubstituível e constitui, em meu
entender, parte essencial da responsabilidade social dos cientistas.
O envolvimento da comunidade científica e das suas instituições
na promoção da cultura científica deve ser reforçado,
especialmente na escola básica. É prioridade assumida da nossa
política científica promover esse envolvimento das instituições
científicas e dos cientistas na educação científica
de base da
população portuguesa.
A actividade científica real, os seus saberes e práticas, comunica
com as restantes actividades humanas, é por elas condicionada e delas
recebe alimentos e estímulo, assim como ela mesma contribui para o seu
enriquecimento e para a formação da reflexividade crítica
e das capacidades de interpretação, de argumentação
e controvérsia.
Na tradição cultural portuguesa - marcada nos séculos
de afirmação da ciência moderna pela intolerância,
o dogmatismo e a perseguição ao espírito livre - o combate
à retórica balofa que lista definições e classificações
como se de verdadeiro saber se tratasse (e não de meras convenções)
continua na ordem do dia.
Por isso, é necessário reafirmar o primado essencial da experimentação
na formação de cultura científica - repito experimentação,
como actividade organizada de confrontação do pensamento e do
real, e portanto não só implícita nas ciências da
natureza mas também nas de índole social e humana.
Esse combate é também um combate social, porque a retórica
estática privilegia sempre os que dispõem, à partida, de
maior capital de cultura simbólica e dos meios formais de actualizar
esse capital, designadamente pela capacidade de uso da língua.
Experimentar não é maravilhar com o espectáculo do insólito
produzido em ambiente de laboratório ou com equipamento científico
ou multimédia. O espectáculo da ciência pode suscitar curiosidade
e atenção - e é, nessa medida, útil na formação
da cultura científica. Mas, sem pensamento, sem diálogo estruturado
sobre o porquê das coisas, sem controvérsia, sem enigma, sem verdadeira
experimentação, não há ciência nem educação
científica.
Pensar a formação da cultura científica de base é
assim um grande desafio que o programa Ciência Viva constrói à
vista de todos e hoje expõe e debate como contributo para a melhoria
segura da nossa cidadania.