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1º Fórum Ciência Viva - Discurso de Abertura
 
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1º Fórum Ciência Viva


Discurso de Abertura

Melhorar o ensino experimental das ciências é um investimento no futuro e não um luxo a ser consentido, se e quando os recursos o permitirem.
Neste sentido, o Ministério da Ciência e da Tecnologia criou o Programa Ciência Viva, destinado a promover a difusão alargada da cultura científica e tecnológica na sociedade portuguesa. Este é, podemos dizê-lo, o seu objectivo mais lato. Na sua vertente mais restrita, porque mais focalizada, tem como destinatários privilegiados os estudantes dos ensinos básico e secundário.
Assim, em Junho de 1996, foi lançado o Concurso Ciência Viva através do convite à apresentação de propostas de acção no âmbito do ensino experimental das ciências, no quadro de um protocolo celebrado com o Ministério da Educação. As propostas então recebidas foram analisadas por uma comissão de selecção, constituída por especialistas nacionais na área do ensino experimental das ciências.
É importante referir o carácter prospectivo desta iniciativa, dado que, ao mesmo tempo que se estimulava a comunidade educativa, científica e empresarial a trabalharem para um mesmo fim, também se pretendia fazer um primeiro levantamento da situação actual neste domínio. Por essa razão se constituiu uma comissão científica internacional que acompanha o desenvolvimento deste processo, fornecendo relatórios de acompanhamento e avaliação das acções.
Este Forum que nos reúne hoje, neste lugar, é a resposta a um tempo marcado por um ano lectivo, em que se partilharam recursos, conhecimentos e estratégias, num espaço de eleição que é a escola. Este tempo e este espaço teceram uma rede, entendida no sentido mais real, de quem disponibilizou conhecimentos, trocou experiências, experimentou dificuldades, caminhou nas dúvidas e assim foi praticando a arte de ensinar e aprender, através da observação, da medição, do registo, que são, afinal, os processos vivos da experimentação. Tê-lo-emos conseguido? É esta pergunta que vai ficar muito viva durante estes dois dias, dias abertos ao questionamento, à busca de parcerias que nos permitam trabalhar melhor no próximo ano. Onde estão as dificuldades e que fazer para as superar? A resposta a estas perguntas talvez modifique a situação daquele aluno do 12º ano que confessava:
"Eu até aos dezasseis anos queria ser cientista. Tinha assim uma vontade de querer mudar o mundo....aquela professora fazia-nos sentir que estávamos num laboratório a investigar alguma coisa. Era espectacular"
e depois - alguém perguntou - a escola deu-te o gosto por esses assuntos e também to tirou?
"Não - respondeu - Foi a vida cá fora"
Na verdade, o dentro e o fora faz parte de uma grande escola que deve, de uma forma natural dotar o cidadão de meios de entendimento activo, assente nas práticas experimentais. Sabemos que a ausência de uma aprendizagem experimental científica pelos nossos alunos, abre o caminho a processos de entendimento onde se instalam as lacunas, diremos mesmo os vazios, que eles dificilmente suportam.
Muita da aprendizagem científica tem de ser feita muito cedo na vida, de modo a criar rotinas e o gozo pelo real concreto, de uma forma organizada e sistemática.
Como equacionar o interesse pela ciência e tecnologias com a ausência de condições para a sua aplicação e desenvolvimento?
O motor que impulsiona essa vontade curiosa de entender as coisas reside na capacidade de colocar questões acerca de algo que nos surpreende e queremos conhecer melhor. Esse exercício simples do espanto aparece nas situações mais inesperadas. Lembremos o notável filme "Atalante", de Jean Vigo e aquela cena algo irónica e muito bela em que o personagem Père Jules responde ao miúdo que assiste, divertido, a uma cena por ele mesmo provocada: "Já vi coisas mais incríveis do que pôr um disco a tocar com um dedo. A electricidade, por exemplo, sabes o que é a electricidade?"
Certamente que a resposta a esta pergunta encerra menos magia do que a possibilidade de se pôr um disco a tocar sem recorrer a um gramofone.
O ensino das ciências constitui um meio eficaz de apropriação daquilo que as ciências produzem. Estamos ainda longe de obter resultados que permitam que este Forum seja um balanço optimista do que em Portugal se faz em boas em condições laboratoriais. Mas também por isso este é o Forum Ciência Viva I. Outros certamente se seguirão, em próximos anos, até que os protagonistas sejam os nossos alunos e os alunos dos nossos alunos. Por agora, observemos os resultados deste Programa, neste ano lectivo de 1996/97.

Rosalia Vargas



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