Os elementos que a seguir se apresentam resultam dos documentos-síntese
das comunicações apresentadas pelos coordenadores dos projectos.
Não são aqui descritos objectivos ou actividades desenvolvidas
no âmbito de cada um dos projectos em particular, mas sim contribuições
críticas sobre: objectivos, processos e contributos do Programa Ciência
Viva para o trabalho realizado nas escolas; identificação de obstáculos
decorrentes do sistema de ensino e propostas de resolução, nas
vertentes dos curricula, formação de professores e condições
de trabalho nas escolas; finalmente, propostas para o desenvolvimento do Programa
Ciência Viva.
1. Elementos para avaliação do Programa Ciência Viva:
a) Aspectos positivos
· A mobilização de apoios financeiros, processados de uma
forma autónoma em relação aos mecanismos tradicionais de
financiamento e apoio nas escolas, permitiu concretizar acções
e adquirir recursos indispensáveis à concretização
de projectos que já algum tempo haviam sido concebidos pelos professores
mais motivados para a melhoria da educação científica e
tecnológica nas escolas;
· A dinamização e reanimação do trabalho
de Clubes de Ciência, dentro e fora da escola;
· A colaboração entre diferentes graus de ensino, incluindo
o ensino superior: "(…) Muito positivo o contacto que se estabeleceu
entre professores e alunos de diferentes níveis(o entusiasmo e curiosidade
dos mais novos estimularam e motivaram os mais velhos, que se entregaram ao
Projecto de forma excepcional)"; "O Ciência Viva fez nascer
a a esperança de concretização de projectos, de experimentar
práticas pouco usadas no nosso sistema de ensino e partilhar projectos
com outras escolas de diferentes níveis";"Importante, ao nível
da intervenção de estudantes do ensino superior, o impacte do
projecto na sua formação como futuros docentes, através
da concepção e desenvolvimento de algumas experiências para
a sala de aula";
· Realçada frequentemente a possibilidade de dinamizar sessões
multidisciplinares: "O Ciência Viva permitiu, não só
fazer uma divulgação genérica das potencialidades deste
método em sessões interactivas, permitindo para além da
prática experimental, uma articulação de conceitos interdisciplinares
de vário ramos das ciências".
· Nas vantagens da intervenção de empresas foi acentuada
a possibilidade dos alunos complementarem os seus conhecimentos curriculares
com a realidade profissional: "(…) abriu aos alunos (e também
aos professores que aderiram ao Projecto) uma vertente da vida profissional
que lhes era desconhecida e lhes proporcionou um contacto directo com a realidade
do mundo do trabalho. (…) Contribuiu para a sensibilização
dos jovens para a competitividade do mundo do trabalho e para a necessidade
de adquirirem uma formação global e uma postura profissional que
ao meio escolar não cabe nem pode dar."
b) Dificuldades do implementação dos projectos
· Calendarização do lançamento dificultou o estabelecimento
de contactos e a apresentação de candidaturas;
· Calendário de atribuição dos subsídios
dificultou a execução de algumas fases dos projecto;
· O tempo necessário para a importação de alguns
equipamentos: "Dificuldades na transação comercial de aparelhos
que não existem em Portugal"
· Preocupações com a realização dos testes
e das provas globais, associados com o restante trabalho docente, não
permitiram envolver o número de alunos que tinha sido previsto;
· Dificuldades na coordenação do trabalho, resultante dos
horários dos professores e alunos e do facto dos projecto envolverem
mais do que uma escola.
2. Problemas decorrentes da organização do sistema de ensino
a) em termos curriculares
· perspectivas de ensino que não valorizam a interdisciplinaridade;
· pedagogias que privilegiam a memorização de conteúdos
desenvolvendo apenas a sua aplicação mecanicista:"o maior
problema na implementação de tarefas de caracter experimental
que envolvam a aprendizagem de conteúdos matemáticos surge ligada
à gestão do currículo.";
· os currículos não mostram ao aluno as vantagens da sua
aprendizagem e a aplicação à realidade por eles vivida;
b) em termos de organização do tempo, espaço e recursos
escolares
A ausência de estímulos inovadores no seio das comunidades escolares.
A inexistência de condições para o trabalho interdisciplinar:
"A falta de tempo, insuficientes condições nas escolas, carências
de espaços e outros indicadores apontados pelos docentes são menos
importantes do que a a falta de trabalho dos docentes em equipas interdisciplinares,
o que implica uma deficiente gestão do tempo, espaços e equipamentos."
A falta de condições para o trabalho laboratorial: "(…)
verificou-se a enorme carência de assistência técnica e manutenção
que as escolas equipadas sofrem, assim como a completa ausência de laboratórios
em outros estabelecimentos"
c) em termos de formação de professores
· Ausência de uma componente de ensino experimental na formação
inicial e contínua dos professores;
· A formação inicial e contínua dos professores,
em particular dos docentes de matemática e de outras ciências com
forte componente experimental, não consagram um lugar de destaque aos
meios informáticos e computacionais;
3. Propostas para a consolidação do ensino experimental das ciências nas escolas:
O alargamento do ensino experimental das ciências exige que se tomem medidas
profundas:
· Introduzir como componente obrigatória do currículo a
modelação de situações do quotidiano;
· Promover a interdisciplinaridade;
· Facilitar uma gestão e utilização intensiva de
todos os meios informáticos e laboratoriais existentes nas escolas;
· Envolver os alunos em projectos que aproximem comunidades científicas
e afins, dentro e fora da escola:" Projectos assumidos pelas escolas, tais
como: Laboratórios e Matemática, Oficinas de Formação;
Clubes ou Laboratórios de Matemática, Palestras, exposições
entre outras são actividades que tem de ser reinventadas. Na escola,
o aluno tem de ser sensibilizado para a realidade matemática do nosso
mundo e ajudado a compreender o interesse formativo e filosófico que
encerra esta ciência."
· É urgente que a formação contínua de professores
integre processos de auto-formação;
· Concretizar de projectos de forte caracter interdisciplinar e transdisciplinar
- procurar promover inovação educacional e investigação
metodológica assente na investigação-acção;
· Multiplicar os espaços laboratoriais;
· Garantir a existência efectiva de aulas práticas na carga
curricular das disciplinas científicas;
· Admitir técnicos de laboratório que colaborem na montagem
das experiências, garantam o seu funcionamento e procedam à manutenção
do equipamento;
· Promover a elaboração de notas explicativas sobre os
equipamentos e a criação e difusão de guias de experiências e de livros de apoio para os professores:
· Definir planos de aquisição de novos equipamentos, após
teste de adequação dos mesmos à sua finalidade específica
e com obrigação das casas vendedoras fornecerem catálogos
em português descritivos do modo de funcionamento e que permitam a sua manutenção;
4. Propostas para o desenvolvimento do Ciência Viva:
É preciso:
. Encarar o Ciência Viva como uma actividade permanente e inserida nas actividades dos professores, com consequências na valorização do curriculum e incluidas no tempo de serviço.
· Promover um debate mais alargado para busca de plataformas de colaboração
dentro das áreas temáticas.
Uma importante medida que poderia ter um alcance significativo era atribuir, aos professores participantes nas acções, créditos semelhantes aos da frequência de cursos de formação, para efeitos de
mudança de escalão na carreira.